O árbitro Daniele Paternà
O árbitro Daniele Paternà

Revelado código secreto entre árbitros do VAR em Itália

Gianluca Rocchi, responsável por nomear árbitros das Series A e B, ia à sala do VAR sem ser permitido

Novas revelações, publicadas pelo jornal La Repubblica, lançam luz sobre um código secreto, que envolvia gestos e sinais, e que indicava aos árbitros do VAR em Itália como deveriam agir em determinadas situações. Este método foi apelidado de 'Gioca Jouer', em referência a um clássico da música italiana, de Claudio Cecchetto.

Os árbitros do VAR trabalham a partir de uma sala especial na cidade italiana de Lissone, de onde são acompanhados ao vivo todos os jogos. Contudo, verificou-se que, junto dos árbitros de serviço – sem terem autorização para tal – estariam também o chefe dos árbitros, Gianluca Rocchi~ que determinou autossuspensão imediata do cargo -, e os seus assistentes.

Uma vez que a comunicação com eles era proibida, dado que todas as conversas são gravadas, os referidos chefes de arbitragem utilizavam um código secreto para lhes indicar o que fazer em situações controversas.

Mas como funcionava este código? Segundo a investigação, uma mão levantada significava «não intervir», enquanto um punho cerrado era um sinal para «deves intervir».

Estas conclusões constam nos documentos da Procuradoria de Milão, que investiga os mais recentes escândalos na arbitragem italiana. Contra Rocchi decorre uma investigação por alegada fraude desportiva. Pela mesma razão, o ex-supervisor do VAR, Andrea Gervasoni, também está suspenso.

Esta é precisamente a essência de uma das três acusações, relacionadas com o jogo entre Udinese e Parma, a 1 de março de 2025, quando se alega que o próprio chefe de arbitragem influenciou o árbitro do VAR, Daniele Paternà. Num vídeo nas redes sociais, vê-se Paternà a considerar inicialmente que não havia motivos para assinalar penálti a favor dos de Udine. Depois vira-se bruscamente, lendo-se nos seus lábios a pergunta 'É penálti?', e tudo muda. Ele informa o árbitro principal em campo, Fabio Maresca, que há uma possível infração na área e pede-lhe para rever a situação no monitor. É aqui que Rocchi intervém com o que já foi definido como o 'toque' – uma ação que, segundo o protocolo, ele não deveria realizar.

No entanto, a presença de pessoas desnecessárias como Rocchi cessou, depois de, em maio de 2025, o ex-árbitro assistente Domenico Rocca ter enviado uma carta de queixa à Associação Italiana de Árbitros (AIA) sobre as nomeações do seu chefe. Foi então que a federação italiana ordenou a presença de um procurador federal na sala do VAR.

Porém, por acaso ou não, os erros de arbitragem aumentaram. Pelo menos, esta é a visão do ex-árbitro Daniele Minelli.

Em conversa com a agência noticiosa AGI, Minelli, que passou a maior parte da sua carreira na Serie B com alguns jogos na elite, afirma que a interferência na sala do VAR era bem conhecida entre os árbitros. Ele também diz que os árbitros cujos erros foram corrigidos pelo VAR recebiam uma classificação mais alta e, consequentemente, uma maior chance de apitar grandes jogos. Ao mesmo tempo, aqueles cujos erros não foram corrigidos caíam na classificação dos árbitros e, em alguns casos, podiam até não receber pagamento. «Os toques (no vidro) da sala do VAR? As pessoas falavam sobre isso e era bem sabido que o protocolo não o permitia», declarou Minelli.

«No caso do Udinese contra o Parma, é claro que, se o árbitro do VAR assinalasse (penálti), isso afetaria a sua avaliação e, consequentemente, a classificação interna, que determina se os árbitros permanecem ou vão para casa, e daí – se receberão os seus honorários. Pode haver também consequências para os clubes na classificação.»

Minelli afirma que o chefe de arbitragem Rocchi e os seus assistentes influenciaram certas decisões na sala do VAR, mas acrescenta que esses incidentes diminuíram significativamente após a queixa de Rocca no ano passado, o que resultou num aumento dos erros dos árbitros.

“Desde que Rocchi e os seus assistentes deixaram de aparecer em Lissone, porque a federação exigiu a presença do procurador federal na sala do VAR após a queixa de Rocca, os erros de arbitragem multiplicaram-se a um ritmo alarmante. Não sei se esta é a razão, mas nunca vi tantos como este ano.”

“Se os erros foram corrigidos em alguns casos e noutros não, é claro que isso distorceu a classificação dos árbitros, porque aqueles cujos erros foram corrigidos receberam uma avaliação positiva, enquanto os outros – negativa. Basta ver as gravações da sala do VAR dos últimos anos: pode-se ouvir como são feitas as sugestões.”