«Roberto Martínez queria jogar com o Irão, mas a Federação cancelou jogo por WhatsApp»
— A cerca de um mês do início do Mundial de futebol, quais são as suas expectativas para o desempenho da seleção iraniana?
— Estamos muito esperançosos de que seremos capazes de nos qualificar pela primeira vez para a segunda fase. Talvez o nosso principal opositor seja a Nova Zelândia. Temos um país europeu, a Bélgica, que é um pouco mais poderosa do que Egito e Nova Zelândia. O nosso principal objetivo é sermos capazes de nos qualificar para a segunda fase. Nos dois últimos Mundiais, ficámos a apenas um golo de passar às rondas a eliminar. Em 2018, por exemplo, empatámos com Portugal no terceiro jogo, que foi fantástico.
— Agora, como referiu, terá Egito, Nova Zelândia e Bélgica no Grupo G. Não será fácil a qualificação…
— O número de qualificados para a fase final é agora maior: 48 seleções. Não é comparável, por exemplo, com 1978, o nosso primeiro Mundial, no qual estiveram presentes apenas 16 seleções [Peru, Países Baixos, Irão e Escócia no Grupo 4; Irão eliminado com apenas um ponto]. Agora o Mundial é três vezes maior. São quatro boas equipas e não devemos subestimar nenhuma delas [Ranking FIFA: Bélgica, 9.ª; Irão, 21.º; Egito, 29.º; Nova Zelândia, 85.ª]. Precisamos de ser muito sérios e sentir que estamos na final.
— Vão jogar em Inglewood e em Seattle. Houve o pedido iraniano de alteração dos Estados Unidos para o México, que a FIFA não aceitou. Que pensa sobre estes locais?
— O futebol, acredito, deve estar fora da política, mas os americanos atacaram o nosso país e depois até atacaram os nossos estádios. Um dos estádios mais antigos do Irão foi atacado por eles e destruído. Nem sequer fizeram distinção entre as instalações desportivas e outras instalações. Então, os iranianos pediram e a FIFA não aceitou. Recebemos uma permissão e vamos participar nos três jogos nos Estados Unidos [15 de junho: Nova Zelândia; 21 de junho: Bélgica; 26 de junho: Egito].
Parte II: «Base das Lajes? Não temos qualquer problema com Portugal»
PARTE III: «Desejo ao Gana o mesmo que desejo ao Irão por causa de Carlos Queiroz»
— Este Mundial será puramente sobre futebol ou será também uma afirmação da identidade iraniana?
— Lembram-se da última vez que jogámos com os americanos? Vencemos por 2-1 [Mundial de 1998, em França, Lyon] e foi um dos jogos mais bonitos. Trocaram flores e não sei qual foi o jogador [Jeff Agoos] que, no final, disse qualquer coisa como isto: «O que fizemos nos últimos 90 minutos os políticos não conseguiram fazer nos últimos 20 anos». Acredito que precisamos de prestar atenção à essência do desporto como um bem para unir as pessoas e livrar da hostilidade, livrar as nações das guerras e aumentar a amizade e a solidariedade. Precisamos de nos reconhecer uns aos outros como desporto. Nos Jogos Olímpicos, por exemplo, há os círculos de várias cores no seu símbolo, a que não prestamos muita atenção, mas que representam os diversos continentes. É esta a beleza do desporto e, no topo da lista, o futebol.
— Nas últimas semanas, surgiram algumas dúvidas sobre a participação do Irão no Campeonato do Mundo e houve até a sugestão, negada pelo presidente da FIFA, Gianni Infantino, de ser a Itália a substituir o Irão. Ainda tem um pouco de receio de que esse cenário possa mesmo acontecer?
— Seria a forma mais brutal de politizar o futebol e, desse modo, o futebol perderia todo o seu crédito. Não se pode fazer tal coisa. Até acredito que o comportamento [da FIFA] contra a Rússia não é compreensível. Precisamos de mudar o mundo do futebol, pois desporto e política são atmosferas completamente diferentes. Precisamos de apoiar a vontade das nações, daqueles que gostariam de estar juntos e facilitar, usar e exercitar qualquer poder que possa unir as pessoas. Precisamos de lutar por isso e o futebol tem um bom potencial.
