Suárez 'está de volta' e agora com um novo e fiel escudeiro: o jovem Flávio Gonçalves - foto: IMAGO
Suárez 'está de volta' e agora com um novo e fiel escudeiro: o jovem Flávio Gonçalves - foto: IMAGO

Um puzzle de €123 milhões e a falta de referências: Sporting à prova na Champions

Rui Borges estreia o 'novo leão' na Champions amanhã com o Galatasaray: perda da espinha dorsal ameaça o patamar atingido há um ano

Há uma tentação perigosa no futebol: a de julgar a saúde de um plantel pela soma aritmética das suas contratações. Chegados ao início da fase de liga da UEFA Champions League, o Sporting apresenta aos adeptos investimento recorde de 123 milhões de euros em reforços. Números impressionantes, reluzentes e dignos de manchete.

No entanto, quando as luzes de Alvalade se acenderem amanhã para receber o Galatasaray, a realidade do relvado vai exigir muito mais do que faturas milionárias. Vai exigir a alma, o encaixe e a identidade que demoraram anos a construir e que este mercado de verão colocou sob fortíssima tensão.

A fasquia europeia dos leões não é uma abstração. Na temporada passada, o Sporting assinou campanha memorável, caminhando com firmeza e maturidade até aos quartos de final, onde caiu apenas perante a capacidade financeira e o cinismo do Arsenal.

Essa equipa, que encarava os gigantes da Europa olhos nos olhos, sustentava-se numa espinha dorsal de liderança, cumplicidade tática e referências emocionais indiscutíveis. Hoje, essa estrutura foi profundamente alterada.

A necessidade de realizar 200 milhões de euros em vendas abalou os alicerces do balneário. As saídas de figuras capitais como Pedro Gonçalves e Francisco Trincão não representaram apenas a perda de golos, assistências e imprevisibilidade no último terço; significaram a perda de quem conhecia de cor a exigência de vestir a camisola verde e branca nos momentos de sufoco.

Quando vemos a braçadeira de capitão a itinerar e jovens promessas como Flávio Gonçalves a herdarem a responsabilidade pesada da camisola ‘8’, torna-se evidente que Rui Borges tem em mãos um processo de reconstrução em pleno voo continental.

O sorteio e o calendário não concedem tréguas nem margem para saudades. O teste de fogo começa já contra um Galatasaray que chega a Lisboa munido de argumentos pesados e com um rosto bem conhecido no ataque: Rafael Leão. O reencontro com o virtuoso avançado formado na Academia de Alcochete é uma ironia quase poética. Leão encarna precisamente tudo aquilo que o Sporting necessita de travar: a vertigem, o talento individual e a capacidade de decidir um jogo da Champions num rasgo isolado.

Rui Borges tem demonstrado coragem e pragmatismo na gestão do grupo, mas a Liga dos Campeões é o teste do algodão para qualquer projeto recém-reformulado. Conseguirá este novo Sporting, ainda em busca da sua própria voz, manter a bitola europeia da época passada? Ou a perda da espinha dorsal deixará a equipa refém de um processo de maturação doloroso em pleno palco milionário?

A resposta começa a ser dada esta quarta-feira. Entre o encaixe financeiro do verão e a exigência desportiva do presente, o Sporting joga muito mais do que três pontos: joga a confirmação de que continua a pertencer à elite do futebol europeu.

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