Rui Borges destacou brilhantismo do percurso trilhado pelos leões até ao momento

Rui Borges: do relógio de 20€ do «Rui de Mirandela» a Nuno Santos chatear-lhe a cabeça

Treinador do Sporting bem disposto na antecâmara do jogo com o Athletic Bilbao

Rui Borges surgiu bem disposto na sala de imprensa do Estádio San Mamés, para antecipar o jogo desta quarta-feira com o Athletic Bilbao, da oitava jornada da fase de liga da UEFA Champions League. Primeiro aos jornalistas portugueses, nas duas últimas perguntas a espanhóis, o treinador do Sporting disse ao que vinha e assumiu o objetivo de vencer, mesmo que isso possa não ser suficiente para a qualificação direta para os oitavos de final.

— O Sporting nunca venceu em Espanha, procura fazer história, chegar aos oitavos de final, ser a primeira equipa portuguesa a conseguir fazê-lo neste novo formato. Veem isto como motivação?

— Isso é algo que me ultrapassa um bocadinho, também acho que nunca defrontei nenhuma equipa espanhola, por isso é a primeira vez, assim como há a primeira vez para tudo… Por isso é algo que me passa muito ao lado, tudo o que é passado. Estou muito focado naquilo que podemos fazer amanhã, tudo aquilo que nos dá, acima de tudo a responsabilidade e a vontade do grupo em conseguir fazer algo que ficará sempre marcado na história do clube e na história de todos nós, que é ficar nos oito primeiros. Sabemos que mesmo ganhando podemos não o conseguir, mas independentemente disso é sermos iguais a nós próprios. Vamos enfrentar uma grande equipa, num estádio e num ambiente muito próprio, que tem uma identidade muito própria, dada a sua região, dado também aquilo que é a sua naturalidade, aquilo que é a imagem deles. Sabemos que será um jogo difícil, mas tal como fomos nos outros jogos, com muita ambição, com muita vontade, iguais a nós mesmos, vamos tentar fazer o nosso melhor e chegar ao fim e ver qual é a consequência do nosso melhor. Se for ficar nos oito primeiros, muito bom, se não for, bom na mesma, nada apagará aquilo que tem sido um trajeto fantástico da equipa.

— Aos poucos alguns jogadores têm regressado após lesão: o Pedro Gonçalves, o Daniel Bragança, o Debast, o Diomande, mas deixe-me destacar o regresso recente do Nuno Santos, após 15 meses de ausência. Que impacto é que teve no grupo de trabalho este regresso do Nuno Santos?

— Impacto grande, eu já falei várias vezes do Nuno, não só o impacto dele chegar, mas o impacto diário que ele tem no grupo. É um jogador experiente, um jogador que é muito importante para o grupo, por tudo que ele é enquanto atleta, enquanto pessoa, enquanto caráter, enquanto personalidade. Fico feliz por o ver no treino, liga toda a gente, não deixa ninguém adormecer, isso para mim, enquanto treinador, é ótimo. Vai chatear-me muito a cabeça, isso eu sei, mas faz parte, é a personalidade dele. É um jogador que ganhou no Sporting, por todo o seu passado, pela capacidade de mostrar aquilo que ele é enquanto atleta e jogador, é um jogador importantíssimo para o grupo. E hoje foi notório, vocês que estavam de fora antes do treino, ou no início do treino, é notório aquilo que representa à volta dele, por tudo que ele foi capaz, por tudo que ele aguentou nestes 15 meses, penso eu. Foi uma resiliência enorme, um guerreiro autêntico, difícil. Há poucos, muito poucos, capazes de ultrapassar o que ele ultrapassou. Por isso, para mim, treinador, eu dizia quando cheguei aqui no primeiro dia ‘agora que cheguei ao Sporting não posso contar contigo’, feliz por finalmente poder contar. Agora, quando não esteja a jogar, vai-me dizer ‘então agora que eu posso tu não me pões a jogar’… Mas muito feliz, muito feliz mesmo por voltar, acrescenta qualidade, acrescenta tudo à equipa, não só a qualidade, a qualidade dele é notória a todos, mas aquilo que é enquanto caráter e personalidade e exemplo, conta muito para aquilo que serão estes últimos meses da época.

