Mário Zambujal: o Bom Malandro de A Bola
Há um legado que os grandes deixam, normalmente em forma de escrita, música, ciência, humanismo, teatro, política.
Mário Zambujal — escritor, jornalista, criador e humorista, não necessariamente por esta ordem — encaixa como luva nesta herança da arte, neste chapéu de criação e evolução. Deixa obra, ensinamento e sorrisos. Sim, risos e sorrisos. Gargalhadas, até, como as que soltei deitado ao sol numa praia de Lagos, ainda miúdo, lendo as desventuras da Crónica dos Bons Malandros, em particular a que recordo de um capítulo em que, às tantas, já ia o ladrão a perseguir o polícia, numa reviravolta de subtileza e saudável malandrice. Tentei encontrar esta passagem a que me refiro, ainda ontem, assim meio apressado, mas perdi-me nas páginas e entretanto distraí-me com outras engraçadas das quais já nem me lembrava. Paciência. A tal, de certeza, está lá pelo meio, legada, artística. É também essa uma das magias da literatura: deixar-nos impressões emocionais, mais do que factuais.
Talvez seja sobretudo uma coisa, uma ideia, uma memória, um sorriso que Mário Zambujal me deixou na cabeça ao longo de todos estes anos.
E porque li eu, afinal, a Crónica dos Bons Malandros quando miúdo? Por que razão lhe peguei? O nome curioso da obra terá ajudado, é certo, porém o essencial terá sido o facto de o escritor ser então o apresentador daquele mágico programa da RTP, de domingo à noite, onde víamos os golos que tínhamos ouvido nos relatos do fim de semana. Para as gerações de 70 e 80, Mário Zambujal é Domingo Desportivo e vice-versa.
Mais tarde, li-o nas páginas de A BOLA, na forma suprema da crónica. Só ainda mais tarde percebi que afinal tal mestre da ironia fina e do humor inteligente se fizera jornalista na casa que haveria também de ser minha.
Por fim: conhecê-lo pessoalmente, numa tarde solarenga de uma recente Feira do Livro de Lisboa, foi um gosto tremendo.
Falei demasiado de mim neste texto. Lamento. Pareceu-me que seria a melhor forma de mostrar que a dádiva dos grandes perdura num cidadão quase anónimo.