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«Ronaldo pode decidir um jogo, mas têm de correr por ele»
Nani, campeão da Europa por Portugal em 2016, defende que Cristiano Ronaldo deve ser titular no Mundial 2026 e que os seus colegas de equipa têm a responsabilidade de compensar a sua menor disponibilidade defensiva, correndo por ele.
A participação de Portugal no Mundial tem sido marcada pelo debate sobre se Cristiano Ronaldo, aos 41 anos, é uma ajuda ou um obstáculo para a equipa. Apesar dos dois golos contra o Uzbequistão demonstrarem o seu valor, as exibições nos empates com a RD Congo e a Colômbia levantaram dúvidas sobre se estará a limitar o potencial da jovem e talentosa equipa de Roberto Martínez. Para Nani, que conhece Ronaldo desde a adolescência e jogou com ele no Manchester United e na Seleção, a resposta é clara e inequívoca: os colegas devem correr por ele.
«Todos deviam estar a dar o seu melhor para se ligarem ao Cristiano neste Mundial», afirmou Nani, em entrevista ao The Athletic, durante o Portugal Football Summit em Miami. «É um jogador que vai marcar golos até ao fim deste torneio. Acreditem em mim», referiu.
Nani reconhece a divisão de opiniões: «A maioria quer que ele jogue, mas algumas pessoas querem-no fora porque pensam que a equipa perde energia e a capacidade de pressionar com mais intensidade. Mas não nos podemos esquecer que é um homem que pode decidir o jogo e que atrai toda a atenção dos defesas.»
Nani sublinha a necessidade de um ajuste coletivo. «Obviamente, ele precisa de ajustar o seu jogo ao sistema que o treinador cria e todos têm de compreender os seus movimentos», acrescentou, concluindo que «a única coisa é que os jogadores têm de correr por ele».
Ronaldo ainda não falhou um único minuto no Mundial, e a ideia de o deixar no banco parece impensável para Roberto Martínez, especialmente considerando que o selecionador planeia deixar o cargo após o torneio. No entanto, a realidade é que, quando não está no terço ofensivo, Portugal joga com nove jogadores de campo, pois Ronaldo não recua para defender.
Nani recorda a sua própria experiência no Euro 2016, quando o então selecionador, Fernando Santos, lhe pediu para fazer esse sacrifício. «Precisamos de entender que o Brasil irá correr por Neymar, a França por Mbappé, a Argentina por Messi. Não há discussão nessas equipas», compara Nani.
«O Messi está sempre a andar, porque poupa energia para quando a bola lhe chega. Ele é explosivo e está no seu melhor no terço final. O Ronaldo é igual, é quase como: Não desperdices a tua energia a correr 60 metros», explicou: «Mas o Cristiano não pode andar em campo. Ele não anda muito. Se o defesa tem a bola perto dele, ele não o deixa ir. Ele corre.»
O jogador, que regressou da reforma em janeiro para assinar pelo FC Aktobe do Cazaquistão, lembra-se de uma conversa com Fernando Santos antes do Euro 2016, na qual o treinador lhe disse que poderia ser o melhor marcador da competição, mesmo que isso implicasse correr mais para compensar por Ronaldo.
«Sacrifiquei-me pela equipa», recorda Nani, que diz ter percorrido «84 quilómetros» durante o torneio, «14 quilómetros» a mais que o segundo jogador nesse registo: «Fui um dos melhores marcadores da equipa. Marquei três golos, tal como o Cristiano, e continuei a render. OK, perdes energia, não fazes o jogo bonito, mas ganhámos.»
Nani também desvalorizou a ideia de que Ronaldo não seja uma figura popular no balneário, descrevendo-o como um dos elementos mais divertidos do grupo, embora com duas faces: celebra efusivamente nas vitórias, mas encara as derrotas como «o fim do mundo».
«Ele gosta muito de brincar», disse o antigo jogador do Manchester United: «Às vezes as pessoas não entendem as brincadeiras e isso pode intimidar-te no início se fores jovem, mas depois percebes que ele só quer fazer-te sentir confortável e parte da equipa.»
Nani, antigo internacional português, teceu rasgados elogios a vários jogadores da Seleção Nacional, destacando Nuno Mendes, que considera já um dos melhores defesas do mundo.
«É inacreditável a forma como ele joga. A energia, a calma, a potência, é um jogador tão talentoso. Por vezes, parece que está cansado e que não consegue dar mais nada, mas de repente surge com um momento de magia, com muita força e energia, e consegue rematar ou cruzar», afirmou Nani.
O antigo extremo não se ficou por aí, elogiando também a qualidade do meio-campo português. «Mas não é só ele. Temos jogadores fantásticos que praticam um futebol bonito. Adoro o Vitinha e a forma como ele controla o jogo», acrescentou.
Já no que toca a Bruno Fernandes, Nani reconhece que o médio ainda não conseguiu replicar na Seleção as exibições que tem feito em Manchester, o que, na sua opinião, explica a frustração de alguns adeptos. «É por isso que as pessoas estão um pouco frustradas com ele», notou.
Questionado sobre se o sistema de Roberto Martínez ou a importância de Cristiano Ronaldo poderiam estar a condicionar o rendimento de Bruno Fernandes, Nani foi perentório: «Não tem a ver com o Cristiano».
O antigo jogador estabeleceu uma distinção clara entre o futebol de clubes e o de seleções, usando o seu próprio exemplo. «Uma coisa é o clube, outra é a seleção. Durante muitos anos, por exemplo, eu rendia na Seleção porque tinha liberdade, e quando estava em Manchester, o meu jogo nem sempre era fluído», recordou.
Nani acredita, no entanto, que o médio do Manchester United acabará por mostrar o seu valor. «Felizmente, ele tem a oportunidade de jogar todos os jogos, por isso tenho 100% de certeza de que vai mostrar o seu melhor», garantiu.
Para Nani, a principal diferença reside no papel que Bruno Fernandes desempenha em cada equipa: «O Bruno é mais para os últimos toques e, em Manchester, todas as bolas têm de passar por ele. Ele está no centro de tudo, portanto, o que o Vitinha está a fazer atualmente é o que o Bruno faz em Manchester. Por isso, é difícil para ele fazer o seu jogo», detalhou Nani, que sugere uma solução para potenciar o médio: colocá-lo a jogar mais perto de Cristiano Ronaldo.