Flávio Gonçalves é a grande sensação do Sporting
Flávio Gonçalves é a grande sensação do Sporting

Primeira parte secou o Rio Ave, segunda foi para treinar a jogar (crónica)

É nítido o crescimento do Sporting como equipa, e as ideias de Rui Borges começam a ganhar forma através de peças que começam a encaixar-se. Será que já houve um intérprete que explicasse aos jogadores rioavistas o ADN do clube, baseado no espírito de Caxinas?

Foram 45 minutos para decidir, e outros tantos à espera que o árbitro apitasse para o fim da partida. Meia parte de amasso leonino, e mais meia de tédio, gestão, experiências, sem ponta de interesse do ponto de vista do espetáculo ou da emoção, muito menos ainda da incerteza.

Um jogo desequilibrado em tudo, sobretudo na atitude dos conjuntos: o grande jogou com a humildade do pequeno; o pequeno (com o devido respeito) nunca percebeu o significado do emblema que tinha ao peito, aquilo que ergueu e manteve o clube na ribalta, o que foi a matriz muito própria do Rio Ave. Ir a Vila do Conde, ganhando, empatando ou perdendo, foi, historicamente, uma dor de cabeça para os maiores clubes, desde o tempo do pelado dos Arcos. Porque a equipa da casa baseava-se no espírito de Caxinas, bairro piscatório da cidade, onde a luta contra os elementos é o ganha pão, forjando-se um espírito indómito de antes quebrar que torcer.

Haverá alguma semelhança entre esta sociedade das nações arregimentada por Marinakis e a equipa em que os rioavistas se reviam? Nenhuma, nem por coincidência. Os futebolistas que representam Vila do Conde são ‘fofinhos’, não fazem faltas, metem o pé devagarinho (via o jogo e lembrava-me de Paulinho Santos), jogam demasiado longe uns dos outros e, francamente, não se revoltam contra a marcha adversa do marcador. Quando enfrentam uma equipa como o Sporting, em vez de serem o cardo cheio de picos que era impossível de engolir, são um pastel de nata que se traga de uma só vez, doce, estaladiço, que dá vontade de repetir. Poder-se-ia dizer que o Sporting fez uma exibição excecional, mas os leões nem precisaram de meter o prego a fundo. Bastou-lhes colocar as peças nos lugares certos e aproveitar os espaços que a (des)organização do Rio Ave lhes oferecia entre linhas.

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SPORTING MELHOR

Reservando-me para um teste com outra exigência para apreciações mais substanciais, o que foi visto perante o Rio Ave revelou que Rui Borges começa a encontrar nomes para as funções que pretende ver desempenhadas. Partindo de bases sólidas, que passam pelo curto espaço entre setores que manieta as tentativas de ataque rápido dos adversários, o técnico leonino apresentou os melhores laterais (Fresneda e Maxi), uma dupla de centrais que, embora com défice na capacidade de choque, dá profundidade e sabe sair a jogar (Debast e Inácio); um duplo pivot em que Altimira prefere que o deixem a tomar conta da posição ‘seis’ e Doumbia encarrega-se do trabalho que se pede a um ‘oito’; tem Catamo, genial, decisivo, desequilibrador, na direita e apostou, na esquerda, em Flávio Gonçalves (quem?), que não foi contratado ao City nem ao PSG mas que respira e transpira talento, e não só tem golo, como sabe assistir e é fiável na recuperação de bola: um achado.

Na frente, Zalazar, ainda à procura do seu espaço e de automatismos nas permutas com os seus parceiros das las (como Trincão fazia com Pote e Catamo) e Suárez, que golo a golo caminha para a reconciliação com os adeptos (mais a mais percebendo que o Sporting não cede e o mercado que tem não é entusiasmante).

Deste desenho resultou uma equipa verde e branca que, contra a indigência competitiva do Rio Ave, aproveitou os 90 minutos para aprimorar rotinas, chegando muito cedo ao resultado que lhe permitiu descansar. Os rioavistas, uma espécie de albergue espanhol ou torre de Babel, conforme preferirem, sempre longe uns dos outros, foram abrindo mais buracos do que aqueles que tem um queijo suíço e logo aos cinco minutos Doumbia descobriu, com um passe frontal, Flávio Gonçalves, que não se fez rogado e abriu o ativo.

À ténue reação dos donos da casa, os forasteiros iam respondendo cada vez com maior perigo, porque uma espécie de pressão alta, sem eira nem beira, da equipa de Sylaidopoulos tinha como consequência saídas rápidas dos leões, pelas avenidas que se lhes abriam. E foi assim que aos 19 minutos, após bela jogada coletiva sempre em progressão, Geny Catamo assinou um golo de bandeira, assistido por Flávio Gonçalves. Sete minutos volvidos, depois de um remate de Catamo ao poste (nova saída rápida) Suárez faturou para o 0-3 e depois de, aos 36 minutos Zalazar ter falhado de baliza aberta, aos 37 Suárez, após nova circulação de bola ‘cinco estrelas’ dos leões, assinou o 0-4.

Diz a Bíblia que Deus, ao sétimo dia, descansou. Os leões relaxaram a partir do ‘poker’ e o segundo tempo serviu para poupar uns e dar minutos a outros, perante um Rio Ave que apenas estava desejoso que o jogo acabasse.

PASSAR O TEMPO

A metade complementar foi desprovida de emoção, apesar do Sporting ter tido algumas ocasiões para dilatar o ‘score’ (o Rio Ave apenas por uma vez se acercou, sem assustar por aí além, da baliza de Rui Silva, aos 74 minutos). Foi tempo de substituições, as do Rio Ave, para contenção de danos através de maior pulmão, e as do Sporting a terem a curiosidade de, a partir dos 65 minutos Ioannidis ter jogado ao lado de Suárez até aos 86, quando o colombiano deu o lugar a Derry. Foi possível vislumbrar alguns apontamentos de Irankunda, o atrevimento Jesse Derry, e, antes, a vontade de Luís Guilherme de mostrar serviço. Mas foi tudo em ritmo de samba, devagar e devagarinho, porque a época é longa e as indicações deixadas já tinham sido suficientemente positivas para deixar Rui Borges certo de que está no bom caminho. Quando se fala na falta de homogeneidade da Liga portuguesa, um jogo como este em Vila do Conde vale mais do que mil palavras: o Rio Ave, que podia ter sido, até, apenas um ‘sparring partner’ do Sporting, nunca conseguiu ser mais do que um ‘punching bag’. O que terão pensado Paulinho Santos, Tarantini, Fábio Coentrão e tantos outros, que sempre venderam muito cara a derrota, do que viram? 

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