Gonçalo Ramos e Roberto Martínez (MIGUEL NUNES)
Gonçalo Ramos e Roberto Martínez (MIGUEL NUNES)

Mundial: mudar para ganhar é o aviso que a história deixa a Martínez

Selecionador nacional relembrou, apóso empate com o Congo, as derrotas de Espanha e Argentina nas estreias dos Mundiais de 2010 e 2022. Del Bosque e Scaloni mexeram no onze e foram campeões do Mundo. Martínez tem de o fazer

«O Mundial é um torneio onde estas coisas acontecem. Há momentos em que os desempenhos não estão ao nível. Relembrar que, no Mundial no Qatar, a Argentina perde contra a Arábia Saudita e depois ganha o Mundial; em 2010, a Espanha perde contra a Suíça e ganha o Mundial. E esses não foram desempenhos de equipas que podem ser ganhadoras, mas foram. É um processo», disse Roberto Martínez após o empate com a RD Congo (1-1).

E é verdade. Mas é uma verdade reduzida a essas duas derrotas. Em 22 fases finais de Campeonatos do Mundo, apenas por duas vezes o futuro campeão perdeu o jogo de abertura. Ou seja, mais de 90 por cento desses campeões ganharam ou, no mínimo, empataram nos jogos de estreia.

E escrevemos empataram porque há mais dois campeões do mundo que, não perdendo na estreia, empataram. Falamos da Inglaterra em 1966 e da Itália em 1982. Os ingleses ganharam o jogo seguinte, mas os italianos empataram os dois seguintes. Empataram, pois, os três jogos da fase de grupos — tal como, por exemplo, Portugal no Euro 2016.

Três dos quatro selecionadores que não ganharam esse jogo de abertura (o inglês Alf Ramsey, o espanhol Vicente Del Bosque e o argentino Lionel Scaloni) mexeram no onze para o segundo jogo. E ganharam. O quarto (o italiano Enzo Bearzot) não mexeu. E voltou a empatar.

O que se pede, pois, a Martínez é que reflita sobre este facto. E o selecionador nacional vai fazê-lo, cremos. Talvez seja hora, por exemplo, de dar minutos a Trincão, Félix e a um dos Gonçalos. «Insanidade é fazer a mesma coisa repetidamente e esperar resultados diferentes», como Einstein terá afirmado.

Vejamos as seleções que não ganharam na estreia e sagraram-se campeãs:

Inglaterra-1966

Há 60 anos, no famoso Mundial dos Magriços, a Inglaterra empatou o jogo de abertura: 0-0 com o Uruguai, a 11 de julho de 1966. Alf Ramsey entrou com Banks; Cohen, Jacky Charlton, Moore e Wilson; Stiles, Bobby Charlton e Ball; Greaves, Hunt e Connelly. Cinco dias mais tarde, frente ao México, Ramsey trocou dois jogadores: Ball por Peters e Connelly por Paine. Ganhou por 2-0. E seria campeão do mundo.

RFA e Inglaterra na final de 1966 (IMAGO)

Itália-1982

Há 44 anos, no Mundial de Espanha, a Itália empatou o primeiro jogo: 0-0 com a Polónia, a 14 de junho de 1982. Aliás, empatou os três jogos da fase de grupos, mas o que nos interessa é o que fez Enzo Bearzot para o jogo seguinte, com o Peru. Com os polacos entrou com Zoff; Gentile, Scirea, Collovati e Cabrini; Marini, Antognoni e Tardelli; Conti, Rossi e Graziani. Quatro dias mais tarde, Bearzot entrou com a mesma equipa. E empatou com os sul-americanos: 1-1. Mas seria campeão do mundo.

RFA e Itália na final de 1982 (IMAGO)

Espanha-2010

"Nuestros hermanos" perderam no jogo de abertura do Mundial da África do Sul, a 16 de junho de 2010: 0-1 com a Suíça. Vicente del Bosque sentiu a pressão e, para o jogo seguinte, frente às Honduras, mexeu em duas posições. Começou o jogo com os helvéticos com Casillas; Sergio Ramos, Puyol, Piqué e Capdevila; Xabi Alonso, Busquets, Xavi e Iniesta; David Silva e David Villa. Cinco dias depois, perante as Honduras, Del Bosque trocou Iniesta por Torres e David Silva por Jesús Navas. Ganhou por 2-0. E foi campeão do mundo.

Países Baixos e Espanha na final de 2010 (IMAGO)

Argentina-2022

Os sul-americanos perderam o jogo de estreia no Mundial do Qatar, a 22 de novembro de 2022: 1-2 com a Arábia Saudita. Lionel Scaloni entrou com Emiliano Martínez; Molina, Romero, Otamendi e Tagliafico; Di María, De Paul, Paredes e Papu Gómez; Messi e Lautaro Martínez. Quatro dias depois, frente ao México, o selecionador argentino trocou quatro jogadores: Romero por Lisandro Martínez, Tagliafico por Acuña, Paredes por Guido Rodríguez e Papu Gómez por Mac Allister. Ganhou por 2-0 ao México. E foi campeão do mundo.

Argentina e França na final de 2022 (IMAGO)

Portugal 2004 e 2016


Muito mais frequente é os futuros campeões da Europa não ganharem o jogo de estreia. Aconteceu em 1968 (Itália), 1988 (Países Baixos), 1992 (Dinamarca), 2012 (Espanha) e 2016 (Portugal). Cinco vezes em 17 edições.

Por fim, o caso em que Portugal mais mexeu do jogo de abertura para o seguinte. Aconteceu em 2004. Não ganhou o Europeu, mas chegou à final. Luiz Felipe Scolari começou com Ricardo; Paulo Ferreira, Jorge Andrade, Fernando Couto e Rui Jorge; Maniche, Costinha e Rui Costa; Figo, Pauleta e Simão. Perdeu com a Grécia por 1-2 a 12 de junho de 2004 e, quatro dias depois, Scolari trocou quatro jogadores: Paulo Ferreira por Miguel, Fernando Couto por Ricardo Carvalho, Rui Jorge por Nuno Valente e Rui Costa por Deco. Scolari mexeu em três dos quatro defesas e, três semanas depois, estava na final. Perdeu-a, é certo, mas a derrota inaugural não impediu Portugal de chegar ao jogo decisivo.

Portugal campeão da Europa em 2016 (IMAGO)

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