Após o uso da base das Lajes pelos EUA nos ataques ao Irão, o embaixador em Lisboa dá garantias sobre a relação com o nosso país

«Base das Lajes? Não temos qualquer problema com Portugal»

O embaixador do Irão em Portugal, Majid Tafreshi, chegou a Lisboa em 2023. Com a seleção qualificada para o Mundial 2026, na América do Norte, Roberto Martínez e o representante iraniano falaram sobre a possibilidade de um particular entre as duas seleções. Um jogo que nunca chegou a acontecer por iniciativa da federação portuguesa, diz o embaixador. Nesta entrevista, o diplomata aborda ainda a presença de Carlos Queiroz naquele país e, claro, o uso da base das Lajes no conflito com os EUA.

— No Campeonato do Mundo de 1998, Irão e Estados Unidos trocaram rosas após o jogo. Acha que, no meio das tensões atuais, o futebol ainda pode servir como uma ferramenta para a paz?

— Este ano, com certeza, Irão e Estados Unidos não se defrontarão, pelo que não haverá qualquer tensão. Mas, sabe, isto não é apenas futebol. Estamos a jogar muita luta livre. Os lutadores David Taylor [Estados Unidos] e Hassan Yazdani [Irão] permitiram-se gostar um do outro [grande rivalidade, por exemplo, na final olímpica de 2020, em 86 kg]. Apertam a mão um ao outro. Beijam-se. Isto é poder. O Irão, em todos os campos, não tem qualquer problema com os Estados Unidos no futebol. Porém, duas semanas após a revolução [1979], os Estados Unidos começaram a bloquear o Irão. E as primeiras sanções no Irão aconteceram mesmo antes de parar a relação política. O mote da nossa revolução não foi Oeste contra Leste ou Leste contra Oeste. Não quero mudar o tom desta entrevista, mas nós, iranianos, sofremos muito. Mas em 1998 o futebol derrotou a política. Nem houve cartões vermelhos ou algo do género.

— Que memórias tem dos dois jogos entre Portugal e Irão, nos Mundiais de 2006 e 2018?

— Recordo-me de que no primeiro houve um incidente interessante, digamos assim, entre um defesa iraniano [Hossein Kaebi] e Figo. O nosso defesa tinha cerca de 165 cm e entrou forte sobre o Figo, que ficou com um arranhão na cabeça. Mais tarde, julgo que em 2022, Figo foi ao Irão como convidado VIP, deu muitas entrevistas e falou desse incidente. O segundo jogo em 2018 [25 de junho, em Saransk] foi mais interessante para o Irão e empatámos 1-1. Cristiano falhou um penálti. Portugal estava a ganhar e empatámos de penálti perto do fim [Ansarifard, aos 90+3']. Foi a beleza do VAR [sorrisos]. Sem VAR, não teríamos penálti. Quando vi que era penálti para o Irão, foi um dos maiores e melhores momentos para mim. São memórias que ficarão para sempre. Ninguém as pode apagar. Precisamos de ter mais documentários de Cristiano Ronaldo. Ele joga na Arábia Saudita e foi ao Irão, sendo fotografado com muitas pessoas. Até tirou uma selfie com uma senhora pintora que é deficiente. São estes valores que queremos no futebol e no desporto. É a humanização do futebol ao serviço da humanidade. A FIFA decidiu, e bem, esmagar aqueles que humilham os negros ou abordagens orientadas para o apartheid, por exemplo.

— Acredita que este Campeonato do Mundo pode criar condições para que a paz apareça mais rapidamente?

— Sim, se os políticos aproveitarem para reduzir e eliminar guerras e o uso da força e abuso do poder na política externa. Ninguém consegue encontrar um presidente no Mundo que tenha mais de 20 por cento da população, por exemplo, a seu lado, mas as suas decisões afetam os cem por cento. Eles precisam de ser verdadeiros representantes de todo o comité internacional. As pessoas não querem guerra. A pior negociação é muito melhor do que uma boa guerra. Sabe o que é pior? 168 inocentes raparigas iranianas mortas. Toda a gente deveria ter vergonha. Eu esperava que Portugal condenasse este ato. Milhares de raparigas e rapazes no Irão não têm um lugar para praticar desportos. Desejo que alguns países, orientados para o poder, como Portugal, salvem este crédito e que sejam capazes de jogar um bom papel. António Guterres está nas Nações Unidas porque era de Portugal, um país com menos tensão. Desejo que Portugal desempenhe um bom papel. É mau o uso indevido da ilha dos Açores, a ilha da base das Lajes, para bombardeamentos. Desejo que Portugal siga a sua neutralidade e lógica. Portugal é um grande país; o tamanho não é importante. O que dizes, sim, é importante.

— A questão da base das Lajes, nos Açores, afetou a relação com Portugal e o jogo agendado?

— Se afetasse, seria da nossa parte, porque fomos atacados pelos Estados Unidos, que usaram a vossa base militar, mas não rejeitámos o jogo. Queríamos o jogo. A resposta do Irão foi positiva. Porém, sem explicação escrita, a vossa federação negou-se a jogar. Queríamos jogar pela qualificação e pela amizade, pois não temos qualquer problema com Portugal. Temos uma herança de 540 anos e sou o responsável por esta herança. A ilha [Açores] ficou registada como má memória porque o chefe da NATO elogiou. A Amnistia Internacional condenou quem apoiou Israel e os americanos contra o Irão. O Irão nunca atacou ninguém nos últimos 300 anos.

— Gostava de ver Portugal jogar com o Irão na fase a eliminar?

— Seria um privilégio para todos os iranianos e desejo que possa acontecer. Até porque acredito que possam ser os últimos jogos de Ronaldo em Mundiais, embora com ele nunca se saiba. Talvez queira jogar até aos 45…

— Se Portugal jogasse com o Irão na fase a eliminar, o seu coração seria 100 por cento iraniano ou apenas 99 por cento?

— Vocês têm uma muito boa equipa e não têm tensão. O Irão tem muita tensão. Veja o que fizeram contra o nosso presidente da federação no Canadá. Tenho o feedback dele. Ele é o chefe de um grupo. Não temos qualquer luta com o Canadá, pois temos 500 mil iranianos no Canadá. Muito dinheiro, muitos investidores. Se isto não é profissional, a FIFA devia punir os países anfitriões, bloqueá-los por um bocado. Se não me deixas entrar, porque me estás a convidar? Não deixar o embaixador entrar é humilhar-se a si próprio.

A iniciar sessão com Google...