Ramon Calderón, na Praça de Touros de Las Ventas, na Feira de Santo Isidro, em Madrid, a 8 de maio — Foto: IMAGO
Ramon Calderón, na Praça de Touros de Las Ventas, na Feira de Santo Isidro, em Madrid, a 8 de maio — Foto: IMAGO

Ramón Calderón: «Mourinho tem feitio especial, mas se for a solução para o Real ficarei contente»

Antigo presidente do Real Madrid foi o último eleito com os votos dos sócios, dirigiu o clube de 2006 a 2009 e negociou a transferência de Cristiano Ronaldo do Manchester United para os 'merengues'

MADRID — Presidente do Real Madrid de 2006 a 2009, fala de Mourinho, antes de Florentino Pérez o ter anunciado, Cristiano Ronaldo e de toda a atualidade dos merengues.

— Que lhe parece que tenha sido há 20 anos a última vez que os sócios do Real Madrid votaram em eleições em que o elegeram como presidente?
— Pois, foi uma pena, mas os estatutos atuais obrigam a cumprir requisitos muito difíceis para, praticamente, a totalidade dos sócios. É muito bom que agora haja um candidato, que demonstrou ser corajoso [Enrique Riquelme], não só porque decidiu apresentar-se e arriscar o seu dinheiro, mas também porque o faz contra Florentino Pérez, que é um presidente com um legado extraordinário: Champions, cidade desportiva, estádio. É bastante positivo que haja debate e se possa comparar projetos.

— Por que razão as condições para ser candidato se tornaram tão exigentes?
— Florentino Pérez não quis facilitar a possibilidade de que alguém se pudesse apresentar como candidato. É um erro porque tem, neste momento, muito crédito junto dos sócios. Tenho a certeza de que lhe voltarão a dar a confiança.

— Florentino vai ser reeleito mesmo depois de dois anos sem ganhar nada?
— No Real Madrid ganhar é uma obrigação. Mesmo que um presidente seja eleito indefinidamente, é impossível manter-se no cargo se a equipa não vence, quando o estádio protesta, quando há lenços, gritos de demissão ou descontentamento na rua. Já passaram dois anos e será difícil que, mesmo que Florentino vença as eleições, como creio que acontecerá, consiga manter-se muito mais tempo sem conseguir títulos.

— E, então, o que aconteceria?
— Seria necessário convocar eleições outra vez. Se decidir sair, como fez em 2006 por ter estado três anos sem nada ganhar, haveria que proceder a novas votações.

— Seria candidato?
— A minha época já passou, tive a oportunidade, a honra e o orgulho de poder estar lá e de ajudar, mas agora já cabe a outros meterem-se nessa piscina de tubarões. O mundo dos poderosos entende que o Real Madrid lhes pertence. Isso faz com que, quando alguém que não o é tenta tirar-lhes esse bolo, não o aceitem de bom grado. Quando um peixe pequeno entra nessa piscina, descobre que o querem devorar e não o deixam fazer o seu trabalho — foi o que fizeram comigo — tornaram-lhe a vida impossível. Percebi que estar lá muito tempo não compensa.

— O camarote de honra do Bernabéu é um bom sítio para fazer negócios?
— No meu caso, não, certamente. Não fiz qualquer negócio, nem tentei. Aliás, tenho o orgulho de que, quando fui presidente, em todos os jogos estivessem lá, convidados, 100 sócios do Real Madrid. Lembro-me de como todos agradeciam e me davam os parabéns.

— É mais importante ser presidente do Real ou ser ministro?
— Tem mais visibilidade, isso de certeza. Reuni-me com muitos primeiros-ministros, chefes de Estado, até com um Papa. O Real Madrid tem muita força, é um clube admirado e respeitado em todo o mundo. É lendário. Depois de mais de 120 anos, ter ganho mais do dobro de Champions do que o segundo clube, continuar a ser uma associação desportiva sem fins lucrativos e ter conseguido tudo isso enfrentando multimilionários, clubes-estado e oligarcas, tem um enorme mérito. Todos sabem que associar o nome ou marca ao Real Madrid dá prestígio.

Mourinho é polémico, uma pessoa com um feitio, ou pelo menos assim o tinha, um pouco especial que provocava conflitos com os adversários, árbitros e assim por diante. Mas oxalá venha, se ele for a solução para chegar ao Real Madrid, conseguir mudá-lo e obter triunfos, pois bem-vindo seja, seria muito bem recebido e ficaria muito contente, porque isso significaria que o clube voltaria a ganhar.

