A propósito de Palhinha
Não há forma do futebol português se libertar de uma doença irritante e profundamente canhestra chamada «clubite». Porquê essa necessidade de exigir que um jogador pago para dar o melhor de si, sinta pela instituição o mesmo amor cego, lírico e apaixonado, não obstante legítimo, que um adepto sente, no topo da bancada? Não chega jogar bem; é como se os sócios dos clubes gostassem de ser enganados pelas juras de amor eterno, que só são eternas enquanto duram, o que é, convenhamos, é um disparate de todo o tamanho.
Não chega jogar bem; é como se os sócios dos clubes gostassem de ser enganados pelas juras de amor eterno.
O futebol moderno é, por natureza, desapaixonado nas secretarias e frenético no relvado. O que deve pedir-se a um profissional não é paixão de infância, é brio. É que corra, que se esfarrape, que não encolha a perna e jogue até ao limite das suas forças. Se fizer isto tudo com honestidade, cumpriu a sua parte. A sua alma pertence-lhe a ele. Será que André Villas-Boas, quando treinava o Marselha, não queria ganhar ao FC Porto? Ou Frederico Varandas, quando defrontava o Sporting como médico do V. Setúbal, não torcia pelo triunfo sadino? Ou Rui Costa, que até marcou na Luz ao Benfica, nunca deu tudo nos encarnados, nos ‘viola’ ou nos ‘rossoneri’?
O futebol moderno é, por natureza, desapaixonado nas secretarias e frenético no relvado.
Saltemos, então, para o caso de João Palhinha. Um homem forjado nas escolas do Sporting, que ‘dava a vida’ em cada lance, mas que guardava a quota de sócio do Benfica na carteira desde os dez anos. E então? Alguma vez correu menos por causa disso? Alguma vez se poupou para proteger o coração encarnado? Claro que não. Foi exemplar porque sabia perfeitamente a diferença entre a sua obrigação aos domingos e a nostalgia dos seus afetos privados.
Valerá a pena, aqui chegado, falar de Rui Jordão, um príncipe, dentro e fora das quatro linhas, que depois de ter brilhado no Benfica, foi estrela cintilante do Sporting, sem nunca renegar o passado. Jordão era sportinguista e mesmo assim, no ano do centenário do clube de Cosme Damião, compareceu a um almoço de velhas glórias do Benfica. Foi lá por respeito aos amigos e a um clube que representou, mas teve a delicadeza soberba de recusar manifestações que fossem para além disso . Não precisou de ser falso para com o Sporting, nem mal-educado para com o Benfica. Foi apenas um senhor.
Valerá a pena, aqui chegado, falar de Rui Jordão, um príncipe, dentro e fora das quatro linhas, que depois de ter brilhado no Benfica, foi estrela cintilante do Sporting.
No meio do turbilhão de um jogo, as camisolas são a nossa pele e a pele dos nossos companheiros. Ali, embora haja lealdade à direção, aos adeptos e à história do clube, tudo se resume a um ‘nós’ contra ‘eles’, ao companheiro do lado que está a suar a mesma camisola e a defender a mesma trincheira, e aos ‘outros’, que nos querem derrotar.
O futebol de elite agradece um bocado menos de dramatismo e muito mais dignidade.
Tudo o resto — as discussões azedas sobre quem ama mais o quê — é apenas conversa para encher o tempo nos cafés. O futebol de elite agradece um bocado menos de dramatismo e muito mais dignidade. A dignidade que está em cada profissional que atravessa a carreira sempre de cabeça erguida.