Mundial
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Quantas das tuas lágrimas, Cris, são lágrimas de Portugal? (crónica)
RLINGTON — O futebol sabe ser de uma crueldade sem nome nos palcos onde a glória se mede ao milímetro. Em Arlington, no coração de um Texas que assistiu a uma das mais heróicas exibições defensivas da história recente da Seleção, o destino guardou o golpe de misericórdia para o primeiro minuto de compensação.
O golo de Mikel Merino caiu como um balde de água gelada, punindo um Portugal que soube sofrer e ser grande, mas que acabou traído por uma nesga de espaço ao cair do pano. Cai de pé a Seleção, embora sabendo que há coisas que não correram bem.
A primeira parte tinha sido um tratado de contenção, mas foi no segundo tempo que o drama subiu de tom. À passagem do minuto 61, o perigo rondou seriamente a nossa área quando Pedri armou um daqueles mísseis venenosos. Foi aí que se ergueu a figura imperial de Renato Veiga, assinando uma exibição soberba para dar o corpo às balas e desviar o para canto.
Pouco depois, aos 65’, foi Alex Baena a testar os reflexos do gigante Diogo Costa, que se manteve seguro. A liça pedia sangue novo e Roberto Martínez mexeu muito bem aos 70 minutos, lançando Diogo Dalot e Rafael Leão para os lugares de João Cancelo e João Félix, renovando o oxigénio luso.
A Espanha não dava tréguas e, aos 73’, num livre direto à entrada da área, Lamine Yamal procurou o ângulo num duelo de cortar a respiração. Valeu mais uma defesa do outro mundo de Diogo Costa, que voou para o impossível e manteve Portugal vivo na partida.
O ritmo amoleceu ligeiramente nos quinze minutos finais, com as duas equipas a jogarem com o travão de mão puxado, receando sofrer.
Mesmo assim, a velocidade de Rafael Leão ia agitando a ala esquerda. O extremo, de saída do Milan, serviu, aos 76’, Bruno Fernandes para um remate cruzado que fez o estádio gritar golo, morrendo a bola tragicamente na malha lateral das redes de Unai Simón.
O jogo partiu-se e Ferrán Torres, que entrara entretanto, começou a baralhar as marcações com diagonais perigosas, valendo a atenção de um Rúben Dias categórico, um colosso que aos 78’ limpou um lance crucial.
Martínez respondeu aos 83’ esvaziando o banco: saíram Neto e Vitinha para as entradas do cérebro Bernardo Silva e do espalha-brasas Francisco Conceição.
Inexplicavelmente, Gonçalo Ramos, o grande herói do triunfo heróico frente à Croácia, ficou esquecido no banco quando a Pátria mais gritava por golos na área adversária. Na lateral, Nélson Semedo, que entrou muito bem, controlava o genial Yamal. Tudo parecia destinado ao prolongamento.
Mas o destino tinha linhas tortas por escrever. A placa indicou seis minutos de compensação e, logo no primeiro, o castigo cínico consumou-se. Ferrán Torres desenhou uma desmarcação perfeita e Merino aproveitou um raro buraco na linha defensiva para fuzilar sem apelo, batendo Diogo Costa.
Portugal não se entregou e, num fôlego heróico de pura raça e desespero, lançou-se com tudo para a frente. No último suspiro, aos 90+7’, Bernardo Silva ergueu-se e desferiu um cabeceamento soberbo, mas bola passou milimetricamente por cima da barra de Unai Simón. Ficou o grito sufocado na garganta e a certeza de que a glória nos escapou por malditos milímetros.
Com o apito final, as lágrimas de Cristiano Ronaldo inundaram o relvado de Arlington, lavando a alma de um capitão que sabia estar a assinar o seu último capítulo em Campeonatos do Mundo.
Um adeus doloroso que convoca a herança da nossa própria poesia colonial. Ó mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal? Na noite desta segunda-feira, neste deserto americano, a pergunta faz-se num eco de dor e vénia que ficará gravado na história: quanto das tuas lágrimas, Cris, são lágrimas de Portugal?