Mundial
Mundial
Falhanço no Mundial, fim de ciclo e agradecimento a Ronaldo: tudo o que disse Martínez
- A que atribui esta derrota e sente que Portugal fez o suficiente para ter um resultado diferente?
- Foi um jogo que terminámos com tristeza, porque não foi o resultado que queríamos. Tivemos um adversário que era favorito neste Mundial, mas isso não parou aquilo que queríamos fazer. Defensivamente tivemos muita coragem, boa agressividade, defendemos muito bem. Depois o que acontece nos oitavos do Mundial, há detalhes importantes: a bola na barra, não entrar ou entrar, e a oportunidade no minuto 90 numa falta rápida. Foram os detalhes que fizeram a diferença, mas é um orgulho incrível pelo desempenho. A equipa esteve muito bem organizada, muito bem sincronizada. Com bola tivemos bons momentos, na segunda parte podíamos ter mais chegada ao último terço, mas em geral foi um jogo em que sinto um orgulho incrível, porque demonstra todo o trabalho feito pelos jogadores na nossa Seleção para poder jogar com uma equipa contra a Espanha olhos nos olhos. E acho que tivemos um pouco de azar, a sorte não esteve do nosso lado.
- O legado que deixou foi não tirar proveito de uma das melhores gerações que tivemos e da gestão de Ronaldo?
- É certo que é o meu último jogo por Portugal. Quero agradecer ao povo português, porque foi um período incrível, um orgulho que não posso descrever toda a força, energia, que tivemos de todos os adeptos, de todo o povo português. Foi incrível, agradecer isso. Levo comigo uma memória para toda a vida. Os jogadores fizeram um trabalho incrível, têm muito talento, e também tiveram um compromisso para serem uma equipa. São 45 jogos, os melhores números na história de Portugal, o número de golos, de pontos. Isso é o compromisso dos jogadores. Memórias de ganhar a Liga das Nações, dos recordes. Agradeço aos jogadores, à Federação para dar todas as condições que precisámos, à equipa técnica, trabalharam muito para ajudar os nossos jogadores. Levo comigo uma memória incrível e agradecimento ao povo português.
- Essa decisão já comunicou a Proença ou foi ao contrário? Vai ser lembrado pelos portugueses por conquistar a Liga das Nações ou por falhar no Mundial?
- Não falhámos, perdemos o jogo contra uma equipa que é favorita. Jogámos olhos nos olhos, fomos nós mesmos, mostrámos um talento individual incrível. Ganhar ou perder, ganhámos a Liga das Nações nos penáltis, são detalhes. Quando jogamos com grandes equipas é isso que acontece. Levo comigo o nível de consistência, o número de golos, pontos, que é muito difícil a nível de seleções. Os conceitos táticos, o número de jogadores que representaram a Seleção, isso é que é importante. Falhar é não tentar ganhar, tentámos ganhar até ao último minuto, dar tudo o que temos. Os jogadores foram incríveis, exemplares, de como vestir a camisola de Portugal. É isso que te faz, no futebol ou na vida, com que sejas ganhador. Levo comigo um legado incrível e espero que os adeptos possam lembrar tudo o que eu e a equipa técnica tentámos dar, a nossa vida, em três anos e meio, foram muitas memórias criadas.
- Sente que tinha condições para continuar e qual a justificação?
- É o fim do ciclo e é importante ter agora outra voz. É legítimo que Proença possa escolher o seu selecionador. Agradecer o apoio, pelo que fizeram para me dar, enquanto selecionador, todas as condições. É o fim de um ciclo, levo comigo as memórias e espero que o povo português possa ter memórias de três anos e meio que foi a minha vida toda.
- A decisão já estava tomada antes do Mundial?
- Não, não estava. Eu cheguei a Portugal para ganhar o Mundial e sem ganhar o Mundial não faz sentido continuar. O presidente tem agora a possibilidade de escolher o seu selecionador, o presidente sempre apoiou o meu trabalho, mas o meu contrato termina hoje, portanto não há muito mais a falar.
- Não é só Portugal, há poucas seleções que consistentemente têm uma grande chegada às fases finais dos Mundiais. Estamos a falar do torneio com os melhores jogadores e seleções, portanto consistência é difícil. O que é muito difícil de conseguir é apurar-se sempre e isso é o que Portugal está a fazer. Chegar às fases finais com este jogo, com novos jogadores, porque a escola de Portugal é um exemplo para todo o mundo, um país com 10 milhões de habitantes. Isso é o que se pode controlar. Depois nas fases finais há adversários, momentos como hoje, um substituto marca um golo, são aspetos que fazem a diferença de ganhar ou não um Mundial. Portugal é uma seleção ao máximo nível desde 2002.
- Ronaldo fez o seu último jogo, estava em lágrimas, como estava?
- Palavras de agradecimento, porque foi um capitão exemplar. Chego a Portugal num momento de muita confusão, com muita dúvida, sobre a posição de Cristiano. E para mim foi um exemplo, nos três anos e meio que tivemos, não só a nível de golos, que estão aí nas estatísticas, as assistências, o que faz dentro da área, mas o compromisso do dia a dia, a forma como vive o futebol. É um exemplo que temos de celebrar, estamos a falar de um ícone do futebol, não há muitos Cristianos Ronaldos. Há que agradecer o que fez neste Mundial, porque o sonho era ganhar o Mundial e tentou com um exemplo incrível de capitão, a nível futebolístico, mas humano dentro do balneário, do círculo dos jogadores, foi algo que todos levamos para sempre. É um exemplo de futebol e de desportivo, de ser humano atrás do desportista.
- Quão importante era Nuno Mendes?
- Sou honesto, creio que parámos o Lamine Yamal muito bem. Quando estava o Nuno... e com o Nélson Semedo, e com a ajuda do João Neves e da equipa, porque um jogador destes tem a dimensão de jogo de um para um, de passe e abrir espaço. Defendemos muito bem como equipa. A saída do Nuno Mendes… é um pouco contraditório, porque perdemos poder de ataque. Cada vez que subia no ataque encontrava muito espaço e é um jogador único. É o melhor lateral-esquerdo do mundo da atualidade e claro que perder um jogador assim… mas não é o que nos faltou quando ele saiu, foi uma pena não chegar ao prolongamento. O Mundial é assim, acho que estávamos mais preparados para chegar ao prolongamento do que a Espanha, até pelos suplentes, a Espanha vinha de quatro jogos em que não teve de defender a área. A saída do Nuno prejudicou-nos o que podíamos fazer no último terço, mais do que o aspeto defensivo do Yamal.
- Haverá muitas críticas por não lançar Gonçalo Ramos e manter Ronaldo. Como reage?
- Há uma forma fácil de analisar. Quando a tua equipa precisa de golos não podes tirar o Ronaldo, pelo menos durante os 90 minutos, porque fisicamente ele é capaz, tal como fez durante toda a época. A sua presença, o espaço, precisamos da sua experiência na área, não faria sentido. Se fossemos a prolongamento, seria o momento para usar a energia do Gonçalo Ramos. Tínhamos de manter a estrutura. É usar os jogadores, a informação que temos. O Rafael Leão foi o nosso melhor jogador contra a Croácia, a última vez que jogou 90 minutos foi em março e durante toda a época não jogou dois jogos em quatro dias. Temos de proteger os jogadores. Estou triste, porque perdemos e queríamos chegar à final. Senti mesmo que podíamos ter tido 8 jogos, mas saio orgulhoso.