«Aqui têm liberdade total nos estágios. Saem do hotel e vão jantar com amigos»
Destino Aventura é a rubrica em que A BOLA dá a conhecer os jogadores espalhados pelos cantos mais remotos do mundo.
Os primeiros nove anos capítulos da carreira sénior de Pedro Monteiro foram escritos no futebol português, à exceção de uma pequena introdução no Apollon Limassol, do Chipre, em 2016. Seis anos depois, o Torpedo Kutaisi, da Geórgia, abriu-lhe novamente as portas do estrangeiro que nunca mais se fecharam.
Pedro Monteiro ganhou títulos e experiência internacional nos georgianos durante duas temporadas, antes de, embalado por fatores familiares, rumar em 2024 ao Madura United, da Indonésia, clube que ainda representa. O defesa central de 32 anos detalha integração na cultura indonésia, conta episódio bizarro vivido em Taiwan e recorda a mentalidade fechada georgiana, em entrevista a A BOLA.
— Aos 28 anos, decide rumar ao estrangeiro depois de acumular experiências na Liga e Liga 2. O que é que motivou esta decisão?
— Chegamos a essa idade e começamos a pensar noutro tipo de objetivos, não só financeiros. Após ter feito uma boa temporada no Académico de Viseu, começaram a surgir propostas do estrangeiro. Não cheguei a acordo para a renovação e entendi que era a altura ideal para ir para fora. Inicialmente até tinha assinado com um clube do Kuwait, mas depois não gostei do que encontrei. Era um clube muito amador. Quando saio, surge de imediato o Torpedo da Geórgia. Consegui lutar por títulos, ganhar a Taça, Supertaça e jogar a Conference League. Lutar por títulos também move os jogadores.
— Sentiu o impacto de viver num país que faz fronteira com a Rússia?
— Sentiu-se o povo georgiano todo com a Ucrânia, porque eles próprios tinham sofrido com a opressão da Rússia há uns anos. Viu-se o povo na rua com bandeiras da Ucrânia, a mostrar solidariedade, mas nunca senti insegurança. Eles odeiam russos. Fecharam as fronteiras, é impossível entrar algum russo. Na Conference League, jogámos contra o Aktobe do Cazaquistão, eles viajaram numa companhia aérea com ligações à Rússia e não os deixaram aterrar. Tiveram de voltar e viajar no próprio dia do jogo.
— Como é que surge a oportunidade de rumar à Indonésia em 2024?
— Durante as épocas em que estive no Torpedo, tive sempre algumas abordagens da Indonésia. Na última, conseguimos desbloquear a situação, também a pedido meu, não tanto pelo nível de futebol. Kutaisi era uma cidade em que não podia ter lá a minha família porque não havia escola internacional para os meus filhos, Não era uma cidade em que eles se sentissem muito bem. Foi mais por esse lado pessoal que decidi vir para cá. É completamente o oposto ao que tinha na Geórgia em termos de mentalidade.
— Integrou-se facilmente na cultura indonésia?
— A adaptação foi mais em termos físicos, por causa do calor e da humidade. Isso é o mais difícil porque em termos de pessoas de cultura é um povo muito aberto, carinhoso e bondoso. O povo indonésio faz-nos sentir bem. Há pequenas coisas que seguimos para não desrespeitar. No balneário não se despem, tomam banho um a um, tens que ficar sempre de toalha. Rezam antes e depois do treino. São coisas mínimas que não mudam nada na tua vida. O mais difícil aqui é a comida, é muito picante. É melhor nem experimentar porque são quatro ou cinco dias de cama, o nosso corpo não está preparado. Há sítios em que temos de estar mais de alerta, não exagerar e não entrar em aventuras. Também temos de ter cuidado com a água, senão passamos mal.
— O que é que viu na Indonésia e na Geórgia que seria impensável em Portugal?
