Têm a escola de Rui Borges, nunca trocaram de clube e sonham com a Liga 3
O Bragança apurou-se no último fim-de-semana, pela primeira vez, para a fase de subida à Liga 3. O conjunto transmontano venceu o Vilaverdense por 3-0 e seguiu, juntamente com o Vianense, para a liguilha de promoção do Campeonato de Portugal onde irá defrontar também o Leça e o Rebordosa.
Em outubro, em conferência de imprensa depois da honrosa derrota por 0-1 diante do SC Braga para a Taça de Portugal, o técnico dos canarinhos, em resposta ao nosso jornal, não quis assumir o objetivo da subida. «É preciso haver todo um contexto e toda uma cidade juntas para isso», defendeu.
«A Liga 3 é muito competitiva e é preciso criar estruturas. Pensando na realidade que temos, é preciso toda uma comunidade apostar, se não fica curto. Vamos fazendo o nosso campeonato pouco a pouco e quem sabe assumiremos, mas não será para já», acrescentou André Irulegui.
Agora, em conversa com A BOLA, os capitães revelaram quando é que a subida passou a ser, efetivamente, um objetivo. «A meio da época, vimos que tínhamos capacidade para isso», começa por referir o dono da braçadeira, Fabien Capelo. «Com os resultados que fomos tendo e com a equipa que temos, as coisas aconteceram da melhor forma, com vitórias, que culminaram neste momento», complementou o vice, Nuno Silvano.
«Ninguém estava à espera. Quando começámos a época, o objetivo sempre foi garantir o mais rápido possível a manutenção. Chegados à primeira volta, depois de jogarmos contra todas as equipas, vimos que éramos mais fortes e traçámos esse objetivo de tentar ficar nos dois primeiros», acrescenta Capelo, que está no clube há quase… 30 anos!
Uma vida dedicada ao GDB
Fabien Capelo (35 anos) e Nuno Silvano (29 anos) têm muito em comum. Brigantinos, referências do Desportivo, médios e integrantes de um lote muito restrito de jogadores que nunca trocaram de equipa em Portugal.
O primeiro dessa lista é Igor Araújo, guarda-redes do Covilhã, que soma, neste ano, a 20.ª época enquanto sénior nos beirões. Depois vem o capitão do Bragança. Fabien Capelo vai na 17.ª nos séniores canarinhos, onde se mantém desde os 6 anos. São já quase três décadas dedicadas ao emblema maior da cidade: «Cresci a jogar no bairro da Mãe d'Água, na rua, e um amigo meu, que já jogava no Bragança, disse-me para ir fazer uns treinos. Fui e fiquei até hoje. Fui campeão e capitão em todas as categorias.»
A fechar o top-3 dos atletas mais fiéis (e longevos) estão o guardião do SC Braga, Tiago Sá, há 13 anos nos 'crescidos' dos guerreiros e... Nuno Silvano, com o mesmo número de temporadas pela equipa A bragançana. O camisola 10 dos transmontanos também está no clube desde os 6 anos: «Na altura inscrevi-me por influência do meu pai, que acompanhava o GDB. Fiz todos os escalões de formação e o meu objetivo passou a ser chegar à equipa sénior. Felizmente, consegui. Fui campeão em todos os escalões de formação e fiz três nacionais.»
Nega ao V. Guimarães para ficar em casa
O mítico número 13 dos canarinhos conta que teve várias oportunidades para sair do clube, mas, por um amor maior à camisola, Capelo escolheu sempre ficar: «Tive uma proposta para ir para o Vitória [de Guimarães], para a equipa B quando tinha 22 anos. Mas não quis sair, quis sempre continuar no Bragança, porque é o meu sítio, é a minha terra... Tenho aqui a minha família, os meus amigos e sempre gostei muito do clube.»
«Do Mirandela tive várias propostas, mas nunca quis. Nunca pensei jogar no Mirandela», confessa, lembrando a grande rivalidade com o clube da Terra Quente (que neste ano foi despromovido aos distritais).
O centrocampista afirma ter encontrado no Bragança tudo o que precisava para se sentir realizado enquanto futebolista: «É um orgulho. O meu sonho sempre foi conseguir jogar pela equipa sénior do Desportivo [como é tratado o clube carinhosamente na cidade] e ser capitão é representar uma região com que me identifico, onde cresci. É um sentimento que não se explica… é amor.»
Nuno conta que fez parte, com o seu companheiro, de um dos momentos mais críticos da história recente do GDB, quando em 2018 desceu para os distritais, após várias décadas a competir ininterruptamente nos nacionais: «Foi o pior momento que vivi aqui, porque o Bragança já não descia há muitos anos. Mas nem aí me passou pela cabeça sair, sobretudo numa situação dessas. Não desmerecendo os outros clubes, só que o meu precisava de mim e eu queria voltar a ajudar a pô-lo nos nacionais.»
O médio ofensivo cumpriu com a promessa e hoje continua a ser peça-chave da (agora assumida) operação de André Irulegui rumo à Liga 3. Nuno é o único jogador do plantel que participou em todos os 28 jogos da equipa na presente temporada. Sobre o facto de estar nos lote dos atletas mais fiéis do país, o craque afirma que «é um orgulho», esperando continuar «por mais anos.»
Herdeiro(s) do mestre Rui Borges
Capelo e Nuno partilharam balneário com Rui Borges no Desportivo, entre 2013 e 2015. O segundo foi mesmo o legatário do atual treinador do Sporting na posição 10 e agradece-lhe a aprendizagem: «Joguei com o Rui quando cheguei aos séniores, apanhei-o no final de carreira e era uma pessoa incrível. Foi dos melhores com quem partilhei balneário. Foi uma pessoa muito importante (…) dizia-nos sempre para aproveitarmos o futebol e transmitia-nos ensinamentos, para tentar fazer de nós melhores jogadores e conseguirmos evoluir.»
«Admiro-o, porque é daqui de Trás-os-Montes e conseguiu chegar ao topo a pulso», sublinha Nuno.
Capelo recorda igualmente o técnico leonino - que apesar de muito mais velho teve o prazer de capitanear - como uma pessoa muito boa: «Jogávamos os dois no meio-campo. Ele a número 10 e a 6. Ele era dos melhores jogadores e dos que ajudava mais o pessoal jovem. É gente boa, ainda hoje mantemos a ligação.»
O trinco ainda chegou a coincidir com uma figura incontornável do clube e da cidade: Pizzi. «Nas camadas jovens, eu era chamado ao escalão do Pizzi, que é dois anos mais velho», recorda.
Uma cidade em êxtase
Os canarinhos estreiam-se na série A da fase subida do CP em casa frente ao Rebordosa, no domingo.
«É importante começar bem. Os dois/três primeiros jogos são muito importantes. Cada jogo é uma final e vamos fazer tudo para tentar subir para a Liga 3, embora saibamos que os orçamentos das outras três equipas são diferentes da nossa», lembra o capitão.
Nuno, por seu turno, apelou ao apoio dos adeptos, que tem sido regra nas bancadas: «Espero que nos continuem a apoiar, porque nós estamos cá também para lutar pelo nosso clube, pelo clube da cidade e por eles também.»
«Para a cidade isto é muito importante. Toda a gente está muito entusiasmada. O clube há algum tempo que não passava por um momento destes, é normal que as pessoas estejam animadas e que nos apoiem. Isso é muito importante e nesta fase mais ainda», acrescentou o criativo, que, na formação chegou a fazer testes no Sporting e V. Guimarães.