— Parece que Florentino tem intenção de mudar o modelo societário do clube.
— Terá de explicá-lo. É verdade que numa assembleia disse que queria vender cinco por cento do que existe atualmente e isso parece-me impossível porque não há ações transmissíveis, teria de converter o clube numa sociedade anónima. Parece que falava de uma fórmula pela qual se constituiria uma sociedade propriedade dos sócios que, por sua vez, venderia essa percentagem, mas não explicou muito bem o que quer fazer nem como o faria. Acho que não seria fácil neste momento, porque os resultados não o aconselham e porque os estatutos exigem a aprovação de mais de metade de todos os sócios, ou seja, 50 mil, algo muito difícil de conseguir. E depois é preciso esclarecer qual é a razão pela qual um clube que, como dizia antes, ganhou mais títulos do que ninguém, tanto ligas como Champions, e que apresentou dados de faturação de 1.200 milhões de euros, precisa de procurar capital externo. É um problema de falta de dinheiro, de liquidez? Não sabemos e tem de explicá-lo.

— Parece que o estádio não está a dar o rendimento que se esperava, algumas fontes de receita falharam ou estão a falhar…
— Houve dois problemas: o primeiro é que parece que o custo do estádio está a ser ou vai ser muito superior ao orçamentado, não sabemos exatamente o valor mas, de acordo com os créditos que foram pedidos, creio que são mais ou menos 1.400 ou 1.500 milhões de euros, muito mais do que inicialmente estava previsto; o segundo é que não se teve em conta que o ruído iria impedir a realização de concertos, e aí havia receitas importantes para amortizar a dívida e o custo do estádio. Não sei o que vai acontecer, parece que não vai ser fácil encontrar uma solução, é preciso esperar e, se o problema não tem solução, terá de se explicar aos sócios que não se pode pagar ou que há dificuldades para o fazer e que isso pode prejudicar o projeto desportivo.

— Gostou da remodelação do estádio?
— Parece-me que não era necessária. Em 2009, quando estava na comissão organizadora da Champions na UEFA, consegui que em 2010 o estádio fosse o palco da final da Champions, o que quer dizer que a UEFA considerava que o Bernabéu era um dos melhores, senão o melhor estádio da Europa. Podia ter-se pensado numa pequena remodelação. O que foi feito parece-me exagerado, sobretudo porque o custo final não é o foi calculado.

Tenho simpatia por Mourinho como pessoa, com quem estive um par de vezes, parece-me um homem que é simpático e agradável no trato pessoal. O que acontece é que quando esteve aqui os resultados não foram os melhores: ganhou apenas uma liga e em três anos não se chegou a nenhuma final da Champions.

— Mourinho estará de volta. Qual a sua opinião sobre isso?
— Tenho simpatia por Mourinho como pessoa, com quem estive um par de vezes, parece-me um homem que é simpático e agradável no trato pessoal. O que acontece é que quando esteve aqui os resultados não foram os melhores: ganhou apenas uma liga e em três anos não se chegou a nenhuma final da Champions. E depois é polémico, uma pessoa com um feitio, ou pelo menos assim o tinha, um pouco especial que provocava conflitos com os adversários, árbitros e assim por diante. Mas oxalá venha, se ele for a solução para chegar ao Real Madrid, conseguir mudá-lo e obter triunfos, pois bem-vindo seja, seria muito bem recebido e ficaria muito contente, porque isso significaria que o clube voltaria a ganhar.

— Pede-se mão de ferro ou diplomacia no balneário?
— Os que triunfaram no Real Madrid são treinadores que não usavam o chicote, que não se dedicavam a tomar decisões drásticas. Ancelotti, Del Bosque e Zidane foram os que mais recentemente ganharam a Champions. A chave na vida é o convencimento, e um treinador do Real Madrid tem de saber convencer os jogadores de que as suas decisões são as melhores. Não se trata de castigar, de impor e de agir com mão de ferro, é preciso demonstrar que se tem autoridade; o respeito tem de ser conquistado, não imposto, para que os jogadores tenham confiança no que diz e no que faz o treinador.

Ramón Calderón apresentou Pepe como reforço do Real Madrid a 12 de junho de 2007 — Foto: IMAGO

— Durante a sua presidência também havia incidentes no balneário?
— Pelo menos não me apercebi, mas parece que a última briga não deve ter sido muito normal, por ter sido aplicada a maior sanção na história do clube: meio milhão de euros a cada jogador.

— Parece-lhe bem esta estrutura do clube de não contar com diretor desportivo?
— Sempre me pareceu um erro, os presidentes não são profissionais do futebol e, na minha opinião, há sempre que confiar em alguém que seja capaz, pelo menos, de nos dar a sua opinião. Confiei sempre em Predrag Mijatovic, uma pessoa muito conhecedora do mundo do futebol, sabia o que fazia falta à equipa, em poucos meses mudou 14 jogadores e o sucesso produziu-se, ganhámos duas ligas seguidas, a equipa estava muito bem formada e dedicou-se ao que devia: o treino, a luta, o esforço, a perseverança. A chave do êxito esteve em saber combinar o talento e a grande qualidade dos jogadores com a disposição de estarem preparados e motivados para darem sempre o seu melhor.

— Também é dos que acham, como os antigos ou atuais dirigentes do clube, que os árbitros prejudicam o Real Madrid?
— A verdade é que, quando fui presidente, nunca pensei que algum árbitro se enganasse voluntariamente para nos prejudicar. Também é verdade que o que aconteceu com o caso Negreira é não tem bom aspeto, mas também não sabemos o que realmente aconteceu. O assunto está nas mãos da Justiça, tanto a ordinária como a desportiva, e, quando houver uma resolução, poderemos opinar com conhecimento. Fazê-lo agora é precipitado, inoportuno e impróprio.

