Gerard Deulofeu, antigo jogador do Barcelona e da Udinese
Gerard Deulofeu, antigo jogador do Barcelona e da Udinese - Foto: IMAGO

Três anos depois de lesão grave, Deulofeu ainda luta por regresso «milagroso»

Espanhol continua a trabalhar para voltar a jogar, sendo que isso aconteceu pela última vez em janeiro de 2023

Gerard Deulofeu, de 31 anos, não joga desde janeiro de 2023, mas continua a lutar diariamente no ginásio por um regresso aos relvados que descreve como um «milagre». O extremo espanhol da Udinese acredita que pode fazer história ao protagonizar aquela que considera ser a recuperação mais longa de sempre.

O calvário do jogador começou em novembro de 2022, num jogo contra o Nápoles, em que sofreu uma lesão no ligamento cruzado anterior (LCA) do joelho direito. Após dois meses de recuperação, regressou aos relvados contra a Sampdoria, mas a lesão agravou-se. «Joguei 15 minutos», recorda Deulofeu. «E nesses 15 minutos, o LCA rompeu-se completamente. Foi o meu último jogo», contou em entrevista à BBC.

O problema, contudo, não foi apenas a rotura do ligamento, uma lesão da qual já tinha recuperado em 2020, ao serviço do Watford. «O problema foi a infeção», explica o jogador. A infeção destruiu a cartilagem do joelho, deixando-o com uma sensação de «osso contra osso». «Os meus dois ossos», lamenta, «estão chocantes». A gravidade da situação levou-o a perder a sua vida pessoal, confessando que houve uma altura em que não conseguia passear com os filhos, levar os cães à rua ou conduzir. «Perdi toda a minha vida pessoal. É a coisa mais dolorosa que se pode sentir», desabafa.

Apesar de admitir que pensou em desistir, Deulofeu mantém-se otimista e focado. O jogador, que passou por clubes como Barcelona, Everton, Sevilha e Milan, inspira-se no exemplo do compatriota Santi Cazorla, que esteve afastado 636 dias devido a uma grave lesão. «É um exemplo incrível. Imaginar o que ele sofreu naqueles dois anos e meio, consigo senti-lo agora». O processo de recuperação incluiu um tratamento com células para tentar reconstruir a cartilagem, mas uma tentativa de voltar a correr resultou num revés. «O meu joelho precisava de sarar. Para treinar arduamente, primeiro tens de sarar», explica.

Nos últimos seis meses, o foco tem sido o fortalecimento muscular, com sessões de três a quatro horas diárias, cinco dias por semana. «Estou muito feliz porque sinto que a perna está realmente forte. Quanto mais músculo se ganha, menos dor se tem dentro do joelho», afirma, sentindo-se agora preparado para tentar correr novamente. «A nível muscular, estou nos mesmos níveis dos rapazes disponíveis agora. Mas vamos ver como [o joelho] responde, sem cartilagem e sem menisco...»

Para superar este período difícil, Deulofeu destaca a importância da família. «Para seguir em frente neste período, em primeiro lugar, a tua casa tem de ter paz e amor todas as manhãs», refere, acrescentando que o tempo em casa com a mulher e os filhos lhe dá o bom humor necessário para enfrentar os treinos diários. Afastado dos relvados por tempo indeterminado, Gerard Deulofeu encontra na família a principal motivação para lutar pelo regresso ao futebol. O avançado espanhol quer que os seus filhos o possam ver jogar novamente.

«A minha filha mais velha tem oito anos e joga futebol, e o meu filho tem cinco e também joga», explica o jogador. «Agora perguntam-me: 'Quando é que vais voltar? Quero ir contigo para o estádio!'». É este desejo dos filhos que lhe dá um propósito claro. «Esse tipo de história com os miúdos dá-me força para continuar e lutar para estar lá com eles, desfrutar desse momento com eles agora que são mais velhos.»

Outro pilar de apoio tem sido a relação com a Udinese e a família Pozzo, que o levou primeiro para o Watford e depois para o clube italiano. Apesar de ambas as partes terem acordado a rescisão do contrato devido à paragem prolongada, a Udinese continua a ceder as suas instalações para a recuperação do atleta, que, em troca, manifesta uma enorme vontade de voltar a representar o clube.

Deulofeu, que marcou 13 golos na sua primeira época completa na Serie A pela Udinese, é também um obcecado pela boa forma física e pela ciência por detrás da sua recuperação. «Estou muito interessado em tudo o que diz respeito à saúde», afirma, acrescentando que manter uma atitude positiva é fundamental. «Ser positivo ajuda-me a ver a vida de outras formas. Não posso pensar 'ah, isto acontece-me a mim, que azar'. Ok, talvez sim, mas prefiro pensar de outra maneira, ter a mente limpa para ir e sofrer todas as manhãs, senão estás completamente acabado.» O jogador passa o tempo no clube «com um sorriso, com os meus colegas de equipa, a dar-lhes conselhos», e encara a recuperação com otimismo. «Apenas a desfrutar da minha recuperação, a ver as minhas melhorias, consigo sentir-me mais positivo».

Com 350 jogos por clubes na Premier League, LaLiga e Serie A, e quatro internacionalizações por Espanha, Deulofeu mostra-se grato pela carreira que construiu, que inclui passagens por Milan, Barcelona, Everton e Sevilha, onde venceu uma Liga Europa. «Imaginem se este tipo de lesão acontece quando se é jovem? A carreira acaba por completo», reflete. «Por isso, estou grato por ter tido esta carreira... Joguei pela minha seleção, marquei. O que se pode pedir mais? Vamos ver agora se consigo continuar a minha carreira ou se apenas agradeço por ter feito parte deste desporto fantástico durante 10, 12 anos.»

Apesar de admitir que fica demasiado nervoso para assistir aos jogos da Udinese no estádio, Deulofeu encontra alegria em ver os filhos jogar. «A sério, fico lá duas horas porque estou muito orgulhoso», confessa. «O jogo dos meus filhos é o meu jogo!». Por vezes, até dá uma ajuda. «Os treinadores dizem-me 'vem aqui para o campo e dá-lhes uns conselhos'. É engraçado, é bom. É bonito.»