— Amanhã vai ser aquele Sporting que vai querer mandar no jogo, que vai para cima do adversário, ou vai ser aquele Sporting que também já vimos esta época, nalguns jogos, estrategicamente mais à espera do que o jogo dá?

— Vai ser um Sporting igual a ele próprio, em alguns momentos de jogo a tentar ser pressionante, à nossa imagem, e quando não o formos é porque do outro lado têm qualidade para conseguirem, de alguma forma, empurrar-nos para trás e estarmos num bloco mais médio/baixo em alguns momentos do jogo. Faz parte daquilo que é a qualidade do adversário e aquilo que o adversário é capaz de fazer perante a nossa equipa. Nós não fugimos àquilo que é a nossa identidade e a nossa ideia de jogo, agora dentro daquilo que é a nossa ideia, em termos estratégicos, aqui ou ali, vamos alternando alguns comportamentos, nada de extraordinário, mas sempre com a intenção de nos superiorizarmos à equipa que vamos defrontar, respeitando sempre quem está daquele lado. E volto a dizer que é uma grande equipa, apesar de no campeonato não estar tão bem como é costume não deixa de ser uma grande equipa, uma equipa das mais tituladas em Espanha. E depois tem algumas individualidades, internacionais espanhóis, muito boas, que a qualquer momento podem resolver o jogo.

— Ficará aborrecido se o Sporting não conseguir chegar aos oitavos de final de forma direta? E dava-lhe muito jeito do ponto de vista estratégico para a temporada evitar esses dois jogos do play-off durante o mês de fevereiro, para se concentrar nas provas domésticas?

— Quando não se ganha aborrecidos ficamos sempre, mas muito orgulhosos daquilo que tem sido o trajeto da equipa e daquilo que a equipa tem sido capaz de demonstrar ao longo deste tempo perante todas as grandes equipas que tivemos que defrontar até agora. Por isso o aborrecido tem a ver com aquilo que é a ambição de querer ser sempre melhor e estarmos sempre à procura de sermos melhores e mais fortes. Apenas e só isso. A outra parte, sim, em termos de calendário era ótimo, já disse isso no final do jogo com o PSG. Naquilo que é o calendário era muito bom no sentido de ter a equipa mais pronta e mais capaz, a poder controlar também aqui algum excesso de carga, algum cansaço. Era fantástico nesse sentido, mas não jogaremos o jogo a pensar nisso, pensaremos sim em ganhar, em criar história naquilo que tem sido o trajeto e naquilo que é o clube.

— Depois de ter ganho ao colosso que é o PSG, pode chegar longe nesta Liga dos Campeões, quiçá à final e vencer? Poderá ser esse o sonho?

— O sonho é ganhar amanhã, primeiro, e ver qual é a consequência disso. Esse será sempre o sonho e não vão me mudar aquilo que é o meu discurso. Eu olho sempre para o próximo jogo, os sonhos vão-se concretizando, mas derivam sempre daquilo que formos capazes de fazer ao longo do nosso caminho. E o nosso caminho amanhã é defrontar o Athletic, uma grande equipa, em sua casa, num ambiente difícil. Se conseguirmos ultrapassar esta grande equipa, veremos qual será a consequência disso. Ficarmos nos oito primeiros é extraordinário, será extraordinário. Se não ficarmos será extraordinário na mesma, por tudo o que a equipa foi capaz de demonstrar perante grandes equipas, defrontámos grandes equipas, e nunca fugimos, ou nunca baixámos aquilo que foi o nosso nível individual e coletivo.

— Vimos de manhã o Debast a treinar, ele não viajou, o que é que se passou? Como é que o Eduardo Quaresma se sentiu com a máscara, hoje ele treinou com a máscara, deu-lhe indicações positivas? E o Diomande já pode ser titular, já reuniu esses índices físicos depois de ter ficado de fora no último jogo?

