Luís Tralhão com o lateral-esquerdo Javi Vázquez
Luís Tralhão com o lateral-esquerdo Javi Vázquez

«Tudo pode acontecer», a arbitragem e o orgulho da terra: o que disse Luís Tralhão

Treinador do Torreense tem uma fé inabalável na qualidade da sua equipa, finta as polémicas com a arbitragem e eleva o valor dos dragões, um conjunto de «nível mundial»

— O FC Porto mudou pouco o onze. Isso torna a preparação do jogo mais confortável para a sua equipa?

— O FC Porto não mudou muitos jogadores. O onze inicial expectável é que seja muito semelhante àquele que acabou a época. Pode entrar o André Silva, que tem feito vários jogos naquela posição, mas não é garantido que comece de início. Não me dá conforto rigorosamente nenhum. A questão de nós sabermos o que eles fazem é importante, mas assim como todas as equipas da I Liga sabiam e não deixaram de ter muitas dificuldades em todos os jogos contra eles, como na Liga Europa. O FC Porto é uma equipa de nível mundial, uma equipa que vai competir na Liga dos Campeões. Independentemente de sabermos o que eles fazem, sabemos que vai ser extremamente difícil contrariá-los. Mas acreditamos, tal como o Javi [Vázquez] disse há pouco, naquilo que vamos fazer. Estamos tranquilos relativamente a isso. Sabemos as dinâmicas que eles têm e estamos preparados para isso. Como em outro jogo qualquer da nossa liga, sabemos os pontos fortes deles, os pontos que podemos explorar e assim vamos fazer, como nós pensamos.

Beira-Mar e Leixões foram as únicas equipas da II Liga a chegar a uma final da Supertaça e perderam. Pode o Torreense fazer diferente?

— Por que não? Na Taça de Portugal nunca ninguém da II Liga ganhara. Acreditávamos que poderia acontecer, mas também não digo que tínhamos uma fé tremenda que ia acontecer. Não. Sabíamos que era possível. Sabíamos que era possível e, acima de tudo, dentro daquilo que preconizamos para o nosso jogo, para a nossa ideia de jogar, temos muita confiança naquilo que vamos fazer. Podemos criar dificuldades a qualquer equipa. Num dia, num jogo, tudo pode acontecer. Tudo aconteceu naquele dia com o Sporting — e estamos aqui porque aconteceu esse dia e muitos outros dias na Taça de Portugal, atenção, não foi só por esse dia. E contra o FC Porto acreditamos, como é óbvio, que podemos voltar a fazer. Os jogadores sabem disso. Falei disso com eles: se porventura vencermos o troféu, somos talvez a equipa que, relativamente ao ano passado, ganhámos dois títulos nacionais, se esta Supertaça diz respeito ao que acabou a acontecer no ano passado. Nesse ponto, estamos em pé de igualdade com o FC Porto.

— Numa final, o mais importante é ter controlo sobre os detalhes?

— Diria que este jogo se vai definir em detalhes, mas para nós os detalhes são os pormenores e os pormaiores. Tudo vai ser importante: desde a organização geral da equipa quando defendemos, como quando estivermos a atacar. Temos de estar bem colocados, temos de perceber se podemos sair de uma forma mais rápida ou se temos de manter a bola. Tudo vai contar. Num jogo em que as duas forças obviamente não são iguais — não tenho essa utopia de dizer que estamos no mesmo nível de jogo ou de patamar que a equipa do FC Porto está, seria completamente descabido da minha parte — sabemos que tudo vai contar. Um detalhe muito importante tem a ver com a concentração ao longo do jogo inteiro. Especialmente num jogo que determina uma taça, a conquista de um troféu, a concentração em todos os momentos é determinante. Acho que isso foi um dos fatores que nos fez ganhar a Taça de Portugal: manter essencialmente a calma e a tranquilidade durante o jogo. Não reagir de forma muito emocional a tudo o que vai acontecendo durante o jogo e mantermo-nos fiéis àquilo que planeámos. O futebol é bonito porque, apesar de planearmos tudo, no fundo, são os jogadores que vão determinar o que vai acontecer dentro do campo. Conto com a magia do Javi [Vázquez] e de todos os outros para poder surpreender o FC Porto.

— Como recebeu o grupo os elogios de André Villas-Boas, Farioli e Diogo Costa ao percurso do Torreense?

