A deceção do Jamor e de uma época sem títulos
Há algumas semanas escrevi que a temporada do Sporting deveria ser dissecada no tempo certo, quando terminasse a época desportiva, após a final da Taça de Portugal no Jamor. Esse tempo para o balanço desportivo, sem antecipações, chegou agora da forma mais dura, inusitada e dolorosa para todos os sportinguistas.
A derrota diante do Torreense permitiu o feito inédito de uma equipa da Liga 2 conquistar uma Taça de Portugal pela primeira vez. Tal nunca tinha acontecido. E o insucesso diante da equipa de Torres Vedras não foi somente o de perder uma final, foi a última oportunidade para salvar uma época sem títulos, confirmando-se os sinais de alerta bem notórios dos últimos dois meses de competição.
A dimensão do falhanço não deve ser escamoteada com justificações espúrias, considerando que, uma derrota numa final, com todo o respeito, contra uma equipa do segundo escalão, possa ser uma coisa normal, ou relativizada e embrulhada num futebolês de lugares-comuns sobre os imponderáveis do futebol, em sentenças como «é o futebol».
Depois do sonho do tricampeonato, depois da ambição legítima de confirmar uma nova hegemonia interna, depois de uma campanha na Champions que chegou a alimentar um sonho de dimensão europeia, sobra apenas o segundo lugar no campeonato. Um segundo lugar com importância objetiva pelo acesso aos milhões da Liga dos Campeões, com o inerente impacto no orçamento para a construção do plantel e a capacidade de atrair o talento, mas que, na realidade crua e dura, não confere qualquer troféu que acrescente ao palmarés do clube, pelo que pouco ficará para recordar desta temporada desportiva.
E convenhamos, sendo intelectualmente honestos, mesmo o objetivo do segundo lugar foi só atingido muito mais por muito demérito do Benfica nos últimos jogos, em particular contra o Famalicão e o SC Braga, do que propriamente pela competência e afirmação do Sporting na reta final do campeonato.
A objetividade dos números pode, por vezes, tentar salvar narrativas que se constroem para justificar desempenhos menos conseguidos, sendo verdade que o Sporting discutiu as competições até ao fim. Só que com o soar do apito final da época nada sobrou, perdendo-se a Supertaça em agosto, a Taça da Liga em janeiro numa meia-final, contra o depois vencedor Vitória SC, o campeonato ficou condenado em abril, no dérbi contra o Benfica, e a final da Taça de Portugal contra uma equipa de uma divisão inferior.
Terminou com uma humilhação desportiva ao ver uma equipa de um escalão menor fazer história precisamente contra o Sporting. Há recordes que, julgo, ninguém quer oferecer e os adeptos do Sporting não mereciam de todo ficar vinculados à oferta deste registo.
Quem acompanha de perto o Sporting percebeu que houve uma quebra emocional depois do jogo de Londres e do dérbi contra o Benfica. Mas também é verdade que, desde cedo e durante a época, nos momentos decisivos o Sporting claudicou.
Houve uma incapacidade de transformar os jogos decisivos em momentos de asserção. Nos desafios contra os rivais diretos, o Sporting não teve arte nem engenho para levar de vencida os seus adversários. É pouco, muito pouco, vencer apenas um jogo numa época inteira nesses dérbis e clássicos do futebol português, referindo-me à única vitória conquistada no jogo da primeira mão das meias-finais da Taça de Portugal contra o FC Porto.
E o falhanço no Jamor não nasceu subitamente no Estádio Nacional. Há responsabilidades a montante que não devem ser mascaradas. A forma como o Sporting construiu o plantel e abordou o mercado não se revelou minimamente feliz.
Numa época longa, com um calendário sobrecarregado e competitivo, com lesões recorrentes e com o desgaste acumulado evidente em jogadores nucleares, exigia-se maior profundidade ao plantel e, particularmente, melhores segundas linhas.
É difícil atacar todas as competições somente com um avançado centro de inegável qualidade, ficando refém da única solução feliz do mercado de verão, o colombiano Luis Suárez, por indisponibilidade recorrente da alternativa, Fotis Ioannidis. O plantel foi ficando curto em posições críticas, dependente de regressos que não se confirmaram, faltando a profundidade necessária para causar impacto em momentos chave da época quando a exigência apertou.
Compete à estrutura o planeamento, a avaliação das lacunas e a construção do plantel, devendo ser assumida a quota-parte de responsabilidade na frustração dos objetivos deste ano com escolhas e opções que ficaram por perceber, como, por exemplo, a troca, não direta, efetuada em janeiro de Alisson Santos por Souleymane Faye.
Até se percebe, sob o ponto de vista financeiro, a importância da mais-valia com a eventual venda de Alisson para o Nápoles, caso a opção de compra venha mesmo a ser exercida, mas deverá ser reconhecido o claro downgrade e o impacto negativo no desempenho desportivo da equipa com esta troca de soluções.
A renovação de Rui Borges, pelo seu timing, ganhou por ora outra acuidade e uma dimensão mais delicada. Caso a decisão tivesse hoje de ser tomada, agora no tempo certo para balanços de época, Frederico Varandas justificaria da mesma forma a extensão do contrato? Continuariam a prevalecer as razões da valorização do processo, da estabilidade e da continuidade?
Acresce outro ponto que me parece relevante. O planeamento antecipado da próxima época, com notícias sucessivas sobre reforços, saídas, vendas e fins de ciclo para vários jogadores que marcaram uma era recente do Sporting, dificilmente terá ajudado ao foco total na decisão do Jamor.
Uma final joga-se no presente e disputa-se no relvado. Não se joga no mercado de verão, nem nas manchetes sobre quem fica, quem sai ou quem já está prometido a outras paragens. Há um tempo para preparar o futuro e há um tempo para competir pelo presente. Quando se começam a encerrar ciclos antes de se disputar o último troféu possível, corre-se o risco de passar ao grupo a ideia, mesmo involuntária, de que a época já terminou antes de a mesma findar.
Se se justificava antecipar algumas entradas pela possibilidade de ser disputada uma fase prévia de qualificação à Liga dos Campeões e para se adiantar aos rivais em alvos identificados, terá sido muito imprudente vazar a informação sobre o fim de ciclo e uma renovação de atletas, os quais deixam um legado e uma impressão digital muito vincada no Sporting dos últimos anos e a quem devemos estar gratos.
Por fim, desta final deve igualmente extrair-se outro ensinamento, relacionado com o processo e os critérios de venda dos bilhetes para o jogo da final, num palco com mística e uma história a preservar, mas que é limitado e carece urgentemente de investimento na sua requalificação, por parte da Federação Portuguesa de Futebol.
A prioridade atribuída aos Lion Seats na venda inicial para a final da Taça deixou um sabor amargo em muitos sócios. Não se trata de menorizar quem investe mais ou de criar divisões artificiais entre sportinguistas. Trata-se de perceber que, numa final no Jamor com uma oferta de lugares insuficiente, critérios como a antiguidade da Gamebox, a assiduidade aos jogos e a presença sucessiva ao longo dos anos devem ser conjugados e priorizados na oferta disponível.
Quem está em Alvalade em noites frias, quem acompanha a equipa em horários ingratos, quem faz da presença uma forma de militância, não pode sentir que a ligação ao clube vale menos do que uma categoria comercial de lugar.
O Sporting tem de ser moderno, competitivo e financeiramente racional. Mas não pode perder a sensibilidade popular que explica a sua grandeza e projeta o seu sucesso desportivo.