Inês Fernandes: «Estamos a abrir caminho para futuras gerações»
Capitã Inês Fernandes com a Taça (Miguel Nunes/ASF)

ENTREVISTA A BOLA Inês Fernandes: «Estamos a abrir caminho para futuras gerações»

FUTSAL06.01.202407:30

Fixo, de 34 anos, recorda, em entrevista a A BOLA, a conquista recente da Liga dos Campeões pelo Benfica, esperando que a UEFA torne oficial o torneio nos próximos anos. «Cronicamente insatisfeitas» é um dos segredos para o domínio das águias dentro de portas. Aborda ainda a dificuldade de atrair talento para o futsal feminino.

- No passado dia 22 de dezembro, o Benfica venceu a Liga dos Campeões (não oficial) frente ao Bitonto nas grandes penalidades [5-4]. Que mémorias guarda dessa noite?

- Acho que ainda não recuperei da montanha-russa de emoções em que nós estivemos. Há poucos dias, o grupo comentou que ainda sentíamos o cansaço físico, mas também emocional. Quando vencemos na final o Bitonto, as nossas caras diziam tudo: era muito alívio e uma felicidade tremenda por termos finalmente conquistado este objetivo. Começámos praticamente a perder e foi um jogo difícil, porque elas apostavam muito na subida da guarda-redes, algo que não é muito utilizado no futsal feminino em Portugal. Em termos de qualidade técnica, elas poderiam estar um pouco acima de nós, mas sabíamos que a nossa equipa era muito mais homogénea e que teríamos mais capacidade e resistência ao longo dos 40 minutos, o que acabou por se verificar.

- Como capitã, deu o exemplo e apontou o 1-1 antes do prolongamento...

- Sim, foi um grande alívio! Antes do golo, tínhamos mandado não sei quantas bolas ao poste e parecia ser daqueles jogos em que estávamos a criar oportunidades, chegar perto, mas pecávamos na finalização, que tem sido um pouco o nosso problema esta temporada em relação à anterior. O meu remate nem saiu assim com tanta força, mas apanhou a guarda-redes delas em contrapé e nós nem festejámos praticamente. Quase toda a equipa caiu no chão no sentido 'ok está 1-1, estamos por cima do jogo e vai virar para nós’.

- Agradeceu à Marta por ter defendido 4 grandes penalidades?

- Nós treinámos esse tipo de situações e sabíamos que teríamos vantagem nos penáltis. Antes da marcação, eu disse na roda que tinha muito orgulho no que tínhamos feito e que bastava rematar à baliza, coisa que fazemos desde crianças. Tínhamos de pôr a bola na baliza e depois confiar na Marta e correu tudo bem.

- É o título mais importante desta secção?

- É o culminar de um trabalho, que vem de há muito tempo. O Benfica fez um investimento grande em criar um plantel muito homogéneo, com 10 soluções de campo, mais as guarda-redes. Esta temporada, acrescentámos mais uma unidade de treino de campo, as jogadoras começaram a dedicar-se mais fora da quadra, nomeadamente na qualidade de sono, na alimentação. Agimos praticamente como profissionais a levar isto mesmo à sério. Depois de vencermos as provas nacionais regularmente, nós quisemos provar que conseguimos também ganhar a nível europeu.

- O facto de ser um título europeu não oficial tira um pouco o sabor desta conquista?

- As equipas entraram nesta competição com espírito de disputar um título europeu. É lógico que estamos à espera de que a UEFA torne oficial o torneio, mas nós não podemos escolher as competições em que queremos entrar. Estamos a abrir caminho para futuras gerações e se os clubes e as principais referências da modalidade não marcarem presença, dificilmente haverá uma Liga dos Campeões, porque a UEFA não vai ter essa iniciativa. Temos de gerar um interesse no público e nós jogadoras temos de levar isto a sério. Se há competição europeia de seleções, tem de haver também uma para os clubes.

- Em 2008, chegou ao Benfica proveniente do Novos Talentos. Sentiu dificuldades para entrar numa dinâmica de clube grande?

