Mikel Oyarzabal, grande figura da Real Sociedad e da seleção espanhola, durante o jogo com o Real Madrid - Foto: IMAGO

Liga Europa: o que valem os adversários do Torreense

Equipa de Luís Tralhão terá vida complicada, mas conquista de pontos é possível

O Torreense vai reencontrar, na fase de liga da Liga Europa, Manuel Tulipa, que antes de assumir o Ararat trabalhou precisamente em Torres Vedras. Os campeões da Arménia são, provavelmente, a melhor hipótese que a equipa de Luís Tralhão tem para conquistar pontos na competição. Pontos esses que seriam, naturalmente, históricos.

Em Leiria, local do embate, poderão estar ainda vários jogadores com ligação ao futebol nacional a representar os visitantes. Como opções, Tulipa tem os compatriotas Bruno Wilson, central com formação no Sporting e passagem por Vizela e Vitória de Guimarães, o lateral-direito Hugo Oliveira, que cresceu nos escalões jovens do FC Porto e também representou os vizelenses, o lateral-esquerdo Bruno Pereira, formado igualmente pelos dragões e feito homem no Penafiel, e ainda o médio ofensivo Benny, que em miúdo andou a saltar entre Benfica, Oeiras, Belenenses e… Torreense. O avançado brasileiro Sandro Lima deixou este verão, aos 35 anos, o Alverca para jogar no Ararat, onde está também Zidane Banjaqui, irmão do lateral dos encarnados.

O Ararat tem apenas nove anos de existência e já três títulos de campeão nacional, o último conquistado precisamente com Tulipa no banco. É financiado pelo grupo empresarial Tashir, do empresário russo-arménio Samvel Karapetyan, e entrou finalmente na Liga Europa depois de ter sido eliminado duas vezes no play-off em anos consecutivos: em 2019/20 caiu diante do Dudelange e, na temporada seguinte, aos pés do Estrela Vermelha.

Gregos e espanhóis prometem complicar

A partir daqui, o nível de dificuldade promete aumentar, com expoente máximo nos confrontos com Olympiakos e Real Sociedad. No banco do emblema do Pireu está o espanhol José Luis Mendilibar, um pragmático que privilegia um futebol vertical de chegada rápida à área contrária, assente no tradicional 4x2x3x1. Em 2023/24, levou o clube ao seu primeiro troféu continental, a Liga Conferência.

São muitos os portugueses no plantel da Thrylos (a lenda) — Gustavo Sá, Jota, Chiquinho, David Carmo e Gelson Martins — tal como outros que passaram pela Primeira Liga, casos de Bruno Onyemaechi ou Roman Yaremchuk. O guarda-redes Stefan Ortega, ex-Manchester City, o médio Remo Freuler (ex-Atalanta), Yusuf Yazici (ex-Lille) e Rémy Cabella (ex-Marselha e Newcastle) não serão estranhos para muita gente, porém o filão de talento estará sobretudo no meio-campo. Christos Mouzakitis, centrocampista todo o terreno de apenas 19 anos, e Santiago Hezze, de 24, são as principais referências.

Neste verão, o Olympiakos já vendeu Tsokalis para o Hull por €23M, André Luiz para o Kansas por €15M e o defesa português Costinha para o Brighton por €12,7M.

Menos pragmático do que Mendilibar é Pellegrino Matarazzo, o técnico norte-americano da Real Sociedad. Antigo adjunto de Alfred Schreuder e Julian Nagelsmann, recebeu no Hoffenheim e no Estugarda os ensinamentos do futebol alemão moderno de pressing. A herança não era fácil, após seis anos e meio de Imanol Alguacil, porém a conquista da Taça do Rei dá significado ao novo processo montado, sempre com a identidade de posse do emblema basco respeitado. Foi apenas 10.º na LaLiga, mas há margem para crescer.

O mercado tem sido, para já, demasiado calmo em San Sebastián, com os txuri-urdin a registar apenas a chegada do jovem central Mamadou Sarr, por empréstimo do Chelsea. Pouco quando se confronta com as saídas de Brais Méndez (Columbus, €6M) e Aritz Elustondo (PAOK, custo zero), bem como o fim dos empréstimos de Javi López (Feyenoord), Wesley (Al Nassr) e Duje Caleta-Car (Lyon). Mesmo que se privilegie o modelo de Zubieta. O atropelamento no Bernabéu pelo Real Madrid de José Mourinho e as duas derrotas em dois jogos no campeonato terão feito soar os alarmes na Reale Arena. Onde o Torreense sentirá certamente ainda assim muitas dificuldades.

O ambiente terrível na Polónia

Celtic e Lech são adversários comuns ao Benfica. A única diferença é que o Torreense visita Poznan e os encarnados defrontam os polacos na Luz.

