Todos os detalhes (até conteúdo de mensagens de Mário Branco) da transferência falhada de Schjelderup
O ex-diretor para o futebol do Club Brugge, Dévy Rigaux, confirmou que apenas os dois golos e a exibição contra o Real Madrid, na última jornada da fase de grupos da Champions, na Luz, impediram a saída de Andreas Schjelderup do Benfica para o clube belga.
«Sem dúvida, teria sido mesmo [jogador do Club Brugge]. Se ele não tivesse marcado duas vezes contra o Real Madrid, estaria simplesmente no Club Brugge, a sério. Ele estaria mesmo no Club Brugge. Eu e Bob [Madou, diretor financeiro] estávamos lá», partilhou, em entrevista no podcast MidMid.
«Conheço Schjelderup há muito tempo, porque o queríamos contratar quando ele estava no Nordsjaelland. Na altura, estive em Copenhaga por causa dele e, no final, o valor da transferência acabou por ficar tão alto que nós não conseguimos avançar. Mas continuei em contacto com ele. Também falava com o pai dele de vez em quando, porque o pai dele teve bastante influência na transferência», prosseguiu.
Rigaux contou que Schjelderup estava «convencido pelo projeto do Club Brugge» e que «já havia acordo com os agentes dele».
«Depois tivemos conversas telefónicas com o Benfica, também já tínhamos trocado algumas propostas. E foi aí que o Mário Branco, diretor geral do Benfica, me disse: ‘Olha, vamos focar-nos agora apenas neste último jogo da Liga dos Campeões, porque ele tem mesmo de estar presente, a equipa precisa dele. Temos demasiadas lesões, algumas suspensões e isso... Deixa isto passar e pronto. Temos de mudar mais uma coisa ou outra nas condições, mas vamos chegar a acordo.’ Foi o comentário dele. A probabilidade de correr bem era real», detalhou.
«Lembro-me perfeitamente. Estávamos a jogar nessa altura, claro, contra o Marselha, e recebi uma mensagem do Schjelderup, reencaminhada pelo agente dele, do género: ‘Pois, olha... vou ser titular aqui, é muito especial, não estava à espera.’ Ao ponto de ainda entrar no balneário do Ivan Leko [treinador] antes do jogo e dizer: ‘Os milagres ainda acontecem. O Mourinho colocou o Schjelderup a titular contra o Real Madrid.’ Ao que o Ivan diz: ‘Pois…’ E eu: ‘Bem, temos um acordo com ele, isto vai orientar-se. E o Benfica também vai acabar por aceitar.’ Mas, claro, estou a assistir ao jogo Club Brugge-Marselha e depois começo a receber aquelas mensagens a dizer que ele marcou dois golos... A dada altura já toda a gente estava a enviar mensagens, ao ponto de eu e o Bob [ Madou], a seguir ao jogo, olharmos um para o outro: ‘Vamos amanhã para Lisboa?’ ‘Sim. Sim, amanhã vamos para Lisboa.’ Com a certeza absoluta de que íamos.»
Rigaux deu depois pormenores da conversa com Mário Branco: «Durante a noite recebi uma mensagem, que só a vi de manhã cedo, por volta das 6 horas. O Mário Branco tinha enviado a mensagem por volta das 2.30 horas: ‘Estou a sair agora do estádio do Benfica. Só quero dizer-te que amanhã és muito bem-vindo para um café e talvez um pastel de nata ou algo assim. Mas... que fique muito claro: nós qualificámo-nos para a Liga dos Campeões [play-off], o Schjelderup marcou dois golos. Isto já não vai acontecer.’ De manhã, reencaminho essa mensagem para o Bob e peço-lhe: ‘Bob, quando acordares, liga-me.’ O Bob liga-me e diz: ‘E agora, o que vamos fazer?’ Eu disse: ‘Acho que devemos ir na mesma. Nós também estamos qualificados. Além disso, o jogador quer vir. Também lhe enviei uma mensagem esta noite. Por isso, simplesmente vamos. Também temos de ser grandes agora.’ Fomos para lá ainda com a crença de que poderia funcionar.»
Rigaux confessa que ainda acreditava que Schjelderup «estava convencido» e que o Benfica «estava focado noutra pista», ou seja, noutro jogador. «Portanto, isso também podia ajudar, o Benfica fazer outra transferência», justificou.
«Encontrámo-nos com os agentes do Schjelderup em Lisboa. Depois fomos recebidos no estádio pelo Mario Branco e pelo CEO do Benfica [Nuno Catarino] também. E nessa altura a posição deles foi mesmo: ‘Pois, isto aqui é muito difícil de explicar. Somos um clube de sócios e... não se pode simplesmente vender alguém, além disso, sim, o preço, etc.’ E depois, à noite, ainda veríamos o Schjelderup, e ele continuava a dizer: ‘Mas eu quero... eu quero ir para o Club Brugge. Quero mesmo fazer isto. Vou dizer isso amanhã, vou ligar agora ao Mario Branco.’ Só que ele [Mario Branco] estava a caminho do sorteio na Suíça, por isso não atendeu. ‘Também vou dizer isto ao treinador’. Mas depois chegou o sábado, ali por volta da manhã, com a mensagem: ‘Pois, eles não me deixam mesmo ir. Chamaram-me ao gabinete do treinador, com o Rui Costa, o presidente, e mais não sei quem... Sim, isto vai ser muito difícil.’ E aí soubemos: ‘Bem, pronto, acabou.’», concluiu Rigaux, ontem apresentado como diretor técnico do Feyenoord.