Mundial
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Cristiano Ronaldo: não te queremos 'matar', mas chega
Não colocar Gonçalo Ramos em campo, num jogo em que Portugal foi sendo sucessivamente empurrado para trás por Espanha na segunda parte, foi a cereja no topo do bolo do circo de horrores de Roberto Martínez, um diplomata escolhido pela Federação Portuguesa de Futebol para não levantar ondas e acenar sorrindo enquanto a casa arde. Em jogos de Mundiais, o agora avançado do Milan tem a fraquinha média de um golo ou assistência a cada 37 minutos em campo e, em Arlington, quem sabe se não tinha feito o que fez com a Croácia, naquele cabeceamento de Bernardo Silva, em cima do apito final.
A bazófia e soberba da FPF encheram páginas e o entusiasmo de milhões de portugueses ao longo dos últimos: neste Mundial é que era tudo nosso, neste Mundial é que ia dar Portugal, nunca se tinha visto um meio-campo deste calibre na história da Seleção, Cristiano Ronaldo ia calar todos os que o querem matar há 23 anos e Diogo Jota iria orgulhar-se de ver o que os companheiros estavam a fazer por ele. Em cinco jogos no Mundial, Portugal teve dois absolutamente confrangedores, contra RD Congo e Colômbia, e logo aí se percebeu que, apesar de a qualidade individual abundar, a equipa continuava a não funcionar.
E o culpado tem dois nomes: Roberto Martínez. A obsessão por não querer mexer no status quo de CR7 e Bruno Fernandes — a anos-luz do que há um par de meses foi eleito o melhor jogador da época da Premier League! — deixa, agora, Portugal lavado em lágrimas. Se esta é a melhor geração de sempre, que os desculpem Miguel, Ricardo Carvalho, Petit, Tiago, Deco, Maniche, Costinha, Luís Figo, Simão Sabrosa, Nuno Gomes ou Fernando Meira, para citar somente alguns dos que, esses sim, honraram Portugal pela última vez no palco Mundial (2006).
O argumento de que a Espanha é a atual campeã europeia e, por isso, sair do Mundial sendo eliminado por nuestros hermanos não é vergonha nenhuma, mas esse confronto poderia ter sido evitado se a Seleção não tivesse feito figura de corpo presente no jogo com a Colômbia, que lhe dava o primeiro lugar no grupo e duelos relativamente mais acessíveis nos oitavos e quartos de final: Gana primeiro, Suíça depois.
É hora de, uma vez por todas, virar a página. O ciclo de Roberto Martínez vai, felizmente, encerrar-se, sem brilho nem glória, ficando para a história uma insossa Liga das Nações quando comparada com as desilusões no Europeu e neste Mundial. Roberto Martínez mostrou-se um treinador medroso, sem capacidade de assumir o jogo, e com um discurso redondo. Antes do Mundial, em entrevista à RTP, dizia acreditar fortemente na numerologia do 6: pois bem, foi eliminado no dia 6, com um golo do camisola 6 de Espanha. O futebol em 2026 não se compactua com este tipo de crenças e Portugal não pode estar entregue a isso quando tem um plantel recheado de jogadores que, nos seus clubes (e só aí), são dos melhores do Mundo.
A iminente entrada de Jorge Jesus para o lugar do espanhol tem de ser o rastilho para que das palavras se passem aos atos e Portugal possa, finalmente, ser a potência que todos queremos. Se no banco é obrigatório um abanão, dentro de campo também e é hora de Cristiano Ronaldo dar o passo ao lado porque, já percebemos, o ego não lhe permite ser suplente de um jogador que, aos dias de hoje, dá um rendimento incomparável. Ficará para sempre no campo do desconhecido o que teria sido deste Mundial sem a obrigação doentia de termos Cristiano Ronaldo em campo 90/90/90 e esta eliminação nem Donald Trump pode reverter.
Jorge Jesus terá a batata quente na mão e não vamos precisar de esperar muito para ver: no final de setembro arranca a Liga das Nações, com quatro jogos a abrir, contra País de Gales, Noruega (duas vezes) e Dinamarca.