Sporting: isto ainda não acabou
Mal entrou em campo, ainda antes do apito inicial, sentiu que as mãos e os pés gelavam. Poucos minutos depois, deixou de senti-las. Raios partissem aquele frio que não havia equipamento térmico que ajudasse a suportar. Era realmente incrível poder jogar em Lisboa, num clima sempre ameno. Oxalá aqueles noventa minutos passassem depressa, pensou. E, já agora, que não lhe caísse a ponta do nariz.
Recebeu a bola e começou a correr com ela no pé. Os músculos da perna aqueceram e os tremores começaram. Esperava que, nas bancadas, os adeptos não percebessem que tremia ou, se o percebessem, que soubessem o suficiente sobre o funcionamento do corpo humano para não pensarem que os tremores eram de medo. Até porque, em abono da verdade, não tinha medo nenhum dos canários da equipa adversária. Era só o frio.
Os minutos foram passando, mas aos tremores juntaram-se outras dificuldades. Todos os seus movimentos habituais estavam lentos, a coordenação parecia tê-lo abandonado e até as tarefas mais simples do jogo lhe exigiam um esforço desumano. Olhou para o marcador e registou a desvantagem. Mal sabia ele que ainda se agravaria.
Quando soou o apito final, correu para o balneário e pensou nos milhares de adeptos mais jovens que, no dia seguinte, nas escolas, iriam ter finalmente a noção do que significou ser sportinguista para outras gerações. Tal como outros tinham sido gozados ao som de nomes como Videoton ou Gençlerbirligi, os miúdos de agora teriam de ouvir falar do Bodo e da derrota por três a zero.
Mas, e com o calor do balneário começava a sentir maior clareza de pensamento, isto ainda não tinha acabado. Chegar ao intervalo em desvantagem não era propriamente inédito. E este jogo correspondia, na verdade, a uma espécie de primeira parte. Ainda havia noventa minutos para jogar em Lisboa. Levantou a cabeça. E antes de sair do balneário pensou «em Alvalade damos a volta».
Hoje é dia de jogo. E gostava de poder, tal como na música, dizer que «toda a gente sabe que eu vou». O problema é que, desta vez, seria mentira. A hora do jogo, a um dia de semana, é imprópria para quem, trabalhando, vive fora de Lisboa. Mas já combinei com os miúdos que os vou buscar à escola mais cedo do que o habitual e que vamos cumprir todos os nossos rituais e superstições pré-jogo tal como se estivéssemos no estádio. Até o cachecol que comprei num dia em que me esqueci do meu, e que é feio como o pecado, vou colocar ao pescoço — porque em todos os jogos onde calhei usá-lo, Paris Saint-Germain incluído, o Sporting saiu vencedor.
Para mim, o que aconteceu na Noruega foi só uma má primeira parte. OK, talvez tenha sido pior do que apenas má. Mas, ainda assim, foi só uma primeira parte. A segunda joga-se hoje. E ao contrário de muitos sportinguistas, estou longe de pedir a cabeça do treinador à conta deste desaire. Aliás, nem imaginam o que me custa ver Jaime Marta Soares, cujo papel foi importantíssimo no pior momento do Sporting, vir agora com comentários como «Rui Borges não tem dimensão e estatuto para o Sporting». O homem colocou-nos diretamente nos oitavos de final da Liga dos Campeões com vitórias sobre dois campeões nacionais em título (Paris Saint-Germain e Club Brugge) e sobre históricos do futebol como o Athletic Bilbao e há mesmo quem se atreva a chamar-lhe pequenino?
Deve haver pouca gente tão ingrata como os adeptos de futebol. A bestialização dos que, ainda há semanas, eram bestiais é, de facto, um processo merecedor de estudo. E neste caso concreto é também bastante surreal: somos bicampeões, fizemos a dobradinha, ainda estamos a lutar em três competições na fase final da época e, por um desaire isolado, até figuras historicamente relevantes do clube vêm pedir a cabeça do treinador: «Ah, Carmen, mas não te esqueças do resultado contra o SC Braga.» Pois claro que não esqueço. Adorava conseguir, mas não consigo. E sim, é óbvio que não gostei de ver um Sporting incapaz de controlar o jogo, a baixar demasiado cedo e a deixar o SC Braga crescer até à igualdade. Também não gostei das substituições nem do timing das mesmas. Mas, e desculpem lá o clichê, não se pode ganhar sempre. Se os adeptos gostam de ser confrontados com esta realidade? É claro que não. Mas nenhuma equipa joga bem 100% das vezes. Nenhum clube é invencível. Nenhum jogador é infalível. E nenhum treinador está sempre certo.
Quanto ao jogo com o SC Braga não há, de facto, muito que possamos fazer, mas em relação ao Bodo? Isto ainda não acabou. E hoje é dia de provarmos isso mesmo.
Os adeptos sportinguistas estão mobilizados. A ideia é transformar Alvalade num vulcão — o vulcão possível às cinco da tarde, vá. E fazer com que os jogadores sintam que no Sporting, de leão ao peito, não há impossíveis.
E é também por isto, porque há uma eliminatória para virar e a equipa precisa de sentir que estamos juntos, que as declarações de Jaime Marta Soares e as atitudes de alguns adeptos se tornam ainda mais graves. É certo que, como dizem os espanhóis, até na Arca de Noé havia pica-paus a tentar furar o casco. Mas na fase em que estamos, esses pica-paus eram completamente dispensáveis no Sporting.
Existirá tempo, no final da época, para que todos façam as suas reflexões. Agora é demasiado cedo e, mais do que isso, contraproducente.
Pela minha parte, para mais logo, tudo o que desejo é que o frio nórdico seja substituído pelo calor que só Alvalade pode oferecer. E se isso acontecer tenho a certeza absoluta de que, desta vez, serão os de amarelo a tremer. Não pela temperatura de Lisboa, mas pelo ambiente da casa do leão.
Quando o árbitro apitar e «o mundo sabe que» arrancar, quero ver quantos jogadores do Bodo conseguirão acreditar que esta eliminatória já são favas contadas.
Amanhã espero que, na escola, os meus filhos só ouçam falar do Bodo como a equipa com quem o Sporting conseguiu uma extraordinária reviravolta. Uma reviravolta que a maioria dos portugueses não esperava, mas que os adeptos sportinguistas tinham como certa.
E antes de fechar esta crónica, deixem-me parabenizar Frederico Varandas, reeleito com 89,4% dos votos. Sendo já o presidente com mais títulos de campeão nacional de futebol da história do Sporting, tem ainda muito e bom trabalho feito nas modalidades — já agora, a minha vénia à equipa de voleibol que, derrotando o SLB por 3-2, venceu a Taça de Portugal da modalidade. E não nos esqueçamos que Frederico Varandas assumiu a presidência do Sporting carregando às costas os escombros de Alcochete. Era uma herança pesada. Muitos acreditavam até que era impossível resistir-lhe. Mas Frederico Varandas aí está. Mais vencedor e mais forte do que nunca.