Sérgio e Francisco Conceição sem filtros a falar de futebol e da Seleção
Numa conversa a dois, Sérgio e Francisco Conceição abordam as suas carreiras, a dinâmica familiar marcada pelo futebol e o orgulho de representar Portugal numa entrevista ao The Athletic. O jovem extremo da Juventus, que se prepara para defrontar os Estados Unidos em Atlanta, segue as pisadas de um pai com um percurso lendário.
Francisco Conceição, de 23 anos, é internacional português e representa a Juventus. O seu pai, Sérgio Conceição, de 51 anos, é uma figura incontornável do futebol nacional, com uma carreira notável como jogador e treinador. Como atleta, o antigo extremo representou dez clubes em cinco países, incluindo Académica de Coimbra, Porto, Lazio, Parma e Inter, conquistando dez troféus e alcançando as meias-finais do Euro 2000. Já como técnico, soma 12 títulos em 12 anos, 11 dos quais ao serviço do FC Porto, onde se tornou o treinador mais bem-sucedido da história do clube. Atualmente, comanda o Al Ittihad, na Arábia Saudita, depois de ter conquistado a Supertaça de Itália de 2025 com o Milan.
A paixão pelo futebol é um elo familiar. Todos os cinco filhos de Sérgio são futebolistas. Francisco, em particular, já deixou a sua marca na Seleção Nacional, com golos decisivos contra a Alemanha na meia-final da Liga das Nações de 2025 e frente à Chéquia no Campeonato da Europa de 2024.
Sérgio recorda o filho como uma criança «sempre competitiva, sensível e próxima da família», além de ser um «aluno de topo». Revelou ainda que Francisco chegou a ingressar no ensino superior em Educação Física, com notas excelentes, mas teve de suspender os estudos devido à carreira na Juventus.
Por sua vez, Francisco expressou o orgulho que sempre sentiu no pai. «Jogador fantástico. Vencedor como treinador. As pessoas compararam-me ao meu pai desde cedo. Não me importei. Tudo o que senti foi um amor incondicional», afirmou, considerando o pai «o melhor exemplo» que poderia ter.
A carreira de Sérgio levou a família a viver em Itália, Bélgica e Grécia, uma experiência que, apesar das dificuldades, considerou positiva. «Estávamos juntos como família e isso deu-lhes algumas competências de vida interessantes. Os rapazes falam quatro ou cinco línguas, jogaram por vários clubes e experienciaram diferentes culturas», explicou o treinador.
Francisco corrobora, afirmando que a sua infância foi maioritariamente passada no estrangeiro. «Primeiro em Milão e Roma, depois em Portugal. Na Bélgica, no Standard. Vivemos na Grécia. O pai jogou no PAOK e eu estive lá na formação», recorda. «Penso que aprendi muito mais do que se estivesse apenas num só lugar. Mais pontos positivos do que negativos para mim».
Apesar de quatro dos seus filhos, incluindo Francisco, jogarem como extremos direitos, tal como ele, Sérgio Conceição sublinha que são «todos diferentes». «O Francisco é esquerdino e tem um estilo diferente do meu; ele prospera em situações em que a defesa está desequilibrada. Tem caráter», analisa. «Eu era mais de cruzamentos; na altura, os extremos não jogavam com o pé mais fraco. Hoje em dia, os extremos fletem para dentro para tentar rematar».
Francisco reconhece as semelhanças, como a agressividade e a velocidade, mas destaca as suas próprias características. «Adoro o um-contra-um, o drible, criar, desequilibrar o adversário. Sou irreverente», define-se o jovem jogador, que admite ter de «melhorar em tudo para atingir» o seu potencial. O extremo recorda ainda a infância difícil do pai, que cresceu numa família modesta e hoje tem um estádio com o seu nome em Taveiro, Coimbra.
Para Sérgio Conceição, ver o filho representar Portugal é «uma fonte enorme de orgulho e alegria». O antigo internacional confessa que o hino nacional sempre o emocionou e que agora se emociona ao ver o filho em campo. «Lembro-me do golo no Euro 2024. Eu estava lá e vi aquele golo no estádio, e foi incrivelmente comovente», partilhou. Sobre a possibilidade de assistir ao Mundial nos Estados Unidos, Sérgio mostra-se esperançado: «Ainda não sei se poderei vê-lo, mas se puder, adoraria».