- Na altura, o Benfica era tetracampeão da Taça Nacional, que era a competição similar ao campeonato. No entanto, quando vim para cá perdemos a Liga. Pensei que estava a dar azar, mas foi um ano de muitas mudanças. Eu fui parar a Covilhã para estudar e só vinha treinar à sexta-feira. Saí do meu clube de bairro, onde era a estrela e entrei num balneário de tubarões, com um grupo de jogadoras muito sarcásticas, onde havia ‘tough love’ e diziam-me que não podia falhar, porque elas ainda melhores do que eu naquela altura.
Posteriormente, esse grupo, que já tinha uma idade mais avançada, começou a sair pouco a pouco e eu, a Sara Ferreira e a Ana Catarina tivemos de aguentar o barco, numa altura de reconstrução do Benfica. Nos primeiros anos foi difícil, porque quando ganhas estás no topo, mas quando perdemos somos nós as responsáveis e no Benfica isso sente-se muito mais em relação aos outros clubes. Foi complicado digerir essa situação em termos emocionais, porque sou benfiquista e sentia que estávamos a falhar perante os adeptos.
Com o passar dos anos, as coisas foram se moldado. O Benfica começou a apostar cada vez mais, porque viu que nós queríamos fazer disto um projeto a longo prazo e nós tínhamos uma margem de progressão brutal na altura. Penso que a fornada de juniores, onde estavam a Fifó e a Janice ajudou ao nosso processo para voltarmos a vencer regularmente.

- O que mudou nestes 16 anos?

Capitã de equipa

- A Inês atual é muito menos impetuosa do que nesse tempo. Hoje, jogo de forma diferente, mas a minha grande valia é conseguir transmitir a força do coletivo em prol dos desejos individuais, que é normal existirem. Tanto a Fifó e a Janice querem ser a melhor jogadora do mundo, a Ana Catarina a melhor guarda-redes, mas primeiro está o Benfica. Consigo convencê-las que se tiverem um determinado rendimento pelo clube, as coisas vão acontecer.

- Alguma vez pensou que a Fifó e a Janice iam se tornar nas jogadoras que são?

- Talvez não. Mas lembro que a Janice sempre teve um controlo de bola inacreditável. Eu sou fixo e tive de a defrontar e ela partia-me toda. Ela fazia cenas tão rápidas, que eu nem conseguia reagir. Sentia-me incapaz de a travar. Já no caso da Fifó, ela, com 16 anos, era uma personagem. Não gostava de treinar, mas notava-se pormenores muito acima da média. Nunca pensei que elas conseguissem manter esta performance durante tantos anos e sem lesões. Elas são verdadeiramente atletas de futsal, levam isto como um emprego e, sendo assim, espero que uma delas ou ambas consigam chegar ao objetivo de ser a melhor jogadora do Mundo.

- No plano interno, qual é o segredo para este constante domínio?

- Primeiro, somos adeptas e adorámos vencer por este clube. Não que não fizéssemos por outro também, mas é um ingrediente especial. Depois, o clube escolhe jogadoras cronicamente insatisfeitas, que gostam muito de competir. Vencemos o título europeu e já estamos a pensar na Taça da Liga [no final de janeiro]. É inconcebível desleixarmo-nos a nível interno, porque se perdemos vamos dar moral ao adversário para dizerem que venceram a melhor equipa europeia e talvez sejam elas as melhores e o nosso pensamento passa por acreditar que temos a melhor equipa e que somos um alvo a abater. Para nos ganharem, essa equipa tem de merecer. Até nos treinos, o Alex [treinador] promove este espiríto de competição.

- Como analisa a competitividade da Liga?

- Tem sido cada vez mais difícil cativar meninas para o futsal e é normal que não haja talento a surgir. O Nun´Álvares, que é, neste momento, o nosso maior rival, tem procurado reunir uma fornada de jogadoras com a minha idade para serem mais competitivas. É claro que olham também para a formação, mas devem sentir dificuldades em atrair talento. Atualmente, o futebol feminino é uma porta de sucesso para uma vida profissional como atleta e acho injusto pedir mais investimento aos clubes, quando isso depende de apenas uma ou duas pessoas, num país onde a realidade socioeconómica não é a mais forte. 
O segredo passaria por ter mais camadas jovens, mas é um caminho a médio a longo prazo. Mesmo na realidade do Benfica, o nosso desafio será segurar os talentos, pois somos campeãs europeias e os clubes estrangeiros, nomeadamente em Espanha e Itália, estão atentos. Será curioso ver como o clube vai substituir o talento existente daqui a algum tempo.