— Relativamente ao grupo, não sei, ninguém me referiu rigorosamente nada. Estamos muito focados no que fazemos e o clube está muito determinado em fazer novamente uma ótima época. Sinceramente, as conversas internas são sobre nós, sobre como podemos melhorar o nosso processo, integrar os novos jogadores e o que o nosso modelo de jogo pode melhorar. Obviamente fico satisfeito por saber desses elogios, mas também sinto que há sempre uma cortesia do outro lado em reconhecer o mérito que tivemos. Não vamos ficar deslumbrados. Assim como ouvimos essas declarações, também sentimos o apoio dos sócios, das pessoas da nossa zona, que estão muito orgulhosas da época que fizemos. Enche-me mais de orgulho nestas últimas semanas as pessoas virem ter comigo de várias zonas do país a dizer que são de Torres Vedras, ou que têm família ali. Sinto muito mais orgulho quando são pessoas anónimas a identificar-se e a rever-se no Torreense e naquilo que fizemos e queremos continuar a fazer.

De que forma tem avaliado as últimas polémicas com a arbitragem e a ameaça dos árbitros de não comparecer à final da Supertaça?

— Sinceramente, não estou muito a par dessa polémica. Vi os títulos dos jornais, mas não ouvi nada sobre possíveis declarações. A única coisa que me apraz dizer é: respeito muito os árbitros portugueses porque acho que são muito competentes. Obviamente há erros em todos os jogos. Já houve decisões que me deixaram fulo e contestei internamente, mas tenho uma palavra de apreço porque é uma profissão muito complicada, alvo de juízo de muitas pessoas e sempre de uma forma muito parcial. Acredito que todas as vezes eles tentam fazer o seu melhor. É uma polémica que honestamente me passa ao lado. Parto sempre do princípio de que as pessoas vão fazer o seu melhor. O que me preocupa é a cultura desportiva que há em Portugal. Preocupa-me estar a colocar o foco apenas num lado, nos árbitros, e não se falar daquilo que é bonito no futebol: os jogadores, a forma de jogar e os adeptos que vão estar aqui em força no estádio. Isso para mim é fundamental.

— É mais desafiante jogar contra o Sporting no final de uma época ou contra o FC Porto no início desta?

— São ambos muito desafiantes. Jogar contra o FC Porto nesta altura será o adversário teoricamente mais forte que vamos encontrar durante a época. Acabámos a época a jogar com o Casa Pia e o Sporting, que tem sempre um lado muito emotivo e irracional por sentirmos a grandiosidade do clube. Mas quando fazemos o nosso trabalho, no fundo, é um jogo como outro qualquer. Tenho de o preparar da mesma maneira, sabendo que o mediatismo é diferente. Ajuda-me o facto de os jogadores estarem supermotivados por fazer este jogo. Quando os protagonistas estão assim, é sempre mais fácil para nós, treinadores, passar a mensagem.

Vai jogar com equipas diferentes na II Liga e na Liga Europa?

— Não vamos ter duas equipas. Temos só uma equipa para as duas competições. E digo o seguinte: não fizemos um plantel para jogar a Liga Europa, fizemos um plantel para jogar a II Liga. O nosso projeto passa por potenciar jovens jogadores. Se analisarem os jogadores contratados, temos um jogador com 25 anos (o Aguirre, que infelizmente se lesionou) e o Juan com 24. Todos os outros têm abaixo de 23, 20 ou 19 anos. Competindo na Liga Europa, a montra é maior e o desafio é maior. Mas não é um dado adquirido que haja uma equipa a jogar à quinta e outra à segunda. Isso não vai acontecer. Vai haver mudanças como os jogos exigem, mas estamos preparados essencialmente para competir na nossa prioridade, que é a II Liga. O projeto pede para potenciar jovens jogadores, fazê-los crescer com uma equipa que ganhe mais vezes.

— Em estado encontrou o relvado do palco da final?

— Não é um relvado que esteja no topo das condições, mas com certeza vão fazer tudo por tudo para estar nas melhores condições. Não vai ser uma desculpa para nós. Seja em que condições esteja, não vamos dizer no final que não ganhámos por causa do relvado. Obviamente queríamos o melhor possível, mas sendo fatores externos à organização, nunca será uma desculpa.

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