— O Ousmane, claro que temos que andar aqui na procura dos melhores índices físicos, como acabou de dizer, faz parte pela paragem que teve. O Edu também naquilo que será a adaptação. Sinais positivos, claro que nunca será igual, mas acima de tudo, frisar, mais do que a adaptação, o ele querer treinar e querer estar disponível para ser mais uma opção para o treinador. A mim deixou-me feliz, nada preocupado com aquilo que foi o problema que teve, infelizmente, e supermotivado para continuar a ajudar a equipa. Queria jogar, mesmo quando se lesionou falei com ele e ele disse, ‘mister, sexta’, jogávamos na sexta-feira, ‘sexta pode contar comigo’, por isso a vontade dele de jogar é tanta e de querer ajudar é tanta que a mim deixa-me feliz, independentemente daquilo que será a adaptação ou não à máscara. Isso é algo que vai acontecer com o tempo e com jogo ou sem jogo ele vai adaptar-se, por isso não vamos estar à espera da adaptação, se não tínhamos de esperar que ele tirasse a máscara. Há tantos jogadores a jogar com a máscara, acho que é uma coisa, infelizmente, ou não, não sei, natural agora nos desportos. É positivo porque podem voltar mais cedo, acima de tudo é isso, feliz por o ver e supermotivado. O Ousmane também à procura de melhores índices físicos, o Debast, em conjunto, achámos que era melhor temos aqui uma gestão física pelo problema que ele teve. Não há mais ninguém, não é? Eram tantos...

— Qual foi o jogo de afirmação da equipa para chegar aqui com esta pontuação? Foi na reviravolta com o Marselha? Foi como se bateram em Nápoles?

— O primeiro, com o Kairat em casa, que ganhámos. Acho que foi por aí a demonstração, a humildade que tivemos de perceber quem defrontámos. Sabíamos e sabemos, eles [jogadores] sabem muito bem aquilo que é a competição que disputamos, a qualidade que existe, a humildade que temos de perceber isso em todos os jogos que tivemos. E depois a ambição deles, não só na Liga dos Campeões como em todas as competições que disputámos. Sabem, todos eles, que representam um grande clube e dignificam-no da melhor maneira desde o primeiro dia, e não só na Champions. Acho que ao longo deste tempo e ao longo da época têm sido extraordinários.

— O Athletic não vai poder contar com Jauregizar, por castigo, e é o jogador com mais minutos nos bascos. De que maneira é que isto afeta a preparação do encontro e a escolha de quem vai jogar na zona do meio campo?

— A mim, a nós, pessoalmente não afetou nada. Jogam com 11, por isso... Estamos a falar de um grande clube, tem grandes jogadores, capazes de dar resposta independentemente de quem jogar, por isso olhamos sim para o coletivo do adversário e preparamo-nos para isso. É uma equipa que sai muito bem em transições, muito bem organizada, tem bons timings de pressão, bem conectados, a equipa é bem conectada nesses momentos de pressão, ativa muito bem a pressão. É a equipa, acho, que na liga espanhola que recupera mais bolas em meio campo ofensivo. Acho que é a segunda ou terceira na Champions também que recupera mais bolas em meio campo ofensivo. É uma equipa que, em alguns momentos, em bloco médio, que é muito bem organizada, e lá está, com esses bons timings ganha muitas bolas, muito forte depois em transição, em contra-ataque, jogadores que a qualquer momento fazem a diferença. É muito por aí que nós nos preparámos, mais para o coletivo do que propriamente para o individual. Claro que depois também tem lacunas, como todos, tal como nós, e dentro daquilo que é a nossa ideia tentarmos de alguma forma conseguirmos superiorizar-nos a eles.

— Há sete anos, a 27 de janeiro de 2019, é treinador do Mirandela e venceu em casa do Turcatense por 3-1. Hoje está a preparar um jogo num dos melhores estádios da Europa, contra um clube histórico, um clube icónico, e está à procura de ficar nos oito primeiros da fase de Liga da Liga dos Campeões. Como é que olha para todo este percurso e onde é que acha que mais evoluiu ao longo de todo este tempo?

