Ser o Canadá, ser Vinícius Júnior
O Canadá andava nas nuvens desde que o cantor porto-riquenho Bad Bunny incluiu o país na lista de todos os países da América, como continente, por si considerados no final da atuação no intervalo do Super Bowl. O frio ‘Cânada’ adorou ser chamado de Canadá e sucederam-se os vídeos que ligava, como irmão, a nação do topo norte da América às Caraíbas.
Os canadianos sempre foram vistos como os ingénuos, os bonzinhos cujos polícias andam de casaco vermelho a cavalo, e um país onde nada acontece, exceto quando o ator Ryan Reynolds faz um filme de Deadpool. O Canadá estava por cima, sobretudo porque também é dos poucos países a fazer frente a Donald Trump, o vizinho mal-educado do sul. Mas divago.
Tudo se pareceu desvanecer quando, nos Jogos Olímpicos de Milão-Cortina, a equipa de curling do Canadá foi apanhada, alegadamente, a fazer batota, acusada pela Suécia. Numa modalidade em que não há árbitro com interferência ativa, e os jogadores se controlam uns aos outros seguindo regras de etiqueta e autoregulação por todos aceites, Marc Kennedy foi acusado de tocar na pedra duas vezes. Mais: os suecos tinham colocado uma câmara ao longo da pista, para apanhar os adversários em flagrante. Antes de chegar a Milão, já tinha a fama, e por isso montada a armadilha.
This is what the curling fight was about between Sweden and Canada. pic.twitter.com/OZ4Lq2KJus
— S Buscemi (@Jockesport1) February 13, 2026
#Curling has long been marketed as the gentleman’s discipline of the Winter Games, precision, etiquette, mutual respect.
— Daniel Stecher (@StechAir) February 14, 2026
When a Canadian player at the Winter Olympics 2026 responds to an accusation with “fuck off,” the issue is not the profanity. It’s the fracture between brand… pic.twitter.com/mcnTxWaofP
Houve discussão acesa, palavrões trocados - talvez pela primeira nesta modalidade que até as avós italianas adoram - e a revelação do sueco: está tudo em vídeo. A equipa feminina foi acusada do mesmo e, no entanto, não houve castigos, mesmo com tudo às claras, e o Canadá avançou até à final, que ganhou no sábado. «Quando algumas coisas aconteceram esta semana e foram usadas palavras ultrajantes - como batota - agora associadas à nossa equipa, garanto-vos que isso apenas nos motivou ainda mais a sair e provar a toda a gente que também somos uma das melhores equipas e que agora estamos no topo e, diria mesmo, a melhor equipa do mundo. Para quem nos chamou batoteiros, espero que a imagem de nós no topo do pódio, fique gravada no vosso cérebro para sempre», disse o capitão canadiano, que não vestiu a pele do bonzinho.
No futebol não impera a etiqueta nem a autoregulação e antes desta prosa toda, eu já tinha outro texto na cabeça. Mas depois os doze (12!) minutos de vida que ganhei a ver a conferência de Vincent Kompany, treinador do Bayern Munique, a analisar o que se passou no Benfica-Real Madrid, as bocas tapadas das câmaras e as justificações que foram dadas, apaguei tudo. Pode-se dizer que José Mourinho teve apenas alguns minutos para pensar no que dizer sobre o caso entre Vinícius Júnior e Prestianni, e que o belga teve dois dias, mas não há dúvidas de que aproveitou muito bem o seu tempo. O mais relevante para mim foi colocar-se no lugar de um negro nos anos 60, quando Eusébio foi usado como escudo. O que sabemos nós sobre isso? Sobre o que Vinícius sente? Importante também o espaço para pedir desculpa. Coisa que o Canadá não parece disposto a fazer.