O pavilhão do Amarense ficou completamente destrúido
O pavilhão do Amarense ficou completamente destrúido

Sem casa e sem respostas, há clubes em risco de sobrevivência

Depressão Kristin arrasou a região oeste há dois meses e deixou vários clubes sem instalações. Destruição obrigou a mudar rotinas familiares e deixou crianças e jovens sem prática desportiva, situação que pode ainda agravar-se

Na casa de Carlos e Vanessa Lopes, a rotina deixou de ser feita em família. Pelo menos, com toda a família. Desde fevereiro, o casal tem de se separar várias vezes durante a semana para conseguir dar resposta às atividades dos filhos. Rúben, de 13 anos, e Luísa, de 10.

A culpa de passarem todos menos tempo juntos é da Kristin. A depressão que assolou a região de Leiria na madrugada de 27 para 28 de janeiro e que destruiu tudo à sua passagem. Incluindo o pavilhão onde Luísa fazia patinagem artística, na APAM – Patinagem Artística Marrazes. E também o campo do Grupo Recreativo Amigos da Paz (GRAP), onde o Rúben jogava futebol.

Depois de algumas semanas de paragem das respetivas atividades físicas, a normalidade possível regressou, mas com uma logística muito mais complexa. Porque para arranjar onde treinar, foi preciso passar a fazer mais quilómetros. E mudar horários. E adaptar a rotina familiar. Tudo para que os miúdos não deixassem de fazer aquilo de que tanto gostam.

«O Rúben não teve treinos nas primeiras semanas porque o clube ficou sem condições. Havia vidros espalhados pelo campo, as vedações caíram, as balizas ficaram partidas», recorda Carlos Lopes.

O regresso das equipas de formação do GRAP foi feito com treinos em horários letivos, cerca de três semanas depois da noite do pesadelo, num campo de futebol de 7 do clube que ficou com menos estragos.

Mais complicada ficou a rotina da filha mais nova do casal. Com o pavilhão dos Marrazes completamente arrasado, tal como aconteceu com vários na região, além de Luísa ter demorado mais tempo a voltar aos treinos de patinagem artística, o regresso fez-se muito longe de casa.

As viagens para os treinos que antes se faziam em minutos passaram a precisar de horas. Mais de 30 quilómetros para cada lado para chegar ao pavilhão que dava à menina de 10 anos a possibilidade de voltar a calçar os patins e estar com as amigas.

«Quando tiveram de deixar de treinar sentiram logo a falta das atividades deles. Depois foi difícil voltar, sobretudo no caso da patinagem, que precisava de pavilhão e houve muitos que ficaram danificados», contextualiza Vanessa Lopes.

De acordo com o levantamento feito pela autarquia leiriense e partilhada pela Confederação do Desporto de Portugal (CDP), foram 12 os pavilhões no município com prejuízos graves, oito deles considerados como perda total.

Por isso, a resposta para que a Luísa e as amigas pudessem voltar a patinar foi dada por um concelho vizinho, no caso, Ourém.

Com muitas famílias da região afetadas também nas suas casas, houve uma mobilização coletiva e solidariedade entre pais para viagens que passaram a demorar muito tempo. E só assim foi viável para a família Lopes. Ver os filhos parados é que não era opção.

«O que mais recordo do treino em que fui eu a dar boleia às meninas foi a felicidade de estarem todas juntas novamente. Não era no pavilhão delas, onde passamos muitas vezes e é triste ver como ficou, mas para elas o mais importante era poderem voltar», nota Vanessa Lopes.

De resto, se há coisa que os problemas causados pela tempestade deixaram à vista de todos e é salientado por ela é a dimensão que o desporto tem em Leiria.

«Só depois dos danos provocados pela Kristin, ao ver tanta gente afetada com falta de espaços para as crianças treinarem, é que me apercebi do peso que o desporto tem na nossa região. Agora é que vemos bem a importância do desporto aqui. E não tem sido nada fácil», realça.

«Somos um clube de aldeia, vamos perder equipas»

Ali ao lado, em Casal do Marra, no concelho da Batalha, as dificuldades têm sido muitas. O pavilhão do Amarense, pequeno clube com equipas de futsal e basquetebol, ruiu completamente. E as expectativas de futuro não são as mais animadoras.

A solução encontrada para os mais de 200 atletas do clube foi colocá-los a treinar em pavilhões espalhados pelo município, mas também em infraestruturas de concelhos vizinhos que foram menos afetados.

O pavilhão do Amarense foi feito pela população e serviu o clube durante 40 anos

Ainda assim, a tempestade Kristin obrigou quatro equipas a terminar as respetivas épocas por falta de solução.