— Era mais magro, tinha menos brancas... [risos] Estava a começar... A evolução vem... Acho que faz parte de tudo aquilo que nos vai acontecendo, e tudo o que são os desafios diários faz parte do crescimento, obriga-nos a crescer. E o crescimento deve ter sido bom porque chegámos ao Sporting. Ainda agora, por acaso, o Fernando, que é o meu treinador adjunto, vinha-me a mostrar umas fotos desse ano no avião e vínhamo-nos ali a rir um bocado. Porque realmente, se calhar, há sete ou oito anos ninguém diria que iríamos estar no Sporting neste momento, a disputar a Liga dos Campeões, num grande estádio, com uma grande equipa, com um trajeto fantástico. Cada clube em que passámos foi importante para o nosso crescimento. Todos eles. Agradeço a todos eles. Porque o desafio foi sempre diferente e fez-nos crescer como treinadores. E estamos sempre num crescendo de desenvolvimento, a aprender sempre uns com os outros, com os jogadores, com quem trabalha no clube diariamente, com todos os treinadores, com todo o staff, como é lógico. Mas tudo começou lá atrás, quando eu tinha 26 anos e comecei a treinar a formação do Sport Clube Mirandela, e onde tive a felicidade de trabalhar em todos os escalões, de passar por todos, desde os sub-6, os sub-7, aos sub-19, e isso fez-me crescer e estar preparado para aquilo que foi o meu caminho, o nosso caminho, neste caso, da equipa técnica.

— Esta manhã Ernesto Valverde comentou que o Sporting é uma equipa com muitos argumentos, sobretudo no ataque. Qual é a chave para causar dano ao Athletic e ganhar aqui em San Mamés?

— A chave acho que tem a ver muito com aquilo que é a nossa humildade e capacidade de perceber os momentos do jogo e o que é que teremos que fazer em cada momento do jogo, dada a qualidade do Athletic, dado o ambiente em si, e não deixarmos que mentalmente mexa connosco, não fugirmos àquilo que nós somos. Em termos ofensivos, por tudo o que temos sido capazes no campeonato e na Champions é natural que o digam. Vamos demonstrando que em termos ofensivos temos sido muito fortes, é certo, mas também em termos defensivos temos sido, porque senão não tínhamos os pontos que temos nesta competição também. Esse equilíbrio que nos trouxe até aqui, com esta pontuação, é o equilíbrio que temos de ter amanhã perante uma equipa que quer ganhar para conseguir o play-off também. Uma grande equipa, independentemente da posição no campeonato. É uma excelente equipa, bem orientada, com um grande treinador. Por isso, mais mentalmente temos de ser capazes de perceber os momentos do jogo, perceber e lidar com aquilo que será o ambiente, a vontade do Athletic em querer ganhar. É uma equipa fortíssima nessas transições ofensivas e nós temos de ter aqui algum equilíbrio e algum cuidado nesse sentido, porque gostamos de ter bola e temos de estar preparados principalmente aí para nesses momentos de perda não nos expormos a problemas.

— Falou-se do seu trajeito e li que usava um relógio de 20 euros, não sei se ainda é verdade. Como é que se define como treinador e como pessoa depois de ter passado por todas as etapas formativas e categorias inferiores de Portugal até agora triunfar na Champions?

— Eu sinto-me uma pessoa simples, muito simples, e o Casio está lá, sempre. 20 euros. 19 e 90. Lembra-me aquilo que foi a minha trajetória, lembra-me de onde vim e o quanto me custou chegar aqui. E não é por estar aqui agora que vou ter um relógio de mil euros, ou de 500 euros, ou o que for. É exatamente a mesma coisa. É um cronómetro. Agora os estádios têm todos cronómetros, nem precisava de relógio... Define bem aquilo que eu sou: sou uma pessoa simples, honesta, direta. Vou ser sempre assim, não consigo ser de outra forma. Sou simples e humilde qb, porque às vezes a humildade em excesso é vaidade e para mim não funciona. Sou acima de tudo muito honesto e muito direto com toda a gente, amigo do meu amigo. Não me esqueço de quem me ajuda, jamais me esqueço quem me ajudou. Serei sempre grato a quem me ajuda. E serei sempre assim. Apenas o Rui de Mirandela, como dizem muita vezes.