Futebol em Portugal: ‘hat trick’ das queixinhas
Caro leitor, sou obrigado a voltar às queixas e aos queixinhas porque o futebol português é, aos dias de hoje, um queixume geral. Repare: o FC Porto queixa-se de Luis Suárez e, por motivos diferentes, de Frederico Varandas. Do lado do Sporting também se queixam, mas menos, apenas e só de Villas-Boas, presidente do FC Porto. A tudo isto junta-se o árbitro Fábio Veríssimo que também parece ter razões de queixa do FC Porto, a quem acusou de denúncia caluniosa, precisamente por o líder do campeonato se ter queixado dele. Um parágrafo inteiro onde o verbo foi repetido várias vezes será digno de queixa de quem me lê. Vamos ver, então, a sua substância e se a lei se aplica.
Luis Suárez, a determinada altura do jogo da Taça de Portugal diante do FC Porto, fez, virado para a bancada, o gesto de roubar presumindo-se que insinuava que a decisão do árbitro prejudicava o Sporting. O árbitro não viu o gesto e não o inscreveu no seu relatório, mas ainda assim o FC Porto fez participação. Este tipo de gesto pode ser punido com suspensão de dois a oito jogos. E, para que a queixa dê início ao processo, ou mesmo para que haja sanção, não é necessário que o gesto conste do relatório do árbitro. O vídeo do jogo serve como prova, neste como noutros casos.
A infração não é das mais graves, nem a insinuação das piores: possivelmente, havendo sanção, o que deve acontecer, será aplicada a suspensão de dois jogos. E dois jogos de suspensão para um dos melhores avançados do campeonato, numa luta tão renhida entre FC Porto e Sporting, pode dar vantagem aos dragões.
O clube da cidade do Porto não ficou por aqui: apresentou também participação contra Frederico Varandas por este ter chamado «mentiroso» e «cobarde» a Villas-Boas. Estas declarações constituem uma ofensa à «honra, consideração ou dignidade» — art.º 130.º do Regulamento da Federação Portuguesa de Futebol. Se for condenado, Varandas será multado e pode ser suspenso durante um ano (n.º 2 do artigo 130.º). Neste caso, como no anterior, não restam dúvidas sobre os factos, já que há gravações. Será apenas uma questão de o Conselho de Disciplina decidir a sanção. Decidirá em tempo útil?
Caro leitor, espere, lembra-se de no primeiro parágrafo ter falado das queixas do Sporting contra Villas-Boas, uma vez mais por causa das declarações prestadas por este? E da queixa do árbitro Fábio Veríssimo por denúncia caluniosa, depois de uma participação do FC Porto contra ele que não procedeu?
Pois bem, em Portugal trabalho não falta aos juízes desportivos. Com exceção da queixa de Veríssimo, o que os clubes fazem é tentar conseguir toda a vantagem possível. O campeonato não se joga só no campo, joga-se nas transferências de jogadores, nas finanças de cada clube, nos media e nas redes sociais, e também nos órgãos disciplinares.
Admitindo que os dirigentes não mudam os seus comportamentos, é difícil evitar tanta queixinha. Importante seria criar um regime — que já existe em certos casos — desencorajador de queixas sem substância: multas pesadas quando não procedem levaria clubes e dirigentes a refrear os seus ímpetos de apontar o dedo. E, claro, multas pesadas também para quem viola as regras.
Direito ao golo
No meio de tantas queixas e participações, vale a pena lembrar que o futebol também se decide dentro de campo. O direito ao golo desta semana vai para o FC Porto. Vencer na Alemanha não é para todos. Está a um passo dos quartos de final da UEFA Europa League e sonhar com a final é legítimo. Parabéns!