Sporting: responsabilidade partilhada
O coro ensurdecedor de assobios após as derrotas frente a LASK Linz e Académico de Viseu deixou marcas em Alvalade. Esta terça-feira, na receção ao Marítimo para a Taça da Liga, Rui Borges voltará a sentar-se no banco com o peso de quem entra num tribunal implacável.
O veredicto das bancadas será imediato, logo quando se anunciar o nome do técnico; provavelmente, será impiedoso, mas a análise exige muito mais do que apontar o dedo à solidão de um homem no banco de suplentes.
Seria intelectualmente desonesto colocar a responsabilidade apenas nos ombros do treinador. O Sporting definiu uma linha estratégica de renovação do plantel, pelo que quem a idealizou na parte do clube tem de assumir a sua quota-parte nesta crise precoce. Construir dinâmicas e consolidar processos com tantas caras novas exige tempo e paciência. São dois bens escassos em clubes desta exigência quando as vitórias não surgem frente a adversários percecionados como de menor dimensão.
O Sporting atempou transferências, executou bem o plano no mercado, mas sabia do risco que corria depois. A pré-época criou uma ilusão e o entusiasmo dela deve ser sempre colocado em perspetiva. Ritmos diferentes, adversários com nula pressão por pontos e um relógio que não causa incómodo quando caminha para os 90' nada têm a ver com o contexto competitivo oficial.
Posto isto, nada do que se viu e ouviu em Alvalade difere de outros clubes e recintos. E esse é um problema, porque raramente há volta-atrás nas emoções dos adeptos.
Rui Borges joga grande parte da sua margem de manobra frente ao Marítimo. Contudo, antes de se exigir a cabeça do treinador, convém lembrar que a equipa em campo é também o reflexo direto de um planeamento arriscado que «varreu» o passado recente. Alvalade ditará a sua sentença, mas a responsabilidade terá de ser repartida com os gabinetes.
Frederico Varandas teve, e deverá ter, reconhecimento pelo técnico de Mirandela. Mais difícil é o povo fazer o mesmo.