O embaixador do Irão em Lisboa, Majid Tafreshi, abordou em entrevista a A BOLA a passagem de vários anos do treinador português na seleção iraniana

«Desejo ao Gana o mesmo que desejo ao Irão por causa de Carlos Queiroz»

O embaixador do Irão em Portugal, Majid Tafreshi, chegou a Lisboa em 2023. Com a seleção qualificada para o Mundial 2026, na América do Norte, Roberto Martínez e o representante iraniano falaram sobre a possibilidade de um particular entre as duas seleções. Um jogo que nunca chegou a acontecer por iniciativa da federação portuguesa, diz o embaixador. Nesta entrevista, o diplomata aborda ainda a presença de Carlos Queiroz naquele país e, claro, o uso da base das Lajes no conflito com os EUA.

— Como avalia o impacto no futebol iraniano da presença, por exemplo, de Carlos Queiroz?

— Carlos Queiroz é um crédito para o Campeonato do Mundo. Ele está pela quarta ou quinta vez numa fase final. É o Cristiano Ronaldo dos treinadores. É um grande homem. Fez muito pelo futebol iraniano. Recordo-me bem da linguagem corporal dele quando o Irão e Portugal jogaram juntos [Mundial 2018: 1-1]. Ele era português, mas foi um homem muito profissional. Gostaria um dia de o encontrar e dizer-lhe "muito obrigado". Carlos Queiroz é um grande homem e desejo que a comunidade internacional possa ler mais entrevistas com ele, pois é muito transparente. O que desejo para a Seleção do Irão, desejo agora para a Seleção do Gana, treinada por Carlos Queiroz.

— É apenas a sua perceção ou é uma ideia generalizada entre o povo iraniano?

— Os iranianos gostam dele. Acreditam na personalidade dele. Se ele tivesse facilitado ou se não fosse bem-sucedido, os iranianos não gostariam dele. Ele representou Portugal e o Irão em todos os campos.

— Toni, outro treinador bem conhecido em Portugal, treinou o Tractor. O senhor tem algum clube no Irão?

— Não sou rico o suficiente para ter um clube [sorrisos], mas sim, sei que Toni treinou o Tractor. Conheço bem o Tractor. É a minha equipa porque sou azeri de Tabriz. É uma das melhores equipas, como o Persepolis ou o Foolad.

— Carlos Queiroz, como disse, representava Portugal e o Irão. Sente que Mehdi Taremi fez o mesmo quando jogou em Portugal, no Rio Ave e no FC Porto?

— Deveria fazer esta pergunta aos portugueses, mas sempre que falo com um português, eles aplaudem-no. E dizem que fez um grande trabalho, que fez muito pelo FC Porto. Talvez ele falhe às vezes, mas é sempre importante. Taremi é um jogador sério e foi um jogador patriota no FC Porto.

— Acha que ele abriu as portas, em Portugal, a outros jogadores iranianos?

— Devemos ter aliados. Temos muitos rapazes bem qualificados abaixo dos 18 anos. Podem vir jogar aqui, claro.

— E os vistos?

— Não tenho acesso aos assuntos consulares. Acho que, assim que o vosso Ministério dos Negócios Estrangeiros reabrir a vossa embaixada em Teerão, poderemos ter mais jogadores iranianos em Portugal, mas precisam de visto. Necessitam de facilidades com alguns documentos legalizados.

— E raparigas?

— Também. Temos boas jogadoras no voleibol. Um clube português teve como treinadora [adjunta] uma senhora iraniana [Samira Imani no AJM/FC Porto]. Temos bons atletas no hóquei, na luta livre, no levantamento de pesos e em ambas as lutas: a livre e a romana. Vencemos muitas medalhas em Jogos Olímpicos.

«Podemos trazer treinadores de alto nível para Portugal»

— Em 2015, houve um acordo bilateral entre Portugal e o Irão, que envolvia cultura e desporto. Esse acordo ainda faz sentido?

— São acordos ou papéis. Precisamos de vontade. Temos bons investidores no Irão e muitos deles disseram-me que gostariam de vir a Portugal e investir aqui. Se a vontade política for flexível em Portugal, asseguro-lhe que podemos ter mais iranianos a investir em diversos campos e um deles será o desporto.

— Cristiano Ronaldo bateu o recorde de golos internacionais de Ali Daei. Que sentiu quando ele o ultrapassou?

— Ali Daei ficou muito contente e deu-lhe os parabéns logo no primeiro dia. Tweetou e deu-lhe os parabéns: «Parabéns, você foi um grande homem». Tivemos um grande levantador de pesos iraniano [Hossein Rezazadeh] que estabeleceu alguns recordes do mundo, mas quando estes foram batidos, anos depois, ele afirmou: «Estou feliz!». Veja o caso de Usain Bolt. Correu os 100 metros em nove segundos e pouco [9,58] e não deve estar preocupado sobre quem vai fazer melhor.

— Qual é a sua relação pessoal com o futebol português, nomeadamente com os nossos principais clubes?

— Fui convidado há dois anos pelo FC Porto para ver um jogo ou uma final, não me lembro bem. Foi entre o FC Porto e um dos vossos clubes, talvez a final da Taça, há uns dois anos [FC Porto-Sporting, 2-1, a 26 de maio de 2024]. O presidente do FC Porto [Pinto da Costa] ainda estava vivo. Encontrei-o no estádio. Foi um grande jogo, julgo que foi o último do Taremi no FC Porto. Mas se outro clube me convidar, vou com todo o gosto.

— Os melhores desportos iranianos são luta livre e halterofilismo. Que acha que os iranianos podem oferecer aos portugueses no campo do desporto?

— Na luta livre, por exemplo, temos algo para vos oferecer, tal como no halterofilismo. O que é importante? Aumentar a cultura do desporto. A essência da luta livre é a humanidade. Os grandes lutadores iranianos têm humanidade. São grandes homens. Não veem apenas o ouro. [Gholamreza] Takhti, um dos nossos medalhados nos Jogos de 1952, tem uma estátua em Helsínquia. Quando lhes perguntei porquê, eles disseram: «Olhe, ele não tocou nos pés magoados do seu oponente durante o combate». Acho que neste desporto poderíamos ajudar Portugal. Estamos totalmente abertos na embaixada para introduzir treinadores de alto nível em Portugal. Podemos fazer uma webinar para nos encontrarmos. O nosso coração está sempre aberto para estrangeiros, especialmente para países amigos como Portugal, irem ao Irão. Importante é retirar os jovens das drogas. Precisamos de nos ajudar uns aos outros. Fui embaixador na Nova Zelândia [2010 a 2013] e houve lá um sismo. Alguém me perguntou o que eu fiz. Respondi: «Uma hora depois estava a dar sangue». Eu e a minha mulher demos meio litro de sangue cada para salvarmos pessoas. O desporto pode jogar um grande papel para humanizar mais a política e para reduzir tensões, para que o mundo seja mais seguro. Vamos ver se o Campeonato do Mundo pode fazer isso, com certeza.

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