Triplete em Aljustrel, com internacionais no plantel
A época do Mineiro Aljustrelense não podia ter corrido melhor. A equipa comandada por João Nunes ganhou tudo o que havia para ganhar - primeiro o campeonato, depois a taça e, por fim, a supertaça - e está de regresso ao Campeonato de Portugal, seis anos depois. «Foram 22 vitórias, seis empates e zero derrotas, que são o culminar de uma época, que, para muitos pode dizer-se perfeita, mas, para nós, foi uma época de muito trabalho», diz o mister, a A BOLA.
Mesmo com o triplete nas mãos, o técnico fala numa «época difícil», com «dificuldades de gestão do plantel», em que alguns jogadores só jogam, mas outros têm outra atividade profissional, tendo, por isso, de haver «uma gestão diferente desses jogadores».
Além disso, há as adversidades em termos de… dinheiro, às quais (quase) nenhuma equipa das zonas mais isoladas do país se livra. «Toda a gente sabe das dificuldades que estes clubes têm, pelo meio onde estão inseridos, onde os apoios não são muitos. Trabalhamos de segunda a domingo por amor à camisola, ninguém é remunerado», refere, ao nosso jornal, o presidente Paulo Guisado.
«Neste momento, o clube está estável financeiramente, mas é à custa de muito sacrifício de todos nós. Temos o apoio no Município, da Almina, e da restauração local, que nos tem dado uma enorme ajuda. Todos os dias, a maior parte dos restaurantes de Aljustrel dão uma ou duas refeições aos jogadores de fora», enaltece o dirigente.
No Campeonato de Portugal, o objetivo é claro - a manutenção. Contudo, até para lográ-la, há coisas que vão ter de mudar, alerta João Nunes: «Há dias em que vamos ter de treinar de manhã e de tarde. Não poderemos ter tantos jogadores que tenham outra atividade profissional. Já implica outras coisas. Parece que isto, às vezes, passa despercebido, mas estamos a uma época de uma grande montra que é a Liga 3, onde já se tem uma estrutura profissionalizada. E nós somos realistas, ainda não temos uma estrutura para almejar essa Liga 3.»
«Muitos dos nossos adversários têm grandes investimentos e um historial muito grande no Campeonato de Portugal. Pelo contrário, este projeto é novo e vai ter dores de crescimento», avisa o treinador.
Da seleção de Cabo Verde para o Aljustrelense
Num plantel diferenciado para a realidade do Baixo Alentejo, o Mineiro Aljustrelense ostenta dois internacionais por Cabo Verde - Gielson Borges (28 anos) e Rony Varela (29).
No caso do central, Gielson Borges, foi mesmo a seleção que o trouxe para Portugal: «Eu não era para ter vindo. Num torneio da CHAN, o Artur Jorge Vicente, ex-internacional cabo-verdiano e ex-jogador do Boavista e Sporting, viu-me jogar e gostou. Estava num excelente momento de forma e acabei por vir para o Sertanense, do CP. No entanto, infelizmente houve o entrave do certificado internacional. Quando o pedimos, já era tarde, então só comecei a competir em janeiro e as coisas descarrilaram um bocado.»
Com o médio, Rony Varela, foi diferente: «Eu vim para Portugal por causa dos estudos. Fui treinar a alguns clubes, mas por causa da documentação já não consegui jogar. Depois comecei a trabalhar e um amigo meu sugeriu vir para Aljustrel e voltei a jogar.»
Gielson Borges chegou a Portugal em 2022, proveniente da Académica da Praia. Rony Varela aterrou um ano mais tarde, oriundo do Sporting da Praia. Ambos foram internacionais antes de virem para Portugal, tendo participado no apuramento da CHAN de 2022 - uma competição em que apenas são convocados jogadores a atuar nos respetivos países.
Fazendo uma antevisão àquela que poderá vir a ser a prestação no Mundial, num grupo «complicado» com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, o centrocampista está confiante de que os Tubarões Azuis «vão surpreender». O defesa, por sua vez, acredita que a sua seleção, tendo jogadores «com muita garra, inteligência, força e união que tão bem retratam o povo cabo-verdiano», pode ter «alguma chance».
Gielson Borges tem um golo apontado por Cabo Verde, numa partida diante da Serra Leoa, a 27 de julho de 2022. Não é de espantar. Apesar de defesa, é um finalizador nato. Nesta época, foi o central com mais golos no campeonato de Beja. Foram seis (em 21 jogos) e todos de cabeça: «Sempre tive faro para o golo. Nas camadas jovens, na seleção de Cabo Verde e em todas as equipas que passei marquei sempre golos.»