Numa família onde o futebol é rei, Sérgio e Francisco Conceição partilham as alegrias e as dificuldades de carreiras vividas ao mais alto nível, desde os momentos de glória aos desafios mais complicados, sempre com um forte laço familiar como pano de fundo.
Francisco, atualmente com 23 anos e a representar a Juventus, destaca a forte ligação familiar, revelando um ritual que mantém antes de cada partida. «Ele é muito próximo da família, liga-me sempre antes dos jogos, depois liga à mãe, aos avós, aos irmãos — a toda a gente. Diz-nos que está a caminho do balneário», conta Sérgio. O jovem extremo vive intensamente as carreiras dos seus, sofrendo com as derrotas. «Ele sofre muito por mim e pelos irmãos. Devido às nossas profissões, nem sempre conseguimos vê-lo ao vivo, mas estamos sempre a apoiá-lo e felizes com o que ele está a fazer na Juventus e na seleção, sabendo que ele tem apenas 23 anos e pode ir muito mais longe. O Francisco tem um potencial enorme», acrescenta o pai.
Por sua vez, Francisco retribui o apoio: «Todos os meus irmãos jogam futebol. O mais novo, que tem 10 anos, quer ser jogador. Os meus irmãos fizeram um grande esforço e empenho. Festejo as vitórias deles como se fossem as minhas».
Sérgio Conceição confessa o desejo de estar presente em todos os momentos. «Gostava de ser um homem elástico para poder estar em todo o lado com os meus filhos. Falamos com todos eles várias vezes ao dia, acompanho tudo o mais de perto possível», afirma, sublinhando que nunca os pressionou para seguirem a carreira de jogador, apoiando sempre as suas escolhas.
A competitividade, essa, era apurada em casa. «Sempre disse que se eles fossem tão competitivos nos clubes como eram em casa, estariam todos no melhor clube do mundo. Em casa jogam, zangam-se, choram», recorda Sérgio, mencionando que até hoje os jogos continuam no campo de sua casa, perto de Coimbra, com o mais novo, Zé, a defrontar os irmãos mais velhos.
O percurso de Francisco começou no Sporting, mas foi no FC Porto que se afirmou. «Mudei-me do Sporting para o Porto, o clube do meu coração e da minha família. O meu pai jogou lá e foi treinador durante muito tempo. Foi o clube mais importante na minha formação, onde cheguei à equipa principal pela primeira vez, com o meu pai como treinador», explica.
Após sagrar-se campeão nacional, rumou ao Ajax, uma mudança que não correu como esperado. «Senti que era a decisão certa para mim. Queria evoluir como jogador. Não correu como eu desejava e estive lá apenas um ano. Isso só me deu mais vontade de voltar ao Porto para mostrar o meu valor. Foi a decisão certa. Cheguei à seleção portuguesa», relata. Em 2024, seguiu-se a Juventus, um passo que considera acertado para a sua carreira. «A Serie A é muito tática. Para os avançados, é muito mais difícil marcar golos. Mas tudo isto me torna um jogador melhor. Estou feliz na Juventus e o meu principal objetivo é ganhar títulos com a Juventus».
Sérgio Conceição, com uma carreira recheada de títulos, elege os momentos que o levaram a conquistar troféus como os mais marcantes. Ainda assim, recorda alguns feitos individuais: «O meu golo (pela Lazio) na Supertaça de Itália contra a Juventus de Zidane e Del Piero — ganhámos por 2-1 no antigo estádio da Juventus e o meu golo decidiu o jogo. Os três golos contra a Alemanha no Euro 2000 e a Bota de Ouro na Bélgica como melhor jogador da época».
No capítulo das desilusões, a perda de um campeonato pelo Inter a 5 de maio de 2002 surge como o momento mais difícil. «Passámos toda a época em primeiro lugar, éramos uma grande equipa e perdemos o último jogo contra a Lazio, perdendo o campeonato para a Juventus», lamenta.
