Fábio Veríssimo contestado antes de começar a apitar o clássico entre FC Porto e Benica para os quartos de final da Taça de Portugal 2025/2026. Foto Miguel Nunes
Fábio Veríssimo contestado antes de começar a apitar o clássico entre FC Porto e Benica para os quartos de final da Taça de Portugal 2025/2026. Foto Miguel Nunes

No futebol português estamos na mesma, mas ainda pior que a lesma

Boa parte dos clientes atuais do produto-futebol (a maioria?) querem sangue e sabem que o têm de graça. Veremos que consequências terá, no futuro, continuar a alimentá-los a comunicados

Está marcado para hoje um dos jogos mais importantes da época portuguesa. Dois dos maiores clubes nacionais discutem a passagem às meias-finais da segunda competição mais importante do nosso calendário.

Isto, por si só, deveria valer todas as parangonas. Acresce que um dos contendores está em alta (primeiro lugar no campeonato e objetivo principal à vista, mesmo que ainda a meio do caminho), e outro está a pontos de perder o penúltimo objetivo da época, considerando que a passagem à fase seguinte da UEFA Champions League ainda é objetivo. O campeonato, enfim, deixemo-nos de histórias...

Perante um jogo deste calibre o que é que sucederia numa sociedade evoluída e preparada para conferir ao futebol a dimensão que merece, vendo as coisas em perspectiva e concedendo os devidos descontos aos exageros de cima e de baixo? Isso mesmo: um belo espetáculo para seguir, bom cartaz de uma noite de quarta-feira no início de um ano civil, com resultado imprevisível e o mundo a continuar o seu caminho no dia seguinte.

Entrando na especificidade, talvez houvesse adeptos interessados em perceber como vão as equipas armar-se, tentar aplicar as suas forças, diminuir os pontos fortes do adversário, enfim, tentar ganhar. Mas a verdade começa aqui: os adeptos não querem saber disto. Não querem saber do jogo, das suas vicissitudes, da possibilidade de errar ou acertar e nessa distância entre errar ou acertar em determinado momento residir a chave de um resultado final.

Todos gostamos mais de novelas fáceis de digerir, e portanto nada como enviar um comunicado na véspera do jogo a contestar a nomeação do árbitro. E de repente a conversa já está outra vez onde os protagonistas do futebol português, ao que parece, verdadeiramente gostam que esteja (provem-me o contrário): quem tem mais influência fora das quatro linhas? De que cor é o manto esta noite ou esta época? Quem manda ou desmanda mais em quem?

Engraçado e curioso é o facto de estar em causa, no comunicado de ontem do FC Porto sobre esta meia-final, exatamente o mesmo árbitro cuja nomeação para a Supertaça Cândido de Oliveira o Benfica contestou, por entender que na temporada anterior tinha beneficiado o Sporting.

Andamos nisto e não queremos saber do produto-futebol, que no final do dia é a única coisa que há para vender. Se é para vender aos clientes atuais está tudo bem — cada vez querem mais sangue, mas de graça. Continuem a dar-lhes isso...