— No mês passado, o presidente da Federação de Futebol do Irão pediu permissão para entrar no Canadá e esta foi revogada. Se isto acontecer nos Estados Unidos ou no Canadá, que também acolhe o Campeonato do Mundo, poderá pôr em causa a participação da equipa?
— Mais uma vez, foi isto que decidimos: participar. Aqueles que seguem este tipo de políticas desagradáveis e não profissionais estão a perder os seus próprios créditos. Nada aconteceu para nós. Isto não é uma bofetada para a federação iraniana, é uma bofetada no presidente da FIFA, porque ele autorizou o chefe da Federação a ir ao Canadá. Não vamos lá para acampar ou para o nosso luxo; foi convidado a participar num seminário. Então, isto é o abuso de direitos. Os canadianos cometeram um grande erro e fizeram um mau uso do seu poder. Rejeitaram o visto que já tinha sido emitido. Este é um jogo sem resultado, exceto humilhar ainda mais os políticos. Os políticos devem ser mais cuidadosos.
— Acredita que os iranianos que vivem nos Estados Unidos assistirão, ao vivo, aos jogos da sua Seleção?
— Temos cerca de 1,5 milhões ou 2 milhões de iranianos nos Estados Unidos. Somos a segunda maior minoria. Todos eles amam a sua própria equipa de futebol. Asseguro-lhe que em Los Angeles se podem encontrar iranianos em todas as lojas e que, definitivamente, apoiarão fortemente a Seleção.
— Receia que o foco do Mundial não permaneça apenas no desporto?
— Trump não é uma pessoa credível. Ele já recebeu o seu suborno, que foi o Prémio Nobel [Corina Machado pôs a hipótese de oferecer a Trump o Nobel da Paz de 2025, mas o Instituto Nobel disse, em janeiro, que as regras não o permitem e a FIFA atribuiu-lhe depois um prémio pela paz], ou algo assim, que lhe deram. Por favor, não use a força. Vamos jogar juntos. É futebol. O futebol é muito maior do que os políticos e a política, tal como o desporto, porque tem a vontade e o poder das nações atrás de si. Como disse ao senhor [Roberto] Martínez, o vosso selecionador, não devíamos politizar o futebol. É por isto que precisamos de lutar.
— Será possível termos, um dia, um jogo particular de futebol entre Irão e Portugal?
— Cheguei a falar com o senhor Martínez. Ele disse-me: «Vamos jogar com o Uzbequistão, então talvez o Irão seja a melhor equipa para Portugal antes do Mundial». E acrescentou: «Alguém lhe vai ligar». E alguém da Federação Portuguesa de Futebol ligou-me. Veio à minha residência. Falámos e trocámos talvez 20 mensagens. Tudo a respeito desse jogo, marcado para 9 de junho deste ano, em Portugal. Eu fui o facilitador e foi tudo muito transparente. Mas, em fevereiro ou março, a federação, embora não oficialmente, apenas verbalmente por um texto no WhatsApp, disse-me: «Oh, desculpe, não podemos fazer esse jogo».
— Deram alguma razão?
— Nenhuma. Apenas se desculparam, nada mais. Não entendi, até porque sou uma pessoa muito transparente. Acredito que o futebol pertence às pessoas. Fui totalmente transparente com o senhor Martínez. Gostaria, mais uma vez, que fôssemos capazes de defender um penálti de Cristiano Ronaldo [aconteceu no Mundial-2018, com o guarda-redes Beiranvand a parar o remate de CR7]. Existem dez fotografias comigo e com o senhor Martínez, mas, como eu disse, sou apenas um facilitador. Não tomo decisões. Asseguro-lhe que o estádio onde seria o Portugal-Irão estaria cheio.
— Acha que o motivo da recusa foi o conflito entre Irão e Estados Unidos?
— É uma boa pergunta. Não sei. Só sei que pus em cima da mesa o meu crédito. O Irão tem uma grande equipa e futebol é futebol. Quem sabe melhor do que o senhor Martínez o que é bom para Portugal? Ele é o treinador principal, não é o massagista nem o presidente da Federação. É o treinador principal. Acho que não foi uma decisão profissional. Por vezes, precisamos de jogar até com aqueles de que não gostamos.
— Com que impressão ficou de Roberto Martínez?
— Achei-o muito simpático, uma pessoa muito quente. A linguagem corporal dele foi muito boa. Nunca vendeu a personalidade ou o título dele. Pareceu-me um homem muito comum. Gosto dele.