Já como treinador, Sérgio destaca o seu primeiro título de campeão pelo FC Porto, na época 2017-18, que pôs fim a um ciclo de quatro anos de vitórias do Benfica. Recorda ainda que, como jogador, ajudou o clube a conquistar um histórico pentacampeonato e, como técnico, venceu três campeonatos, incluindo o 30.º da história do clube. Nos momentos difíceis, aponta as finais perdidas, «quase sempre nos penáltis», apesar de ter vencido 70% das que disputou.
Numa análise à seleção nacional e às suas perspetivas para o Mundial, Sérgio e Francisco Conceição partilham visões sobre a qualidade da equipa, o peso da história e a ambição de conquistar o título. Sérgio recorda ainda as dolorosas derrotas no Jamor e compara a sua geração com a atual.
Para Sérgio Conceição, as duas finais da Taça de Portugal perdidas para o Sporting no Estádio Nacional, ambas nos penáltis, primeiro ao serviço do SC Braga e depois com o FC Porto, foram momentos particularmente dolorosos. «É sobretudo por causa dos penáltis…», confessou.
Questionado sobre as hipóteses de Portugal no Campeonato do Mundo, Sérgio Conceição sublinha a qualidade técnica da equipa, mas alerta para a pressão e os imponderáveis da competição.
«A expectativa para uma equipa com esta qualidade é ir o mais longe possível, chegar às fases a eliminar. Esse entusiasmo e essa pressão também não são fáceis de gerir. Mas a qualidade técnica da equipa é excecional; tem tudo para ir longe no torneio. No entanto, nestes torneios curtos, sabemos que a bola bater no poste e entrar, ou bater no poste e sair, faz toda a diferença. Embora existam equipas com uma história mais rica, com a qualidade que temos, podemos fazer um excelente Mundial.»
Por sua vez, Francisco Conceição destaca o talento individual do plantel e a influência de jogadores como Bruno Fernandes e Cristiano Ronaldo.
«Tantos jogadores de topo. O Bruno Fernandes é um jogador incrível, pelo que faz no United e na seleção. Pode ajudar-nos muito com a sua liderança e as suas características únicas e, esperemos, a vencer. Tenho uma relação positiva com o Cristiano, que é o primeiro a dar conselhos sobre o que fazer. Tendo em conta quem ele é, merece toda a atenção. Estou feliz por estar num balneário com ele, mas ele ensina-me coisas sobre a vida fora do futebol. A importância da família. A nutrição. Como viver a vida. Como recuperar o corpo. É preciso fazer muitos sacrifícios para se estar ao mais alto nível.»A melhor geração: a que vence
Ao comparar a sua geração de 2000 com a atual, Sérgio Conceição é pragmático: a melhor é a que conquista títulos. Recorda que a sua equipa, com nomes como Figo, Rui Costa e Vítor Baía, esteve perto, mas não venceu.
«A melhor é a que vence. Esta já ganhou a Liga das Nações duas vezes e um Campeonato da Europa em 2016. Não são todos os mesmos jogadores, mas jogadores como o Ronaldo e o Pepe já ganharam títulos. Eu, o Figo, o Rui Costa, o Vítor Baía, o Paulo Sousa, o Fernando Couto e outros poderíamos ter ganho o Euro 2000. Estou convencido de que, se não tivéssemos sido eliminados pela França com um golo de ouro de penálti nas meias-finais do Euro 2000, teríamos ganho esse Europeu. Não tenho dúvidas. Muitos desses jogadores tinham sido campeões do mundo de sub-20. Fomos uma geração fantástica, mas não ganhámos. Os melhores são sempre os que vencem.»
Já Francisco Conceição, focado no presente, acredita no potencial da equipa atual para chegar ao topo, reforçado pela mentalidade transmitida pelo selecionador Roberto Martínez.
«Só posso falar do agora. Individualmente, estamos entre as melhores equipas do mundo. Todos os jogadores estão nas melhores equipas da Europa. O selecionador Roberto Martínez, que fala muito bem português, diz-nos que somos suficientemente bons para ganhar o Mundial, mas também sabemos que depende de muitos fatores e que precisamos de um pouco de sorte. Podemos ganhá-lo e não devemos ter medo de o dizer.»
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