Viriato Sampaio, ex-candidato à presidência dos vimaranenses, olha com preocupação para a ausência de detalhes sobre as negociações com a V Sports

«Os interesses do Vitória de Guimarães não estão a ser defendidos»

Ex-candidato e líder do Movimento VSC teme que o acordo com a V Sports não beneficie os minhotos

Quatro meses depois de ter perdido as eleições do Vitória de Guimarães por apenas dois votos, Viriato Sampaio mostra preocupação com o rumo do clube. V Sports «está a aproveitar-se de uma situação financeira muito frágil», atira, em A BOLA, antes da Assembleia Geral de sexta-feira.

— A marcação das Assembleias Gerais para 30 de outubro e 6 de novembro tem gerado polémica. Qual o motivo desta calendarização no caso da segunda AG?

— É uma pergunta que tenho de devolver a quem a marcou. Nós tentaríamos sempre cumprir os estatutos, onde a AG extraordinária não tem uma data predefinida. A de aprovação de contas tem: até 30 de outubro. Dá a ideia que o acionista [V Sports], é que marcou a agenda das AG e obrigou a que a da votação da proposta de recompra da participação fosse até 30 de outubro. Deve ter a ver com os financiamentos que tinham de ser cumpridos até 30 de junho. Não foram e prorrogaram por mais 90 dias, prazo que termina no dia 30. No nosso entender, devia acontecer primeiro a aprovação de contas, ficando tudo muito claro sobre isso. Depois é que seria proposta a recompra da posição da V Sports na SAD. Inverteram a situação por pressão do parceiro.

— O presidente do Vitória, Rui Rodrigues, disse que esse prazo foi acordado com a V Sports.

— Compreendo que devem ter sido negociações difíceis, mas os estatutos são para cumprir, sejam quais forem as circunstâncias. É uma questão de trabalho, e podia ter sido feito, por exemplo, a 30 e 31, cumprindo os estatutos. Invertia-se: a 30 a AG de aprovação de contas e a 31 a outra. Nada impede que seja feito numa sexta-feira ou num sábado. O impedimento é que a aprovação de contas não ultrapasse 31 de outubro.

— O que considera ainda estar por esclarecer sobre a operação com a V Sports?

— As sessões de esclarecimento não comprometem a Direção, porque não ficam registadas. Ainda temos muitas dúvidas. Desde logo, a questão do direito de preferência da venda de ações a uma empresa do grupo, se a V Sports assim entender: não há um direito de preferência para o Vitória exercer. O valor a que chegaram: porquê 2 milhões de euros por 17%, com €1,8 M que a V Sports entregará? A questão de a V Sports entregar €1,8 M, o Vitória recebe €2 M e ter de passá-los para a SAD... Mas esse valor é para a V Sports ser ressarcida dos financiamentos que tem feito? Parece-me que não estão a ser defendidos os interesses do Vitória. Os compromissos que o Vitória assume nesta parceria são claros, os que a V Sports tem de assumir perante o Vitória não são, de todo. Não há registo de que tenha de fazer investimento em infraestruturas, sobre o plano desportivo do parceiro... Caso venham jogadores, não é claro se o passe é do Vitória ou do Aston Villa. Se forem emprestados com partilha dos vencimentos, quando forem vendidos o Vitória não fica a ganhar nada... Têm sido feitas diversas perguntas por sócios e as respostas, pelo menos da parte do presidente, são muito pouco claras. Dá a ideia de ter sido feito um caminho por parte dele, na administração financeira, de cavar uma cratera de passivo muito grande e agora entrega aos sócios uma proposta dizendo que é o único caminho. No nosso entender, não é.

— Esta rapidez da operação poderá estar relacionada com eventual falta de liquidez?

— Claramente. Esta semana falava com um grande empresário daqui de Guimarães, que me dizia: qualquer gestor tem de ter várias opções numa mesa de negociações, avaliando o melhor preço, o melhor prazo de execução e os maiores benefícios para a empresa. Nós não somos contra ter um parceiro ou um investidor. O que está mal é estar-se sentado à mesa com um único parceiro porque a situação financeira é muito débil. E o presidente está a apresentar uma proposta nesta linha: «Tem de ser este investidor, por este preço, com estas condições.» Não estão salvaguardados os interesses do Vitória, e é isso que nos preocupa. A nossa agenda é defender os interesses do Vitória. Não temos outra.

— Na campanha eleitoral, o Viriato Sampaio defendeu a parceria com a V Sports, correto?

— O que defendi foi que se já temos um parceiro dentro de portas, então temos de falar com ele. Mas temos de defender os interesses do clube. Se perguntarem ao presidente do Vitória, ele não é capaz de dizer o que é que o Aston Villa quer fazer com o clube. Eles têm uma participação num clube espanhol [Real Unión] e num clube francês [Annecy] e não se tem visto grande investimento. No acordo parassocial que está a ser feito e que nós já consultámos, não há nada que diga o que é que o Aston Villa vai fazer com o Vitória. Temos um capital próprio negativo de €36,8 M. €3,8 M representa 10% desse valor. É claramente alguém que está com dificuldades e está disposto a entregar, quase sem negociar melhores condições para os interesses do Vitória.

— Teme, então, que haja pouco benefício desportivo para o Vitória e perda de identidade?

