«Vendas de Diogo Sousa e Saviolo foram da Direção anterior, falta de tempo é uma falácia»
Ex-candidato tece duras críticas à atuação da Direção de Rui Rodrigues no mercado de verão. Taça de Portugal tem de ser prioridade... a pensar nas provas europeias.
— O prejuízo de 2025/26 foi justificado, em boa parte, pela ausência das provas europeias. Quão fundamental é essa vertente?
— Pode não ser o caminho mais fácil, mas há algo de que se esquecem sempre e sobre o qual já falei antes das eleições. Os títulos que o Vitória tem são taças. Supertaça, Taça da Liga e Taça de Portugal. Dá apuramento direto para as provas europeias. O Vitória, pelos títulos e pela questão financeira que o acesso direto às provas europeias proporciona, tem de apostar aí. É difícil, mas o Vitória tem chegado a várias finais e é aí que tem de apostar as fichas todas. Compreendo que os treinadores gostem de utilizar outros jogadores na Taça, mas não pode ser. O melhor caminho passa por conjugar a aposta na Taça e tentar alcançar os cinco primeiros lugares, mas temos o exemplo do Torreense. Se não perder a cabeça com a receita que entra, pode ter aí um ponto de viragem para crescer. O Vitória não pode é jogar contra uma equipa de amadores, como aconteceu agora [frente ao Lamelas], e ganhar 1-0, com grandes dificuldades.
— As grandes vendas do verão foram Diogo Sousa e Saviolo. Que balanço faz do último mercado?
— Essas vendas foram efetuadas pela anterior administração. Esta administração entra e refugia-se no argumento de que chegou numa fase avançada do mercado, o que não é verdade, uma vez que o atual presidente estava na administração da SAD, conhecia todos os dossiês, teve tempo para trabalhar e não conseguiu alienar um único ativo do Vitória. Pior do que isso é esta administração não ter conseguido colocar os excedentários. O presidente passa a vida a falar de «humanizar», mas não tratou o Charles, muito influente na conquista da Taça da Liga, da forma mais correta. O Fábio Blanco custou cerca de €1,2 M e está fora da equipa. O Vando Félix acabou por ser colocado, mas custou perto de €1 M e saiu sem retorno. Temos um plantel com cerca de 31 jogadores, com vários excedentários. Nem sem percebe bem como estão a trabalhar. São ativos do Vitória que deviam ser rentabilizados e esta administração demonstrou falta de capacidade. Não ter tempo é uma falácia. O presidente escreveu, na página 64 do programa eleitoral, que «partimos da experiência e do conhecimento acumulado e da responsabilidade de quem conhece o Vitória por dentro». Depois, a desculpa foi não ter tido tempo. Paulo Autuori, quando chegou ao Vitória, dizia que trabalhava, no máximo, com 25 jogadores. Jogam 11 e há logo 14 que ficam de fora. Ter seis ou sete a mais, que se estão a depreciar, é um grande erro. Esta administração focou-se em comprar, mas falhou na parte difícil: rentabilizar e equilibrar as contas.
— E como é que o Vitória pode valorizar novamente esses ativos?
— Veremos o que acontece em janeiro, mas o inverno é para ajustes cirúrgicos. Espero que tenham trabalhado essa matéria, porque é claramente um dos problemas do plantel principal.
— O ataque ao mercado fez-se com valores relativamente baixos e reforços a custo zero. Como se atinge o ponto ótimo de lutar pela Europa com as contas saneadas?
— Temos os exemplos de Gil Vicente ou Moreirense, que até ficaram à nossa frente. Passa pela definição de regras rigorosas.
— O Moreirense tem investimento externo, com o grupo Black Knight como acionista maioritário da SAD...
— Exatamente, mas com regras orçamentais que estipulam que não se gasta além de determinado teto. É preciso cuidado com a etiqueta do «custo zero», que muitas vezes se transforma num encargo avultado. Veja-se o caso de um reforço recente do Vitória... Um excelente futebolista, que espero que nos ajude muito, mas trata-se de um jogador que solicitou um aumento salarial que o anterior clube recusou pagar. Ficou livre. Será que o valor que o Vitória lhe paga é ajustado à realidade do clube? Teremos margem para uma mais-valia futura? Oxalá.... Mas tudo isto exige boas práticas de governação: definir patamares claros para evitar cedências em momentos de pressão. Dou-lhe um exemplo: o diretor desportivo da nossa lista tinha referenciado o Walace França, agora no Gil Vicente. Falou-nos de um vencimento acessível, que estaria entre os mais baixos do Vitória. O Gil Vicente avançou para a contratação e o jogador está a destacar-se. É este perfil que devíamos privilegiar. Compreendo a pressão do mercado, mas a realidade impõe-se: o Vitória não suporta um passivo de €85,3 M. Não pode continuar a aumentar a massa salarial. Não faz sentido termos orçamentos que duplicam os de equipas que acabam por ficar à nossa frente.
— Nesse âmbito, como é que a influência desportiva da V Sports pode beneficiar o Vitória?
— Defendendo os interesses do Vitória. Se houver partilhas de passe e o clube beneficiar de uma futura venda, pode ser uma hipótese. Não pode é vir um jogador que não gere mais-valias para o Vitória, só porque não tem espaço no Aston Villa. E vindo um diretor desportivo espanhol, o nosso [Fernando Meira] mantém o espaço? Ficam os dois ou só um? Isso não foi debatido. Esta administração disse que a formação era prioridade, mas a equipa principal tem muito pouca identidade da nossa formação, quando no passado recente sempre teve excelentes valores saídos de lá. Ao receber atletas do Aston Villa, vai tapar-se o espaço aos jogadores formados no clube. Renovaram com o Verdi, que me parece ser um excelente jogador, mas não tem tido espaço. O jogador formado no Vitória vai perder espaço porque o Aston Villa impõe outro jogador? Não é claro.
(Errata: artigo editado em relação à versão impressa — o Gil Vicente firmou uma parceria estratégica com o Brentford, mas não conta com investidor externo)