Dinheiro e calendário ameaçam novo Mundial de Clubes
Festa 'blanca' em Wembley (IMAGO)

Dinheiro e calendário ameaçam novo Mundial de Clubes

INTERNACIONAL11.06.202409:29

Carlo Ancelotti já colocou Real Madrid fora da prova projetada para decorrer nos Estados Unidos em junho e julho de 2025. Depois, os ‘merengues’ emendaram-no. No entanto, ingleses e FIFpro também estão contra…

Aquilo que era falado à boca pequena há pelo menos quatro meses, recebeu, através de Carlo Ancelotti, treinador do Real Madrid, a amplificação que deixou a FIFA numa situação embaraçosa: o Mundial de Clubes, projetado pela instituição de Zurique para decorrer nos Estados Unidos em junho e julho de 2025, pode não passar de uma nuvem de fumo, que se desfaz, levada pelos ventos da discórdia.

Depois das tremendas ondas de choque das declarações de Carletto, os merengues sentiram necessidade de dizer que não era bem assim, e o que estaria realmente em causa seria a forma como o bolo total ia ser divido pelos 24 clubes, sendo que uns ficariam felizes com 10 milhões e outros, mais ricos tinham de receber mais. Daí que Ancelotti tenha dito que cada jogo da sua equipa valia 20 milhões.

Numa primeira versão, a prova renderia 50 milhões de euros a cada um dos participantes, 24 representantes de todas as Confederações da FIFA. Imediatamente houve quem fizesse contas e torcesse o nariz: atendendo às receitas previsíveis e às despesas inerentes à competição, provavelmente nem metade dessa verba seria passível de ser atingida.

Carlo Ancelotti, quando veio agora dizer que «os jogadores e os clubes não participarão nesse torneio» (e a seguir teve de fazer marcha atrás), revelou que a FIFA, afinal «pretende pagar a cada clube 20 milhões por esse Mundial, quando isso é o que vale um só jogo do Real Madrid.» Carletto foi ainda mais longe, afirmando perentoriamente que «outros clubes irão recusar estar presentes no Mundial de Clubes».

A BOLA sabe que há uma forte (e provavelmente irreversível) oposição dos clubes ingleses à nova competição (pelo menos com a prevista distribuição igualitária de dinheiro) e que a FIFpro, sindicato internacional dos jogadores, também está contra, argumentando com o excesso de jogos a que os futebolistas seriam expostos.

Será normal, atendendo à alteração de calendário que o Mundial de Clubes iria provocar nas provas nacionais, e atendendo a que a FIFA não pode impor a participação, daí que decorram negociações complexas com a ECA, que representa os clubes, que o rastilho publicamente aceso por Ancelotti (independentemente da segunda versão a seguir apresentada), faça sair a terreiro não só os clubes da Premier League e o Sindicato, mas também emblemas de outros países, especialmente dos Big Five, onde o impacto financeiro de 20 milhões não será nem determinante nem muito significativo.

Para já, Benfica e FC Porto, qualificados para a prova e com a expetativa de encaixarem 50 milhões, devem ponderar que, em primeiro lugar, o prize-money não ultrapassará os 20 milhões; e a seguir, que há uma possibilidade real deste Mundial acabar antes mesmo de ter começado.

É um pouco, no que toca ao dinheiro, o mesmo que sucedeu com o novo formato da Liga dos Campeões, durante muito tempo tratada como a Liga dos 100 milhões e que, afinal, ainda pode vir a render menos que o modelo anterior, em função da alteração de parâmetros, aos clubes portugueses.

Questão académica será tentar perceber qual o valor atribuído pela FIFA, no contexto do Mundial de Clubes de 2025, a Benfica e FC Porto, caso venha a vingar a tese de pagamentos diferenciados, numa lógica orwelliana de que todos são iguais, mas uns são mais iguais que os outros…