CAN-2025: meias-finais têm mais pressão que a final
As meias-finais são, para mim, o jogo de maior pressão numa grande competição. Mais do que a final. Porque aqui o sonho está tão perto que quase se toca, mas ainda não se concretizou. E é exatamente nesse espaço intermédio que a mente pode trair o corpo.
Só quem já viveu este momento sabe do que falo. Ainda assim, partilho.
Na meia-final já não há surpresas, já não há desconhecimento. As equipas conhecem-se, os jogadores sentem o peso do momento e o erro ganha uma dimensão quase irreversível. Quem perde fica a um passo do objetivo máximo, sem a possibilidade de o disputar. É uma dor silenciosa, difícil de gerir.
Felizmente, conseguimos ultrapassar a África do Sul e chegar à final. Vencemos nas grandes penalidades. Foi um jogo duríssimo, mas estivemos muito bem. Gerimos o ritmo, recuperámos bola nas zonas laterais do adversário e saímos várias vezes em superioridade nos corredores. Chegámos ao 1–0 com o jogo controlado. Fizemos o 2–0, que acabou anulado pelo VAR, transformando-se num penálti contra nós. O jogo passou para 1–1 e seguiu para os penáltis.
O penálti decisivo foi marcado por Iheanacho. Um jogador com estatuto, histórico no Leicester, mas que vinha de lesão. Tínhamos reservas quanto ao seu estado físico. Ainda assim, acreditámos nele. Pela qualidade técnica, pela frieza e pela capacidade de decidir em momentos extremos. Entrou preparado para aquele instante — e não falhou.
Enquanto treinador, sei que a preparação para uma meia-final é sobretudo emocional. A componente tática está praticamente fechada. As ideias estão assimiladas. O que muda é a forma como cada jogador reage à pressão do quase. Quase finalista. Quase campeão. Quase histórico.
É aqui que se vê quem consegue jogar simples quando tudo à volta pede apenas resultado. Quem continua a cumprir, a decidir bem, a respeitar o plano mesmo quando o estádio aperta e o relógio acelera. Muitos jogadores chegam a esta fase fisicamente no limite, mas o verdadeiro desgaste é mental.
Nesta CAN, as meias-finais colocam frente a frente seleções com identidades muito fortes: Senegal x Egito e Marrocos x Nigéria. Quatro países habituados à exigência, à pressão externa e à expectativa de vitória.
Vamos perceber qual dos selecionadores conseguirá assumir-se, acima de tudo, como gestor de estados emocionais. Saber quando falar, quando calar, quando proteger e quando exigir. Uma palavra a mais pode criar ansiedade. Uma palavra a menos pode criar vazio.
A final ainda permite libertação. A meia-final não. Nada. Pode dar o bilhete para a tão esperada final ou um simples jogo do 3.º ou 4.º qualificado.
Por isso vos digo, a meia-final exige controlo, frieza e coragem para aceitar o desconforto.
Não ganha quem quer mais.
Ganha quem aguenta melhor. Quem vive o momento com maturidade.
Porque no futebol de seleções, muitas vezes, o jogo mais difícil de vencer é aquele que dá acesso ao último. Nós conseguimos. Chegámos à final.