- Sente essa diferença entre o futebol e o futsal feminino?

- Claro. A UEFA não aposta no futsal como faz no futebol. Lá, as competições estão todas organizadas há uma série de anos e aqui só tivemos o Campeonato da Europa em 2019 e o primeiro Mundial oficial será apenas no próximo ano. Enquanto a FIFA e a UEFA não apostarem verdadeiramente em nós, será cada vez mais complicado atrair jogadoras para o futsal feminino. Existem melhorias, mas queria que fossem mais rápidas para que a minha geração ainda aproveitasse (risos). Espero que com o boom do futebol feminino nós possamos sair também beneficiadas. Elas têm cada vez mais público, mais condições de trabalho e isso pode influenciar na nossa modalidade para podermos competir ao mais alto nível.

- Com uma carreira feita toda em Portugal, sentiu em algum momento tentação de rumar ao estrangeiro?

- Sim, quando estava no quinto ano de medicina. Era um ano de barreira e tinha de passar as cadeiras todas para seguir em frente, mas deixei uma para trás (Medicina 2). Nessa altura, as propostas rondavam os 2 a 3 mil euros mensais em dez meses, o que era muito dinheiro em relação aos valores de cá. Mas na verdade, eu nunca quis ser profissional de futsal. Adoro treinar e jogar, mas nunca quis que a minha vida fosse apenas isso. Quando me fizeram esse convite, ainda pensei em aceitar, mas optei por ficar cá. O Benfica ainda não estava totalmente estabilizado e sempre acreditei que podia ser uma coisa extraordinária no futsal, mas era preciso que as pessoas ficassem e não estou arrependida da minha decisão, porque ganhei muito desportivamente, o que compensou.

- Foi o futsal a intrometer-se na medicina ou vice-versa?

- A medicina sempre foi o plano A. Se perguntassem à Inês de 17 anos se ela iria continuar a jogar na faculdade, a resposta seria não, porque eu encarava a modalidade como um part-time e não algo com que iria fazer dinheiro. O clique deu no Mundial Universitário, em que eu, com 20 anos, percebi que tinha talento e mordeu-me um bichinho de que tinha coisas para fazer na modalidade.

- É exigente conciliar as duas coisas?

- Tive de fazer escolhas.Quando comecei a ganhar dinheiro com o futsal, privilegiei a vida de atleta, porque sei que tenho um prazo físico para render, enquanto na medicina irei lá estar até à idade da reforma. Dá para fazer as duas coisas, porque raramente temos treinos bi-diários e se houver são opcionais. Existe essa compreensão que é uma modalidade que ainda não é profissional e, por isso, as pessoas tem o seu direito ao horário de trabalho.

- As finais perdidas pela Seleção são o ponto negativo da carreira?

- Sim, são a maior mágoa. A final de 2019, para mim, não tem história. Chegámos com expetativa de ganhar e fomos atropeladas pela Espanha [derrota por 0-4] e aí lembro-me, com 30 anos, de pensar em abdicar da Seleção e dar espaço a outra geração. Contudo, comecei a investir mais no futsal: arranjei um personal trainer por fora, a cuidar mais de mim e acreditei que podia fazer mais alguma coisa. Em 2022, foi duro porque perdemos nos penáltis [1-4]. Tivemos muito perto, dominámos o jogo e pensámos que podia cair para o nosso lado. Existe essa desilusão, mas aprendi que nós enquanto atletas temos de viver o presente, porque ninguém se lembra do passado. Tenho orgulho em vestir a camisola de Portugal, mas temos de reconhecer o mérito da Espanha. O que me deixa mais chateada foram as minhas exibições, que não foram as melhores…

- Mundial-2025 é um objetivo?

- Não estou ansiosa. Estou super feliz porque a Fifa estabeleceu uma data oficial, mas tenho a sensação que não será para a minha geração. Eu vou preparar-me, dar o máximo no meu clube e se for convocada ótimo e vou lá para ganhar, mas estou focada no Benfica.

- Quais são os objetivos para 2024?

- Coletivamente, quero continuar a ganhar tudo. A nível individual, desejo estar livre de lesões e tornar esta modalidade semiprofissional no clube.

Inês Fernandes procurar ganhar tudo em 2024