Problema do Sporting é Rúben Amorim
É claro que é normal. Em qualquer empresa é normal gente entrar, gente sair, mesmo nos cargos mais altos na hierarquia. É o que vai acontecer no Sporting. Hugo Viana tem na estrutura do futebol o posto mais alto: reporta diretamente a Frederico Varandas que nele delegou a construção do plantel, em estreita colaboração com Rúben Amorim. A sintonia entre os dois é conhecida, o trabalho é de sucesso. Por isso a natural preocupação dos sportinguistas.
Porém este Sporting encontra-se num estádio de desenvolvimento que permite abalos sem que se sinta a terra tremer. Mais preocupante do que o anúncio da saída de Hugo Viana a oito meses dessa mesma saída se consumar foi na época passada Rúben Amorim ter viajado de surpresa a Londres para tratar da sua vida em fase crucial de uma temporada em que os leões lutavam pelo título. Mas o abalo causado não assustou a equipa que acabou campeã nacional. Porque realmente o clube vive «numa fase em que já há um método, uma ideia, algum projeto, uma visão onde se pode mudar as peças». E o crédito acumulado pelo treinador e pelo diretor desportivo possibilitam permitirem-se a estas situações que noutras alturas seriam crimes de lesa-clube…
O trabalho de Rúben Amorim no Sporting é o melhor que qualquer treinador fez nos últimos 70 anos. O trabalho de Hugo Viana, a forma como batalhou para dar ao treinador sempre tudo o que ele pediu, a isso ajudou… e muito. Ninguém se pode admirar por ambos serem desejados por milionários emblemas da Europa — sim, de campeonatos como a Premier League, a mais competitiva, importante e restrita do mundo e não milionários novos de outras latitudes. O novo futebol é assim, não são apenas os jogadores e os treinadores que são cobiçados mas também dirigentes, diretores.
O grande desafio do Sporting, quanto a mim, não acontece esta temporada — ou melhor, o grande desafio do Sporting fora das quatro linhas (tentar o bicampeonato será sempre grande empreitada) não está nesta temporada —, antes em 2025/2026. Porque quem vem tem herança pesada — e quem vem é o novo diretor geral do futebol, Bernardo Morais Palmeiro, o coordenador do scouting, Flávio Costa (e virá também novo treinador?...). E nisto nota-se a preocupação de Varandas em dar seguimento a uma ordem natural das coisas: Palmeiro já trabalhou três anos, até há um ano, com Viana nas negociações de transferências; Costa coordena o departamento que apresentou, por exemplo, Viktor Gyokeres e Morten Hjulmand a Amorim. Nenhum tem, porém, o tato de grande balneário que Viana tem e isso não se ganha de um dia para o outro — é aqui dúvida que me fica sobre se poderá ou não entrar mais algum elemento na estrutura que faça essa função de ligação.
E claro que o problema maior será com… Rúben Amorim, na hora da saída ou da continuidade: porque substituir um treinador com este crédito conquistado em títulos e bom futebol será sempre o maior desafio; porque saber trabalhar com ele e seus caprichos, e Viana sempre tudo fez até ao limite para os satisfazer, será igualmente tarefa árdua.
Quanto ao tão badalado conflito de interesses, esse tem de terminar no momento em que o jogo está aberto: toda a gente sabe, porque oficial, que Hugo Viana vai ser o novo diretor desportivo do Manchester City, toda a gente sabe que ainda vai trabalhar para o Sporting no mercado de inverno, numa eventual negociação entre estes dois clubes em janeiro naturalmente que terá de delegar as negociações. Depois de janeiro, então, o papel de Viana terá de resumir-se ao futebol que se joga, ao balneário, onde tem também grande importância. Antes, os dois clubes defrontam-se na Liga dos Campeões mas não me consta que Viana vá entrar em campo para jogar e se jogasse não seria a primeira vez que um jogador, um profissional, iria defrontar a futura equipa. Quanto ao resto, toda a gente sabe que um futuro diretor de um clube estaria sempre a preparar o terreno, como Palmeiro também estará a fazer a mesma coisa em Alvalade ainda esta época, embora só comece oficialmente em 2025/2026. Dizer que isso não seria natural é enganarmo-nos a nós mesmos.