As equipas de sub-14, sub-18 masculinos e sub-18 femininos do basquetebol, bem como os benjamins do futsal não voltaram à prática desportiva desde aquela madrugada que deitou por terra um pavilhão com 40 anos. Falamos de cerca de 50 jovens que se viram privados do desporto que praticavam. E que não sabem se no futuro voltarão a entrar em campo com a camisola do clube.

Quando questionamos o presidente Vítor Baptista se o futuro do clube está comprometido o silêncio é a primeira resposta. Como que a respirar fundo antes de encarar a realidade.

«Vai ser muito difícil manter as duas modalidades no clube, mas vamos tentar. Porém, pode estar em causa a continuidade das camadas jovens», aponta, tendo como amostra aquilo que aconteceu nos últimos dois meses.

«Já perdemos alguns atletas. Os pais optaram por procurar outros clubes porque os nossos treinos estão a ser feitos muito longe e esses pais optaram por ter os filhos mais perto. Nós temos de entender a situação. Temos atletas que fazem 50 km para treinar. Até ao final da época, alguns pais ainda aguentam e estão solidários, mas é difícil sustentar a médio prazo», reconhece.

Com os vários escalões espalhados por pavilhões de todo o município, o dirigente não vê alternativa à sobrevivência do clube que não passe por voltar a ter uma casa para reunir este clube de pequena dimensão, que devia o pavilhão que tinha às pessoas da terra. Mas que não vê possibilidade de se repetir a história de há 40 anos.

«O Amarense é um clube de aldeia. É associado à terra, ninguém diz que é um clube da Batalha. O que resta do pavilhão tem de ser demolido, não dá para aproveitar. E para colocar de pé um novo, não pode ser feito como há 40 anos pelas pessoas da aldeia, que todos os anos iam fazer alguma coisa para ajudar na construção», defende.

«Atualmente, com as equipas que temos, não é possível esperar. Temos de fazer um pavilhão de raiz e para isso é preciso dinheiro», acrescenta o presidente do clube que está perto de assegurar a subida à 2.ª divisão do futsal, escalão onde esteve durante 17 anos, antes de descer há três anos.

Após ter ficado com a casa destruída, aquilo que tem sido mais difícil na gestão do dia a dia no Amarense é a incerteza quanto ao futuro. Se é que o futuro vai existir para quem perdeu a base.

«Candidatámo-nos ao apoio do governo, ao da Federação Portuguesa de Futebol e da Federação Portuguesa de Basquetebol. Mas continuamos sem resposta de nenhum deles. E aquilo que nos deixa mais agoniados é não saber, sequer, quando virá uma resposta. Estamos completamente à deriva», lamenta.

Dois pavilhões temporários para 2000 alunos e 500 atletas
Enquanto o Governo central não dá as respostas necessárias, a CM Leiria teve de agira de forma célere para impedir que vários jovens ficassem sem a possibilidade de fazer qualquer atividade física. Em contrarrelógio perante a inutilização de 12 pavilhões municipais, a autarquia mandou construir dois equipamentos provisórios, num investimento de cerca de 200 mil euros. «Tivemos três pavilhões que foram perda total. Marrazes, Telheiro e do Clube dos Parceiros. E ainda tivemos um dano grande no pavilhão da escola Afonso Lopes Vieira, na Gândara», introduz Carlos Palhares, vereador desporto da autarquia. «Dois desses pavilhões serviam a comunidade escolar, com cerca de 1.000 alunos cada. Por isso tivemos de encontrar uma solução que passou por montar duas tendas gigantes para servir essas comunidades escolares», acrescenta. E se durante o dia os espaços são ocupados pelas escolas, à noite passaram a dar resposta a vários clubes. «Aquele que colocámos nos Marrazes tem um campo de 40x20, mais um campo de basquetebol ao fundo. E os dois servem vários clubes de futsal, andebol, basquetebol, num total de cerca de 500 atletas.

«Estamos fartos de palavras»

Depois da tempestade, não veio a bonança como no ditado. Vieram as enxurradas. As inundações. E depois as promessas. A maior de todas até tem uma sigla pomposa: PTRR. Portugal Transformação, Recuperação e Resiliência.

Foi assim que o Governo prometeu a tal bonança de um setor que há anos defende ser esquecido no momento das decisões importantes, apesar da relevância que tem para o país.

Mas dois meses volvidos, ninguém sabe qual será a aplicação prática da tal sigla. E respostas nem vê-las.

Nos corredores do poder, circula meio em surdina que a reabilitação das instalações desportivas afetadas rondará 50 milhões de euros. Mas também isso é uma incógnita, apesar de várias entidades já terem entregado ao Governo os levantamentos feitos por clubes, municípios e também pela CDP.

À semelhança do Amarense, também o SC Marinhense viu ruir o pavilhão que era casa de equipas de basquetebol, hóquei patins e patinagem artística.