— No Vitória somos diferentes, únicos dentro de campo e vamos a todos os estádios país fora. Mas esta Direção e o presidente da MAG ainda não perceberam que somos diferentes quando defendemos os interesses do clube. Sempre que são confrontados com uma proposta tão fraturante, que pode fazer com que daqui a 30 anos o clube esteja completamente diferente, os sócios intensificam a necessidade de esclarecimento. Atendendo a que as pessoas ligadas à V Sports são inglesas e no Reino Unido terminaram com as claques, será que esse parceiro terá o mesmo entendimento em relação aos apoios às claques organizadas do Vitória? Para nós, o clube e as claques são indissociáveis. As claques traduzem a identidade do Vitória. Há cerca de dez anos, houve uma AG com uma proposta para alterar em grande medida a situação acionista do Vitória e acolher eventuais novos investidores. Os sócios fizeram ver que não era o caminho certo. Dez anos depois, esta Direção está a apresentar uma proposta de teor semelhante. Isto não tem nada a ver com agendas. As eleições são em março de 2029. Queremos que esta Direção cumpra o mandato da melhor forma possível e que o Vitória tenha o maior sucesso. Nos últimos quatro anos, o responsável pela gestão financeira foi o atual presidente. Agora, apresentou os números que apresentou e a V Sports e a Nassef estão a aproveitar-se de uma situação frágil, causada pela má gestão dos últimos anos.

— De que forma poderia ser negociado um valor mais proveitoso para o Vitória?

— Temos a indicação de que a massa salarial do Vitória voltou a subir esta época. A V Sports baliza muito os valores de gastos que podem ser feitos dentro do orçamento aprovado. A V Sports percebe que, se não impuser essas balizas, continua-se a gastar como se não houvesse amanhã. A forma de demonstrar credibilidade à V Sports seria apresentando uma equipa que pudesse colocar as contas do Vitória no verde. Se continuam a ver os gastos e o passivo a aumentar, com certeza que vão apertar muito mais com esta administração, porque estão a zelar pelo dinheiro que lá têm. Uma das coisas que eles propõem é fazer, nos próximos 60 dias, uma reestruturação do passivo. Não está claro se é o passivo financeiro ou o comercial, ou seja, se estão só preocupados com as dívidas dos empréstimos ou também com as dívidas a fornecedores e a agentes. Vão só renegociar aquilo que eles próprios têm lá, que são cerca de €18,5 M de dívida que temos à MSD? O valor de que falam situa-se entre os 20 e os 30 milhões, superior ao que se deve à MSD, o que concede alguma margem para renegociar com os outros, mas não está claro. É fundamental a V Sports entender que tem uma administração capaz de conduzir as contas do Vitória ao rumo certo, mas parece é que tem consciência de que esta administração não consegue fazer isso.

«Estou sempre disponível para servir o Vitória»

Viriato Sampaio não deseja, «de todo», cenário de eleições antecipadas, mas garante prontidão em prol do emblema vitoriano. Por agora, aponta a março de 2029.

— Invertendo o paradigma: o que é que esta Direção tem feito bem no Vitória?

— Houve uma alteração de postura relativamente à anterior administração. Emitimos, inclusive, uma nota a saudar o facto de se terem retomado as conversações com a V Sports, ao contrário da Direção anterior, que tinha cortado relações. Esta administração reabriu o diálogo. Agora começamos a compreender melhor as razões que levaram a anterior equipa a fechar essa porta: a V Sports procurava impor condições desfavoráveis. Esta administração sentou-se à mesa numa posição de fragilidade negocial, com as contas degradadas. O atual presidente dizia na campanha eleitoral, a propósito do passivo, que «o jogo não acaba ao intervalo, acaba aos 90 minutos». Quando regressou para a 'segunda parte', o passivo agravou-se ainda mais. A V Sports impôs condições duras, aproveitando esse contexto.

— Pensando num eventual chumbo às propostas que vão a AG, qual o próximo passo do Vitória?

— A resposta compete ao presidente da MAG e ao presidente da Direção. Nas sessões de esclarecimento, o presidente afirmou que, caso esta proposta não seja aceite, terá de apresentar uma alternativa. Tem até março de 2029, data das próximas eleições, para encontrar soluções viáveis. Se os sócios chumbarem a proposta, será sinal de que consideram que este não é o melhor rumo, como aconteceu há dez anos. Nessa altura, as direções mantiveram-se em funções, surgiram alternativas e os problemas resolveram-se. É essa a obrigação dos órgãos sociais: encontrar soluções.

— Deseja que a atual Direção cumpra o mandato integralmente. Descarta um cenário de eleições antecipadas?

— Não é, de todo, o cenário que desejo, porque o Vitória carece de estabilidade diretiva e rumo definido. Até março de 2029, a equipa eleita tem o dever de trabalhar no sentido de recuperar o clube e colocá-lo no rumo certo.

— Mas se esse cenário vier a acontecer, está disponível para se candidatar novamente?

— Os cenários avaliam-se no momento em que surgem. Enquanto vitoriano, tal como qualquer sócio, estou e estarei sempre disponível para servir o Vitória, independentemente do contexto, seja em que cenário for.

— A equipa seria a mesma do último ato eleitoral?

— Sim, e manter-se-á em março de 2029. A equipa que constituí na altura manteve-se unida, coesa e a adaptar-se para ajudar o Vitória. Esta Direção entende que ter o contraditório ou alguém que não concorda é alguém que tem agenda própria. Não temos qualquer agenda que não seja a salvaguarda dos interesses do Vitória. Há uma grande massa associativa na cidade que partilha as preocupações relativamente a esta proposta [da V Sports]. A equipa é fantástica e mantém-se forte, ativa e dedicada à análise. Portanto, a equipa mantém-se estruturada e disponível para ajudar o Vitória. A única situação particular prende-se com o diretor desportivo [Diogo Boa Alma], pois desconheço se estará disponível no futuro, dado que tem em mãos propostas muito atrativas do estrangeiro. Mantém enorme ligação afetiva ao Vitória, mas a disponibilidade dele dependerá da evolução da carreira. Em março de 2029, logo falaremos.

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