Diogo Jota morreu a 3 de julho de 2025 (IMAGO)

«Aniversário da morte de Diogo Jota pode potenciar a Seleção contra a Croácia»

Portugal entra em campo nos 16 avos de final do Mundial na véspera de se assinalar um ano após a morte de Diogo Jota. Para o psicólogo Carlos Fernandes, a carga emocional do momento pode até transformar-se num fator motivacional

Portugal prepara-se para defrontar a Croácia nos 16 avos de final do Mundial 2026, mas a carga emocional que envolve o encontro vai muito além da importância natural de uma eliminatória a eliminar. A partida disputa-se na véspera — no Canadá, local onde se vai disputar o jogo, em Portugal é mesmo no dia 3 de julho — de se cumprir um ano sobre a morte de Diogo Jota, uma perda que continua bem presente no balneário da Seleção Nacional.

Para Carlos Fernandes, psicólogo do Desporto e da Performance e um dos coordenadores da Pós-graduação em Psicologia do Desporto e Performance da Faculdade de Educação e Psicologia da Universidade Católica Portuguesa, no Porto, estes acontecimentos podem ter impacto no rendimento da equipa, mas não necessariamente de forma negativa.

«Se há um trabalho prévio de preparação, em que se fala com os atletas, se prepara a equipa e se tenta reconverter essa situação num propósito coletivo de homenagear o Diogo, sabemos que estes propósitos são muito poderosos, quando a motivação não é exclusivamente o interesse individual, mas sim algo que transcende. E, quando assim é, conseguimos aceder a níveis de energia, de esforço e de disciplina superiores a quando estamos só motivados por um interesse próprio», explicou, em conversa com A BOLA.

Carlos Fernandes, psicólogo do Desporto e da Performance

O especialista sublinha que o trabalho psicológico em contextos competitivos passa tanto pela preparação para situações previsíveis como pela capacidade de reagir a acontecimentos inesperados. «Muitas vezes há circunstâncias em que não somos capazes de antecipar e às quais é preciso reagir com mais do que o bom senso, com uma intervenção qualificada e bem pensada. Por exemplo, a morte do pai de Ricardo Carvalho, ou outra circunstância não antecipada que possa provocar reações emocionais inesperadas. E é preciso saber reagir a isso.»

«Nestas circunstâncias, não há nenhuma reação correta. Cada um reage à sua maneira, reage no seu timing, e está tudo bem. O trabalho de um psicólogo é criar um espaço para que as pessoas possam ter as suas reações, falar sobre isso, receber o apoio necessário e, nomeadamente, validar essa reação e reconduzir de forma mais funcional. Ou seja, tentar aproveitar algo que possa eventualmente estar a ser incómodo, estranho, a assustar, a distrair e encontrar estratégias para que isso resulte de maneira a ser um acréscimo de performance desportiva e não uma distração», explicou.

O psicólogo recorda que o futebol já conheceu vários exemplos de equipas que encontraram força adicional na memória de companheiros desaparecidos. «Já aconteceram situações no passado em que faleceram jogadores e depois vemos as entrevistas, mais tarde, dos colegas a dizerem que queriam conquistar o título e oferecê-lo ou homenagear o colega com a conquista desse título. Isto é possível trabalhar-se, seja antecipando, seja reagindo com bastante humanidade.»

«Dentro dos que eram mais próximos do Diogo Jota, alguns podem ter essa tal motivação extra e estar mais concentrados, ter energia para correr os últimos 100 metros ou ao minuto 90+3. Enquanto que outro colega do grupo, o que sentir pode deixá-lo mais inibido por não saber regular tão bem aquelas sensações. Nesse caso, não será a melhor opção para o jogo. É uma circunstância, um estímulo, um evento que, não gerido, pode tirar rendimento a alguns jogadores, mas, bem gerido, pode potenciar outros.»

Portugal chega, assim, a um dos jogos mais importantes do Mundial carregando uma dimensão emocional pouco comum. A ambição de seguir em frente na competição mistura-se com a memória de Diogo Jota e com a dor recente vivida por Ricardo Carvalho. Num contexto destes, a gestão das emoções poderá ser tão importante como qualquer ajuste tático para enfrentar a Croácia.

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