— Enrique Riquelme tem capacidade para presidir o Real Madrid?
— Só estive uma vez com ele. Conheço bem, sim, o pai dele, que esteve comigo na Direção do Real quando fui presidente. É jovem, com muito êxito nos negócios, que conseguiu ter 75 por cento de uma empresa que já quotiza em bolsa com uma capitalização, ao que parece, de 1.200 milhões de euros. Há que ouvir o que propõe, o projeto, as ideias, as medidas que tomaria. Mas coragem já demonstrou ter muita: arriscou o seu dinheiro e confrontou-se com um presidente a quem será muito difícil vencer.

— O possível regresso de Mourinho terá influência no resultado das eleições?
— Há divisão entre os adeptos, uns admiram-no, têm saudades dele e que querem que volte, e outros que entendem que o regresso não é oportuno. Não sei, passaram muitos anos, suponho que a sua forma de ser terá mudado, tem mais anos de experiência e tem a seu favor o facto de conhecer bem o clube por dentro. Não se sabe muito bem como será ele agora, mas a realidade demonstra que é um treinador com um perfil que não foi o que logrou êxitos e títulos com o Real Madrid. Agora, é possível que consiga, oxalá que sim, isso seria o ideal.

— Como disse, o tempo passou e Mourinho provavelmente já não será o mesmo dos anos em que esteve no Real Madrid.
— Mijatovic dizia-me isso de Capello, que quando o conheceu era uma pessoa muito diferente da que veio quando o contratei, ou seja, os treinadores, como todas as pessoas, evoluem e mudam, embora no caso de Mourinho haja certas atitudes que me parece que mantém. Estive em Lisboa a ver o jogo do Benfica contra o Real Madrid e vi que, como dizemos em Espanha, continua a ser guerreiro, muito efusivo na forma de agir, o que não é mau se estiver bem canalizado. Em resumo, já passou por vários clubes e suponho que ficará encantado de poder voltar ao Real Madrid.

— Porque tem Florentino tanta desconfiança com os treinadores? Parece que o único em que acredita é em Mourinho.
— Nunca confiou nos treinadores, entende que a chave do negócio do futebol são os bons jogadores, e que o que o treinador faz tem muito pouca importância, chegou mesmo a dizer publicamente que o melhor treinador seria um engenheiro civil, mas isso não é possível. Por isso não tem diretor desportivo nem alguém que o aconselhe. Há que reconhecer que, com o seu sistema, até agora tem acertado. Outra coisa é que, quando as coisas não correm bem, não tem alguém que o aconselhe. Isso é problemático e deveria ser corrigido.

— Quando era presidente, intervinha nas decisões relacionadas com o futebol?
— Não, os profissionais conhecem muito melhor o futebol do que um engenheiro, um advogado ou um arquiteto, sabem como se constrói uma equipa, não é só juntar bons jogadores; numa orquestra, não é suficiente ter bons violinistas, os restantes músicos também têm de estar bem coordenados. Numa equipa de futebol é o mesmo, mas fazer isso não é fácil, pelo menos achava que seria importante que o fizesse alguém com mais capacidade para escolher os futebolistas e dar à equipa um sistema de jogo atrativo e que desse bons resultados.

— Está convicto de que Florentino vai ganhar?
— Creio que sim, os sócios ainda acreditam nele e que a equipa vai mudar o caminho das derrotas. O historial como presidente é muito bom, não se pode ocultar. Estou convencido de que vai ganhar, a questão é saber que parte da massa associativa o apoia e que percentagem votará em Riquelme, isso dará uma ideia do descontentamento ou da satisfação.

— Florentino foi o melhor presidente da história do Madrid, melhor até do que Bernabéu?
— São dois tipos de presidentes diferentes, Bernabéu esteve 35 anos, iniciou esta lenda, foi o primeiro a trazer jogadores estrangeiros para Espanha e para o Real Madrid. Conseguiu tudo, foi criador, ajudou a fundar a Champions, foi um dos impulsionadores da FIFA. São épocas diferentes, mas nos últimos 20 anos Florentino conseguiu muitas Champions, Ligas, trouxe muito bons jogadores e deu à marca um valor importante. A cidade desportiva e o estádio, com o problema do custo, são dos melhores projetos. O estádio está lá e há muita gente contente com o modo como ficou.

— Como ficará Ramón Calderón na história como presidente do Real Madrid?
— Cada um terá a sua opinião, gostaria que me vissem como alguém que tentou fazer o melhor possível, que procurou contribuir com o seu grãozinho de areia para que a história do clube fosse um pouco maior. Ganharam-se dois títulos de liga seguidos, algo que não aconteceu nos últimos 23 anos, em suma, procurei ajudar o Real a continuar a ser um grande clube.

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