Diogo Ribeiro e o milagre de Doha
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EDITORIAL Diogo Ribeiro e o milagre de Doha

OPINIÃO13.02.202409:00

Proeza de Diogo Ribeiro não foi nada por acaso, mas não deixa de ser um acaso por cá

Perdi conta às vezes em que os professores de Educação Física perguntaram: «Então o que é que a turma quer fazer na aula de hoje?». Estava dado o pontapé de saída para mais uma hora ou duas a jogar futebol, satisfeita a vontade da maioria. Na altura era motivo de alegria, agora fico a pensar em tudo aquilo que se perdeu. Quantos jovens se afastaram do desporto porque nunca tiveram a oportunidade de experimentar verdadeiramente a modalidade que os ia conquistar? Quantos campeões se perderam porque não conheceram o desafio certo?

Aqui e ali a culpa até pode ter sido da preguiça do professor, mas as boas intenções de muitos terão esbarrado na falta de condições. Desde logo pelo papel minimalista que o desporto tinha (e tem) no percurso estudantil, mas sobretudo pela limitação de materiais e de infraestruturas. Quantos, como eu, terão passado quase duas décadas a estudar em escolas sem um pavilhão capacitado para acolher regularmente as aulas de Educação Física? Muitas horas de atividade desportiva anuladas pelo mau tempo, ou cumpridas em regime de serviços mínimos.

Se esta é a realidade no plano educativo, agora imaginem quem está num contexto competitivo e precisa das melhores condições possíveis para otimizar resultados. 

O país não pode esperar que os jovens apareçam à porta dos recintos desportivos, a oferta desportiva é que deve ser suficientemente forte para tirá-los do sofá e a desviar-lhes os olhos dos ecrãs. Alargar a prática é diversificar o conhecimento e combater a falta de cultura desportiva que existe em Portugal. 

Esse progresso tem sido demasiado lento, e mais inspirado em projetos isolados, desta ou daquela federação, do que propriamente numa estratégia de fundo, dependente da politiquice. O fabrico de campeões continua entregue ao esforço sobrenatural de quatro ou cinco pessoas – entre o próprio atleta, família e treinadores -, e do apoio de clubes que, muitas vezes, até à criatividade apelam para disfarçar as limitações.

Por isso é que olhar para o título mundial de Diogo Ribeiro nos 50 metros mariposa é ver mais do que o maior feito da natação portuguesa. É ver um daqueles milagres que ocorrem de vez em quando no desporto nacional. Não foi nada por acaso, mas não deixa de ser um acaso. Uma superação extraordinária de um jovem que encontrou refúgio na natação depois de perder o pai, com apenas quatro anos de idade, e que aos 16 anos, quando já era uma promessa da modalidade, sofreu um acidente de mota que lhe podia custado mais do que parte do indicador direito, reconstruído dias depois.

Falta cultura desportiva em Portugal, mas ironicamente o povo reconhece essa carência, e por isso sente estas façanhas de forma especial. Em Doha, ontem, a má partida só reforçou a superação e deu mais significado à conquista. Foi a nadar com o coração que Diogo Ribeiro, de apenas 19 anos, conquistou o país.