Longe de Parkhead e de Glasgow, o Celtic não é tão ameaçador e provou-o ao deixar fugir na Áustria uma vantagem de 4-0 para ser eliminado (da Champions) por 5-4 no prolongamento pelo LASK. Martin O’Neill saiu da reforma para tentar salvar o Nottingham Forest da descida e acabou a conseguir o milagre do título escocês no sprint final com o Hearts. Aos 74 anos, lidera uma equipa que parecia bem reforçada até mesmo para contexto europeu — Kasper Hogh (avançado, ex-Bodo Glimt), Camilo Durán (avançado, ex-Qarabag e também Estrela da Amadora, Lusitânia e Portimonense), Haissem Hassan (extremo, ex-Oviedo) e Mika Baur (médio, ex-Paderborn) —, porém não foi suficiente para travar a alma austríaca. Em sentido contrário, saíram o centrocampista Arne Engels para o West Ham, tal como Maeda para o Ipswich e Iheanacho para o Bursaspor. Parecem bem menos ao alcance do Torreense do que do Benfica, apesar do momento menos positivo dos católicos de Glasgow.

Os adeptos do Celtic, que prometerão certamente esgotar a cerveja e criar muita animação pelas ruas, regressam a Portugal, onde escreveram uma página dourada da sua história. Foi no Estádio Nacional, diante do Inter de Helenio Herrera, que os Lisbon Lions de Jock Stein conquistaram a sua única Taça dos Clubes Campeões Europeus em 1967.

O emblema de Torres Vedras terá ainda de ser mentalmente forte num dos ambientes mais hostis da Europa, em Poznan, onde os adeptos são muito vocais e apresentam coreografias espantosas. O público joga mesmo e a polícia considera sempre os jogos europeus de alto risco, devido à infiltração de elementos da extrema direita na cultura ultra e de possíveis confrontos com claques rivais.

O dinamarquês Nils Frederiksen é o treinador do Lech. Começou a carreira no Lingby, no qual também foi diretor para o futebol, antes de trabalhar nos sub-20 e sub-21 do seu país. Levou o Brondby ao título, tal como o atual clube, e por duas vezes, conquistando também a Supertaça da Polónia. Ao seu dispor, tem dois portugueses: o lateral-direito João Pereira, com formação de FC Porto, e passagens por V. Guimarães, Ac. Viseu e Gil Vicente, entre outros; e o defesa-esquerdo João Moutinho, formado no Sporting, que vestiu a camisola dos Orlando Pirates e dos italianos do Spezia. O extremo-esquerdo hondurenho Luis Palma, contratado em definitivo ao Celtic, é o elemento mais perigoso, com o central Wojciech Monka, de apenas 19, a prometer outros voos.

Sunderland sólido longe de casa

A visita ao histórico Ferencvaros também está no roteiro dos homens de Torres Vedras. Balazs Borbély, eslovaco com ascendência húngara, passou da formação das Águias Verdes para o comando da equipa principal, após a experiência como adjunto no Dunajska Streda e de ter assumido o Gyor ETO, precisamente o clube que lhe roubou o título de campeão na última época. O Ferencvaros terminou em 2.º o campeonato.

Trata-se de uma equipa que privilegia a experiência sobre a juventude e apresenta um média de idades perto dos 27 anos. Nesse sentido, as principais figuras são o médio defensivo Naby Keita, antigo jogador do Liverpool e atualmente com 31, o atacante bósnio Kenan Kodro de 33, o criativo israelita Gabi Kanichowski com 29 e o centrocampista internacional magiar de 31 Adam Nagy, acabadinho de chegar dos italianos do Spezia a troco de 50 mil euros.

Já o francês Régis Le Bris não só trouxe o Sunderland de volta ao convívio dos grandes do futebol inglês, depois de anos a fio a viver um autêntico inferno nas divisões secundárias, fruto de mau investimento e más decisões, e pobres resultados desportivos, como o 7.º lugar da Premier League consolida ainda mais o projeto de Kyril Louis-Dreyfus, filho de Robert Louis-Dreyfus, antigo presidente do Marselha. A equipa de Luís Tralhão evita a visita ao Stadium of Light, porém os Black Cats mostraram na última temporada que eram capazes de surpreender longe do seu estádio.

O antigo treinador do Rennes e Lorient espalha o seu 11 num tradicional 4x2x3x1 e conta, no relvado, com a liderança do veterano Granit Xhaka, já com 33 anos. Brian Brobbey, Noah Sadiki e Enzo Le Fée são outras referências importantes no grupo. Entretanto, belga Thomas Meunier chegou a custo zero do Lille e rapidamente assumiu o lugar de lateral-direito. Eliezer Mayenda foi o negócio do verão, a troco de 22 milhões, para o Rennes, num mercado relativamente tranquilo tanto em entradas como saídas.

Lillestrom e a Taça conquistada no segundo escalão

O Lillestrom também será anfitrião do Torreense. O pai de Martin Odegaard, Hans-Erik, surpreendeu o seu país ao levar o histórico emblema à conquista da Taça enquanto clube do segundo escalão, exatamente como o Torreense. A diferença é que garantiu a promoção à Eliteserien, ao contrário dos portugueses.

Sem jogadores internacionais, os Canários têm nos jovens médios Gustav Nyheim (20 anos) e Harald Woxen (18) elementos com bom potencial de crescimento. O extremo direito angolano Félix Vá, mais maduro, é também uma opção válida para o ataque.

O Torreense, em estreia, participa a pensar na experiência e em vivências, com o regresso à Primeira Liga como prioritário. Chegar inclusive ao play-off parece sonho demasiado difícil de concretizar, embora maiores fragilidades em equipas como o Ararat e o Lillestrom possam ser exploradas para a conquista dos primeiros pontos numa fase de liga. O que já seria fantástico.

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