Escândalo em Itália: chefes da arbitragem e do VAR demitem-se
Gianluca Rocchi, nomeador dos árbitros das Series A e B italianas, está a ser investigado por suspeita de «participação em fraude desportiva». O Ministério Público de Milão investiga alegadas pressões sobre o VAR e o AVAR durante as duas últimas épocas, tendo Rocchi sido notificado esta manhã e agendado para interrogatório no próximo dia 30 de abril.
Em resposta à notificação, Rocchi anunciou a sua autossuspensão imediata do cargo. «Esta manhã recebi uma notificação de garantia. Tenho a certeza de que sempre agi corretamente e tenho plena confiança na magistratura», declarou à agência Ansa. «Em acordo com a AIA [Associação Italiana de Árbitros] e para o bem do grupo CAN, que deve poder trabalhar com a máxima serenidade, decidi autossuspender-me», acrescentou.
Rocchi descreveu a decisão como «sofrida e difícil», mas necessária para permitir o «correto desenrolar da fase judicial», da qual se mostrou confiante em sair «ileso e mais forte». O seu advogado, Antonio D'Avirro, reforçou a inocência do seu cliente, descrevendo-o como «uma pessoa séria e correta» e afirmando que Rocchi contesta as acusações.
A investigação teve origem numa denúncia apresentada em maio de 2025 pelo ex-árbitro assistente Domenico Rocca. A queixa, que já tinha sido arquivada pela justiça desportiva, ganhou agora relevância criminal. Segundo o procurador Maurizio Ascione, a acusação contra Rocchi assenta em três pontos específicos relativos às épocas 2023/24 e 2024/25.
Três acusações
Alegada manipulação na nomeação do árbitro Colombo para o jogo Bolonha-Inter, a 20 de abril de 2025. A nomeação do árbitro Doveri para a meia-final da Taça de Itália, com o intuito de o impedir de apitar a final. Suposta interferência no jogo Udinese-Parma (1 de março de 2025), quando o VAR, Paterna, terá consultado alguém no exterior da sala do VAR em Lissone antes de chamar o árbitro Maresca para uma revisão no monitor.
A denúncia de Rocca alega que, no incidente do Udinese-Parma, foi o próprio Rocchi quem se levantou e bateu no vidro da sala do VAR para chamar a atenção de Paterna e do AVAR Sozza, levando-os a alertar o árbitro principal. Curiosamente, a acusação não inclui o polémico lance do jogo Inter-Verona, em que uma falta de Bastoni sobre Duda não resultou numa chamada do VAR para revisão.
Uma denúncia que havia sido arquivada a nível desportivo ressurge agora na esfera penal, trazendo de volta a polémica em torno da arbitragem italiana. O caso remonta a uma queixa apresentada por Rocca, que levou a Associação Italiana de Árbitros (AIA) a tomar medidas drásticas para garantir a integridade dos procedimentos no centro de videoárbitro de Lissone.
Na altura, o então presidente da AIA, Zappi, reagiu à denúncia afirmando que seriam avaliadas «todas as ações para proteger a Associação». Zappi informou também ter contactado o nomeador Rocchi, que por sua vez já havia feito uma participação à Procuradoria da Federação Italiana de Futebol (FIGC).
Em consequência, a AIA decidiu enviar inspetores federais a Lissone para supervisionar o trabalho durante os jogos, assegurando que não haveria interferências externas. Foi ainda determinado que qualquer pessoa que visitasse as instalações durante os jogos teria de elaborar um relatório detalhado posteriormente. As salas de operações são visíveis através de uma divisória de vidro transparente, mas foi implementada uma política de não interferência entre quem está dentro e quem está fora.
Apesar de a queixa inicial ter sido arquivada desportivamente, a sua reabertura a nível penal volta a colocar sob escrutínio o comportamento dos árbitros. O gesto de Paterna durante o jogo Udinese-Parma continua a ser um dos pontos centrais da investigação, alimentando um novo capítulo na contínua crise da arbitragem em Itália.
Chefe do VAR também se demitiu
Andrea Gervasoni, atual supervisor do VAR, também foi incluído na lista de suspeitos de fraude desportivo. Perante a acusação, o italiano demitiu-se, tal como Rocchi. Em causa está o Salernitana-Modena, a 8 de março de 2025, em que terá pressionado o responsável do VAR, Luigi Nasca, para que solicitasse ao árbitro uma revisão de um lance de penálti.