As imagens da destruição do mítico pavilhão da Embra foram vistas por todo o país. Foi aquela amálgama de betão e ferro que utilizaram para várias campanhas de sensibilização. O Secretário de Estado do Desporto, Pedro Dias, visitou o clube poucos dias após a passagem da Kristin. E voltou a fazê-lo em meados de março, mas em nenhuma das ocasiões levou com ele aquilo que pode devolver a esperança.

«Pedem-nos para aguardarmos serenamente porque não seremos esquecidos. Mas isso não nos dá nada. Estamos fartos de palavras. Gostávamos de ver gestos concretos e alguma resposta. Alguma resposta que ninguém nos sabe dar. A que porta podemos ir bater? Quando nos vão apoiar? Como? Com quanto?», não sabemos nada, lamenta Miguel Bataglia, presidente do clube da Marinha Grande.

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À semelhança de vários clubes da região, o Marinhense tem as equipas espalhadas por vários pontos de concelhos vizinhos que abriram as portas para receber quem foi mais afetado.

Nazaré, Alcobaça, Caldas da Rainha. A casa do SC Marinhense galgou fronteiras. As únicas respostas que foram dadas a todos os clubes contactados por A BOLA vieram da comunidade. De clubes outrora rivais. De concelhos vizinhos menos afetados. E dos pais dos atletas. Sempre os pais dos atletas.

As três modalidades do clube estão a treinar em oito pavilhões da região, apenas dois deles, e muito recentemente, no município vidreiro.

«Tem sido uma loucura. O custo mensal entre portagens, gasóleo e aluguer de uma carrinha tem andado perto dos 2000 euros, só em transportes», refere Bataglia, notando que mesmo assim só tem sido possível dar resposta aos 240 atletas do clube graças ao esforço extra dos pais.

«De vez em quando, tem-lhes sido pedido que colaborem no transporte, mas também temos de ter alguma sensibilidade, porque além de pagarem a mensalidade, muitos deles também tiveram danos nas casas. Também pedimos ajuda as associações locais, e para os jogos temos utilizado carrinhas cedidas por um ATL e algumas sociedades recreativas. São essas ajudas que nos têm salvado», enaltece.

No meio de toda esta situação e da incógnita que paira sobre o clube, Miguel Bataglia não consegue pensar no futuro a médio prazo. Porque nem sabe como será o dia de amanhã.

«Próxima época? Eu gostava de a planear, mas nem sabemos como vai ser a próxima semana», atira, antes de assumir que existe a possibilidade de o clube ter de suprimir equipas.

«Essa é uma hipótese que tem surgido em conversa entre nós e alguns dos clubes à nossa volta que nos têm apoiado. Nós temos atletas e há clubes que têm menos, por isso podem acontecer uniões de alguns escalões para que todos possam continuar em atividade», admite.

Isso faz-nos voltar à família Lopes. E ao que aconteceu a milhares de famílias Lopes. Como ficam as rotinas familiares se as crianças tiverem de se deslocar vários quilómetros para continuar a prática desportiva?

E quem vai sobreviver a isto? Os clubes mais ricos? Os que tiveram a sorte de não ser tão afetados? Quão importante é o desporto para as crianças? São demasiadas perguntas. Todas sem resposta à vista.

Governo não avança com datas: «Processo está em curso»
A BOLA tentou obter junto do Ministério da Cultura, Juventude e Desporto respostas que os clubes se queixam de não ter: em que ponto está o processo do PTRR?; há previsão para ser dada uma resposta aos clubes para lhes permitir restabelecer a prática regular?; há previsão para o início da execução do PTRR?; através de que entidades será feita a distribuição dos fundos de apoio? A resposta às questões colocadas pelo nosso jornal deixou quase todas as perguntas por responder. «Está em curso o processo de definição do PTRR (…) Só após a conclusão deste processo será possível dispor de uma contabilização mais rigorosa dos danos, identificar com maior detalhe os concelhos e equipamentos afetados, bem como estabelecer prioridades de intervenção e apresentar previsões mais concretas quanto aos prazos e condições de recuperação dos recintos desportivos. Até lá, mantém-se o acompanhamento próximo da situação, de forma a assegurar uma resposta tão célere e eficaz quanto possível». Entretanto passaram dois meses. E várias entidades já entregaram os relatórios de prejuízos. Inclusivamente, sabe o nosso jornal, o prazo dado pelo Governo para a apresentação de danos já terminou há algumas semanas. De resto, apurámos igualmente que está previsto que definição dos apoios ao desporto venha a ser definida no início de abril, num Conselho de Ministros que terá o PTRR como tema de discussão. Oficialmente, porém, nem uma resposta.