O impressionante tifo construído por sócios e adeptos do SC Braga — Foto: SC BRAGA
O impressionante tifo construído por sócios e adeptos do SC Braga — Foto: SC BRAGA

'Subintendimento' histórico

Ecos da Pedreira é uma rubrica de opinião quinzenal da responsabilidade de Diogo Costa, médico interno de psiquiatria e associado do SC Braga

Algumas notas breves antes de abordar em maior detalhe o assunto que dominou o espaço público braguista. Ocorreu mais um dérbi do Minho pleno de emoção dentro do relvado, fazendo corar de vergonha aqueles que se dizem protagonistas dos maiores espetáculos de futebol em Portugal. Não há dérbi como este e a equipa de Carlos Vicens conseguiu, finalmente, sair por cima no que ao resultado diz respeito, com muita responsabilidade atribuível à sua qualidade ofensiva, com particular destaque para um estrondoso Rodrigo Zalazar e a (mais uma vez) um superlativo Ricardo Horta.

Admitindo a existência de justiça no futebol, fica cada vez mais difícil imaginar que estes dois nomes não estejam presentes no Mundial-2026. Recuperado o quarto lugar, confirmado na Madeira após uma difícil vitória sobre o Nacional, segue-se um exigente mês de março, de alta rotação, em que serão disputados os oitavos de final da UEFA Europa League.

Ora, não ignorando o elefante na sala, e porque apenas agora tenho a oportunidade de, publicamente, abordar o assunto, transito de temática e irei focar-me na polémica decisão da Polícia de Segurança Pública (PSP) no sábado, dia 21 de fevereiro. Após várias semanas de trabalho árduo e incansável, sócios e adeptos do clube construíram um impressionante tifo, cuja exibição estava programada para o momento da entrada das equipas em campo no dérbi, com as devidas autorizações da Liga Portugal e Cruz Vermelha. Uma tela de grande dimensão, tanto física como simbólica, que procurava representar e enaltecer a história da região, «Da Bimilenar povoação, precursora de tal Tradição».

Eis que, a um par de horas da sua exibição, a PSP, na pessoa do Sr. comandante da Divisão Policial, subintendente André Carvalho, tomou a ignóbil e fria decisão de cortar o cordame que seria responsável pela elevação da lona, sob a ignorante justificação de que «não se vislumbra que a coreografia (…) se enquadre no apoio aos clubes e sociedades desportivas intervenientes». Nada mais errado. E perspetivando uma ainda maior exposição da mensagem, eis que a transcrevo na íntegra na sua versão original (em latim), seguida de respetiva tradução: «Priusquam nomem daretur, iam terra erat. Priusquam urbs esset, iam populus erat. Ex gentibus antiquinis nata est Bracara Avgvsta, ubi arma, fides et terra unum facta sunt.» «Antes de ter nome, já era terra. Antes de ser cidade, já era povo. Destas gentes antigas nasceu Bracara Augusta, onde armas, fidelidade e terra se uniram numa só.» Não só era evidente a referência à cidade de Braga, às suas origens e a algumas figuras da sua história — Brácaros, Romanos, Hermerico, Paulo Osório, São Martinho de Dume, Visigodos, Dom Paio Mendes e Dom Gualdim Pais —, mas também na tela constava um escudo que recuperava o primeiro símbolo oficial do Sporting Clube de Braga. Um défice de entendimento histórico por parte do subintendente André Carvalho, que, além do mais, abriu um precedente perigoso no que diz respeito à liberdade de expressão e à liberdade para apoiar.

Na sequência desta lamentável decisão surgiram, ainda, os conhecidos e violentos comportamentos de alguns agentes de autoridade, no caso da PSP, que, de forma grotesca e simples, agrediram, sem motivo aparente, e entre outras pessoas, uma mulher idosa, octogenária. Um abuso de autoridade que é demasiado recorrente e que aporta a estes eventos uma sensação de insegurança que não devia existir… Quem nos protege da polícia? Parece lógico e mandatório que os factos, que estão documentados, sejam esclarecidos e que as devidas conclusões sejam tiradas, para que os responsáveis sejam adequadamente punidos.

Em resposta, surgiu, com demasiada hesitação (o primeiro comunicado publicado foi apagado horas mais tarde), um comunicado do Comando Distrital de Braga da PSP no qual é introduzida uma original (chamemos-lhe assim) justificação, relacionada com a proximidade entre os materiais coreográficos e artefactos pirotécnicos. Ora, facilmente se compreende que, caso tivesse sido essa a verdadeira justificação para os factos ocorridos, as ditas fontes de calor seriam rapidamente desconsideradas em detrimento da exibição da tela. Destaca-se negativamente a rapidez com que ocorreu a mudança na justificação da decisão, fragilizando de forma impactante a credibilidade de uma instituição desta responsabilidade.

Nota final para a louvável iniciativa do SC Braga de lançamento para venda de camisolas com o referido tifo, cujos lucros serão doados para apoiar o processo de reabilitação do Fernando Jorge, sócio do clube que foi vítima de um acidente em julho de 2025, do qual ainda recupera. Cada vez mais 'Um Clube. Uma Cidade.'