Otamendi tenta ganhar nas alturas a Pepê
Otamendi tenta ganhar nas alturas a Pepê

Quando a inspiração falha, tem de falar a raça

Crónicas de bancada é o espaço de opinião de Hugo Oliveira, sócio do Benfica e deputado à Assembleia da República

Há jogos que contam três pontos. E há jogos que contam uma época inteira. Este, o Benfica-FC Porto do último fim de semana, no domingo, era um deles.

Mas tudo isso ficou comprometido demasiado cedo. Uma primeira parte desastrosa deitou praticamente tudo a perder. E não foi apenas uma questão de organização tática ou de decisões técnicas. O problema foi mais profundo. Faltou intensidade competitiva. Faltou a urgência que um jogo desta natureza exige. Faltou, sobretudo, aquela energia que costuma distinguir as equipas que percebem que estão perante um momento decisivo da época.

É verdade que também faltou inspiração. O Benfica foi previsível, lento na circulação, incapaz de acelerar o jogo ou de criar desequilíbrios com regularidade. Houve pouca criatividade e ainda menos capacidade para desmontar um adversário que, nesses momentos, parecia sempre mais confortável dentro do jogo.

Mas a inspiração nem sempre aparece quando queremos. O futebol é feito também desses dias em que o talento não flui com naturalidade. Quando a inspiração falta, têm de aparecer outras coisas. A entrega. A concentração. A agressividade competitiva. A vontade clara de ganhar cada bola dividida. Quando a inspiração falha, tem de falar a raça. E, durante demasiado tempo na primeira parte, o Benfica não apresentou nem uma coisa nem outra.

Os clássicos decidem-se muitas vezes em algo que não está propriamente nos detalhes ou nos pormenores. Está na forma como se disputa uma segunda bola. Na rapidez com que se reage à perda. Na autoridade com que se entra num duelo. Durante a primeira parte na Luz foi o FC Porto quem mostrou essa presença competitiva. E quando uma equipa entra num clássico com menos intensidade do que o adversário, o jogo começa imediatamente inclinado.

O resultado dessa primeira parte sente-se agora na classificação. O Benfica continua a sete pontos da liderança. No plano matemático não é uma distância impossível. O futebol já produziu recuperações improváveis e campeonatos que pareciam decididos demasiado cedo acabaram por conhecer desfechos inesperados.

Mas convém não confundir esperança com realidade. Quando o calendário já entrou na sua fase decisiva e quando a margem de erro se aproxima perigosamente de zero, recuperar sete pontos transforma-se numa tarefa extremamente difícil. A verdade é simples: o primeiro lugar tornou- se altamente improvável. Não vale a pena fingir o contrário. O campeonato dificilmente cairá para o lado da Luz esta época.

Mas isso não significa que a temporada tenha perdido relevância competitiva. Neste momento, em Portugal, o segundo lugar não é um detalhe estatístico nem um prémio de consolação. Não alimenta a alma nem o coração, mas pode ser determinante para a carteira. Pode significar acesso à Liga dos Campeões e uma diferença financeira que ronda os cinquenta milhões de euros. Num futebol cada vez mais condicionado por equilíbrios orçamentais, essa diferença pesa muito. Curiosamente, e apesar da primeira parte realizada contra o Porto, quando se observa o desempenho recente das equipas que lutam nos lugares cimeiros percebe-se que o Benfica não está propriamente a atravessar um período de quebra. Pelo contrário.

Com os resultados registados nas últimas jornadas, o Benfica continua a ser uma das duas melhores formações desta segunda volta. Perdeu apenas quatro pontos, exatamente os mesmos que o Sporting. O FC Porto já deixou sete pelo caminho. Ou seja, retirando aquela malfadada primeira parte no clássico, e não consigo deixar de repetir isto, o rendimento competitivo da equipa tem sido relativamente consistente nesta fase da época.

Durante várias semanas discutiu-se se José Mourinho conseguiria impor as suas ideias num contexto que encontrou longe de ser estável. Lesões, um plantel ainda em construção e uma dinâmica coletiva por consolidar tornaram o início do processo bastante complicado.

Com o passar do tempo, a equipa tornou-se mais organizada, mais equilibrada e mais previsível nos seus comportamentos coletivos. Essa estabilização teve também um efeito interessante noutro plano. Com maior controlo sobre a gestão do plantel, abriu-se espaço para a integração progressiva de alguns jovens formados no clube. Banjaqui, José Neto ou Anísio começaram a aparecer com maior regularidade nas opções da equipa principal.

São jogadores ainda em fase de crescimento, naturalmente. Ainda cometerão erros e ainda precisarão de tempo e de contexto para amadurecer. Mas já deixam sinais de qualidade e personalidade competitiva. Num clube cuja identidade está profundamente ligada à formação, estes momentos têm um significado enorme. Representam investimento no futuro e reforçam uma ligação que tem de continuar a fazer parte da história do Benfica.

Talvez por isso a sensação dominante neste momento seja paradoxal. O Benfica parece hoje mais estruturado e mais estável do que há alguns meses. Mas paga caro por momentos de desconcentração que, em jogos de grande dimensão, acabam por custar demasiado. O clássico com o FC Porto foi um desses jogos.