— O profissionalismo que temos em Portugal não existe aqui praticamente. Nos dias das viagens não há treino. Nos estágios têm liberdade total. Saem do hotel e vão jantar com amigos, com família, se for preciso saem às duas ou três da manhã e voltam às cinco, não há esse controlo. Na Geórgia era diferente, encontras uma mentalidade mais fechada. Não são muito abertos a receber estrangeiros, tens de mostrar que estás ali para acrescentar, senão eles deixam-te completamente de parte. São fechados, não ajudam em nada. Em termos de profissionalismo, é quase igual a Portugal, tirando a parte em que fumam muito. Se tiverem de fumar no balneário à frente do treinador não têm problemas com isso. O autocarro parava e a primeira coisa que todos faziam era pegar no cigarro e fumar. Acredito que em Portugal também o façam, mas de uma forma regrada, ninguém vê. Lá não querem muito saber.
— Qual foi o episódio mais caricato que já viveu no estrangeiro?
— Aqui na Indonésia há coisas que não fazem mesmo sentido na nossa cabeça. No ano passado fomos jogar a AFC Challenge League, o equivalente da Ásia à Conference League. O diretor veio falar comigo e com o capitão, que era brasileiro, antes do jogo fora contra uma equipa de Taiwan. Disse que íamos viajar em grupos, porque não conseguiram bilhetes para todos no mesmo voo. Já sabiam há dois meses que íamos jogar nesse dia, mas deixaram tudo para a última e depois quando foram comprar não conseguiram viagens para a equipa toda. Ele disse que nos ia colocar no grupo dos mais experientes porque sabíamos falar inglês. Muitos indonésios não falam inglês e nem passaporte tinham para poder viajar. Nós concordámos em ajudar no que fosse preciso e… viajámos sozinhos, primeiro que todos. Um grupo foi pela a Malásia, outro foi pela Tailândia, eu e ele por Jacarta e fomos os primeiros a chegar. Fomos os dois sozinhos jogar uma competição para Taiwan sem nenhum diretor. Perguntaram-nos e dissemos ‘Somos só jogadores, o diretor ainda não chegou.’
Fomos os dois sozinhos jogar uma competição para Taiwan sem nenhum diretor
— Na Challenge Cup jogaram contra clubes da Mongólia e do Camboja também…
— Fizemos a fase de grupos na Mongólia, ficámos lá 10 ou 12 dias, ainda com um treinador português, o Paulo Meneses. Jogámos com -2/-3 graus, num campo sintético. Tínhamos indonésios que nunca tinham saído sequer daqui e que se calhar nunca tinham apanhado menos de 20 graus. Muitos deles sem casacos, sem calças, sem nada, não estavam preparados o frio. Passado quatro ou cinco dias, muitos já estavam doentes e não conseguiam sair do quarto. No Camboja o resultado foi mau [0-3], fomos atropelados! Parece que lá ainda é mais abafado, nem conseguíamos correr, na altura do Ramadão estavam completamente rebentados. Jogámos num estádio nacional incrível.
— A tragédia de Arema, que vitimou 130 pessoas em outubro de 2022, moldou outro tipo de relação entre os clubes e os adeptos?
— Dizem que depois da tragédia as coisas mudaram um bocadinho aqui na Indonésia. As equipas a jogar fora não podem levar adeptos. Muitas pessoas deixaram mesmo de ir ao estádio, quase como uma contestação contra a polícia. A paixão dos adeptos nota-se mais nas redes sociais. Quando vamos jogar na casa dos grandes clubes, qualquer coisa que faças tens as redes sociais inundadas, Aqui não temos muita gente. O Madura é um clube com 10 anos só, muito recente e das ilhas mais pobres da Indonésia. As pessoas não têm muitas posses ver os jogos. É mais na rua, quando vamos a essa zona da ilha somos sempre solicitados para fotos. Cobrança para ganhar claro que já tivemos, os adeptos quiseram expor a frustração deles porque tivemos sequências de várias derrotas seguidas, mas nunca ultrapassaram qualquer limite.
— Teve alguma experiência menos simpática com terramotos?
— Sente-se. Há dois ou três meses houve um forte durante a noite. Nem dei fé, estava a dormir, mas foi forte, vi vídeos de colegas meus que acordaram. Trovoada aqui também é todos os dias, ainda agora vi um relâmpago.