Rui Borges, 45 anos, treinador do Sporting desde dezembro de 2024 - Foto: Imago
Rui Borges, 45 anos, treinador do Sporting desde dezembro de 2024 - Foto: Imago

Sporting: a gratidão não deve adiar o inevitável

'A Bola é redonda. O Verde é futuro' é o espaço de opinião em A BOLA de Pedro Ângelo, CEO da NAV e sócio do Sporting Clube de Portugal

Há decisões que não devem ser tomadas no calor de uma derrota, sob a pressão das bancadas ou em resposta ao ruído sempre impaciente que rodeia o futebol quando os resultados não correspondem às ambições e às expetativas criadas. Mas também existem momentos em que adiar uma decisão, invocando a prudência, estabilidade ou gratidão, deixa de ser sensatez para passar a ser incapacidade de reconhecer aquilo que o tempo tornou evidente.

Rui Borges merece que qualquer apreciação sobre a sua passagem pelo Sporting comece pelos factos que o engrandecem. Foi campeão nacional e conquistou a Taça de Portugal em 2025, logrando uma dobradinha que o clube não alcançava desde a época de 2001/2002. Assumiu a equipa num período conturbado na sucessão de uma liderança transformadora do clube, estabilizando um balneário abalado pela saída de Ruben Amorim e conduzindo, com mérito, o Sporting aos dois troféus nacionais de maior prestígio. Nada do que agora se diga pode apagar esse mérito, nem diminuir o respeito devido ao homem e ao profissional.

É precisamente por respeito que a conclusão deve ser clara: o tempo de Rui Borges no Sporting chegou ao fim.

Escrevi neste espaço, quando muitos já o condenavam, que a comunicação do treinador podia e devia melhorar. As muletas discursivas usadas para justificar os resultados menos conseguidos, expressões repetidas amiúde, como a equipa ter perdido a «energia» ou os jogadores precisarem de estar «ligados», não explicavam suficientemente os problemas, nem criavam a empatia necessária com os adeptos. Foram, aliás, gerando algum fastio entre os adeptos, habituados que estavam a uma forma de comunicação muito mais empática protagonizada por Ruben Amorim.

É certo que a liderança não se esgota nas conferências de imprensa, mas no futebol atual também se exerce através da palavra, da capacidade de mobilizar, de traduzir ideias e de inspirar confiança. Rui Borges nunca conseguiu transformar o respeito pelos resultados em entusiasmo pelo seu comando, nem a autoridade formal do cargo numa liderança emocionalmente reconhecida.

A sua contratação foi, antes de tudo, uma resposta de emergência à atabalhoada sucessão de Ruben Amorim, precipitada pela saída intempestiva do próprio e agravada pela experiência falhada de João Pereira. Rui Borges foi o penso rápido colocado sobre uma ferida aberta e teve o enorme mérito de estancar a hemorragia, chegando mesmo aos títulos. Só que uma solução de emergência precisa, com o tempo, de se transformar num projeto. E Rui Borges nunca conseguiu verdadeiramente assumir-se como um treinador de projeto.

Teve a coragem de romper com o sistema de três centrais que constituíra uma marca identitária do Sporting durante os muitos anos de Ruben Amorim. Procurou um futebol mais associativo, móvel e dominador pela posse, aquilo a que, com alguma ironia, se chamou de tiki-taska. Porém, uma identidade não se constrói apenas na organização ofensiva. Também se revela na forma como a equipa reage à perda da bola, controla as transições, protege a sua baliza e conserva a autoridade emocional quando o jogo muda de feição. Esse futebol associativo nunca conquistou plenamente os adeptos, porque a promessa estética foi demasiadas vezes traída pela insegurança dos processos nos momentos de organização defensiva e transição defensiva, ou pela insegurança competitiva revelada, muitas vezes, nas segundas partes dos jogos. Foi nesses momentos do jogo que o Sporting de Rui Borges claudicou reiteradamente e se tornou demasiado frágil, vulnerável e pouco fiável aos olhos dos adeptos, comprometendo inclusive resultados.

Os números não determinam todas as discussões, mas ajudam a compreender a realidade e a dissipar ilusões. Nos últimos dez jogos oficiais, o Sporting somou seis vitórias, dois empates e duas derrotas, realizando 146 remates e consentindo 106. A leitura destes números ajuda a explicar as fragilidades defensivas da equipa, permitindo aos adversários chegar com excessiva facilidade a zonas de finalização para visar a baliza. Mesmo em jogos que venceu, como em Braga e em Lens, o Sporting consentiu, respetivamente, 16 remates contra apenas 9 e 21 remates contra somente 11 efetuados. Estamos perante um claro padrão competitivo de incapacidade nos processos defensivos, concedendo demasiado espaço ao adversário e expondo a equipa a momentos de sofrimento.

Outro aspeto mais grave e intolerável é a reincidência nas vantagens perdidas. Após a derrota com o LASK, a contabilidade chegou a 18 jogos da era Rui Borges, em que o Sporting não venceu depois de ter estado em vantagem. Só nesta temporada aconteceu diante do Estrela da Amadora, Famalicão, Arouca e LASK. Não estamos perante um acaso, uma casualidade ou uma sucessão de episódios sem relação. Estamos perante uma tendência competitiva que há muito foi identificada, não suficientemente explicada e, pior, nunca corrigida. Uma equipa candidata ao título não pode viver em permanente sobressalto com a sensação de que qualquer vantagem é provisória e de que qualquer segunda parte pode deitar por terra o resultado porque, nas expressões recorrentes do treinador, «faltou a energia» ou os jogadores «deixaram de estar ligados». Além de pouco convincente, é uma explicação desmentida pelos números.

A comparação com os rivais torna o problema ainda mais evidente. À nona jornada, o Sporting está já a nove pontos do FC Porto e quatro do Benfica, sem que tenha ainda defrontado qualquer dos dois rivais e sendo que o sorteio ditou na primeira volta que, ambos os confrontos, sejam no campo destes adversários. Mantendo-se esta inconsistência exibicional, corremos o sério risco de chegar ao Natal não apenas arredados da luta pelo título, mas também com o segundo lugar — e o consequente acesso direto à Liga dos Campeões — seriamente comprometido.

A renovação profunda do plantel explica parte do problema, mas não explica tudo. Os jogadores contratados demonstram qualidade, talento, capacidade física e muita margem de evolução. Não creio na falta de matéria-prima. Falta, isso sim, um treinador capaz de a exponenciar, de construir uma equipa maior do que a soma das individualidades e de conferir ao coletivo um nível de desempenho e uma qualidade de jogo que hoje não existem. Rui Borges recebeu a oportunidade de moldar um plantel mais próximo das suas ideias. Por isso, como escrevi no início da temporada, esta seria a época da sua afirmação definitiva e também da sua responsabilidade plena. A resposta está à vista.

Compete, por ora, a Frederico Varandas decidir. A liderança de um presidente não se mede apenas na coragem de contratar, mas também na capacidade de interromper um ciclo, mesmo que a dívida de gratidão torne a decisão emocionalmente difícil. A dobradinha de 2025 merece reconhecimento perpétuo, estando inscrita na história do clube com a assinatura do atual treinador, mas não pode, nem deve, funcionar como um crédito sem prazo ou como um salvo-conduto que o exima das responsabilidades do presente.

As decisões difíceis existem para ser assumidas antes de o inevitável se transformar em desastre. Rui Borges deve sair com o respeito e a gratidão devidos e com o lugar que conquistou na história recente do Sporting, mas respeitar e estar grato ao homem não obriga a prolongar a permanência do treinador.

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