A verdade desportiva segundo Villas-Boas
Há quem tenha dificuldade em distinguir verdade de narrativa. André Villas-Boas parece ter decidido que, no futebol português, a primeira deve estar sempre subordinada à segunda, desde que a narrativa sirva os interesses do FC Porto.
O editorial que publicou na Dragões Diário, com Frederico Varandas como alvo preferencial, é um exercício particularmente pobre de suspeição. O presidente do FC Porto acusa, insinua, ironiza e procura alimentar a ideia de que existe uma proteção arbitral ao Sporting. Uma tese que poderia merecer discussão, não fosse um pequeno detalhe: os factos.
E os factos, esses incómodos inimigos das narrativas convenientes, dizem precisamente o contrário.
No acumulado das últimas cinco épocas da I Liga, o Sporting é, entre os três grandes, o clube que mais cartões recebeu: 468 amarelos e 26 vermelhos, num total de 494. O FC Porto tem 432 amarelos e 29 vermelhos, num acumulado de 461. O Benfica, 365 amarelos, 13 vermelhos e 378 de agregado.
Proteção? É uma forma muito peculiar de proteger alguém.
Se olharmos apenas para 2024/25, o Sporting viu 64 amarelos e 7 vermelhos. O FC Porto recebeu 73 amarelos e apenas 3 vermelhos. O Benfica foi advertido com 62 amarelos e 4 vermelhos.
Isto não prova que todos os árbitros acertaram, nem que não existiram erros contra ou a favor de qualquer clube. Mas destrói a mentira de uma proteção sistemática ao Sporting. Quem constrói uma acusação tão grave tem de apresentar mais do que indignação seletiva. Tem de provar o que diz. Ou, neste caso, o que escreve, como sempre, sem direito a contraditório.
E é precisamente quando chegamos à tão ironizada «uniformidade de critérios» que o editorial de Villas-Boas se torna ainda mais revelador da sua desonestidade intelectual.
Vejamos, apenas, dois exemplos:
No jogo do Sporting frente ao Alverca, Genny Catamo teve, aos 22 minutos, uma entrada de sola sobre Figueiredo. Villas-Boas e a sua corte de comentadores exigiram o vermelho. Confesso que não teria qualquer dificuldade em aceitar essa expulsão, mesmo aos 22 minutos.
Mas sob uma condição: que Hwang tivesse merecido a mesma análise séria por parte de Villas-Boas e dos seus apaniguados, e fosse objeto do mesmo tratamento disciplinar pela entrada que teve sobre Tiago Esgaio do Arouca, aos 82 minutos, no Dragão. Um lance idêntico, mas uma decisão que, aparentemente, já não merece editoriais, ironias, indignação ou grandes reflexões sobre a uniformidade de critérios.
A diferença está na evidência de que, para alguns, a coerência acaba quando muda a camisola do infrator.
O segundo exemplo é ainda mais esclarecedor. No FC Porto-Rio Ave, a equipa de Vila do Conde cometeu apenas uma falta. Uma. Imagine-se o que teria sido dito e escrito se um adversário do Sporting tivesse terminado um jogo inteiro com esse número de infrações. Mas, no encontro seguinte, frente ao Estoril, o Rio Ave cometeu 14 faltas. Nessa mesma partida frente ao Rio Ave, há um lance ao minuto 42’, em que Deniz Gül atinge Diogo Nascimento na face e o deixa a sangrar. O árbitro nem sequer assinalou falta. Um lance que, de acordo com as orientações internacionais sobre jogo perigoso e contacto faltoso, merecia pelo menos uma interrupção para avaliação disciplinar.
Sobre isto o que dizem Villas-Boas e os apóstolos? Nada!
Já no que respeita à entrada de Luís Suárez sobre um jogador do Alverca, atingido na barriga em cima do intervalo, merece destaque e indignação. Mais uma vez, não tenho qualquer dificuldade em admitir que poderia ter sido assinalada falta e mostrado cartão amarelo ao jogador do Sporting. E é assim porque não preciso de fingir que só existem erros quando é o meu clube a ser prejudicado.
E talvez seja precisamente essa a diferença fundamental entre discutir arbitragem com honestidade e utilizá-la como instrumento de propaganda. Os erros existem, contra e a favor de todos. O problema começa quando se transforma cada decisão contra o Sporting CP num acidente e cada decisão a favor numa conspiração.
André Villas-Boas fala muito de verdade desportiva. Está no seu direito. Mas talvez devesse fazê-lo com um pouco mais de memória e algum pudor histórico.
Porque o presidente de um clube cujo passado ficou inevitavelmente marcado pelo processo Apito Dourado deveria ser especialmente cuidadoso quando decide subir ao púlpito da superioridade moral para dar lições aos outros sobre ética e verdade no futebol.
Ninguém responsabiliza Villas-Boas pelo que aconteceu antes de chegar à presidência do FC Porto. Mas também ninguém é obrigado a apagar a história para tornar os seus sermões mais confortáveis.
Aliás, o presidente portista teve, nesta matéria, bons mestres. E talvez um dia possamos vê-lo seguir também outra das suas recentes sugestões: escrever um livro.
Se Frederico Varandas merece, na imaginação de André Villas-Boas, uma obra sobre as suas teorias e certezas, talvez o presidente do FC Porto possa também deixar-nos a sua versão da história.
Atrevo-me até a sugerir-lhe um título:
Memórias de um Apito Seletivo — Manual de Hipocrisia Desportiva
Porque, no fim de contas, não há nada mais difícil do que falar de verdade desportiva quando a memória só funciona de forma seletiva.
Palhinha: memória, gratidão e juízo
João Palhinha foi apresentado esta semana como jogador do Sport Lisboa e Benfica. Confesso: lamento. E lamento sobretudo porque gostaria de o ter visto regressar a Alvalade, vestir novamente a Verde e Branca e voltar a sentir o carinho dos Sportinguistas.
Mas uma coisa é a frustração de adepto. Outra, bem diferente, é a realidade de um profissional de futebol.
Num primeiro momento, Palhinha deu prioridade à continuidade no Tottenham. Depois, como explicou Frederico Varandas, «não encaixava no projeto desportivo do Sporting» e o clube «não podia esperar por ele». Não fui eu que o disse. Foi o meu presidente. E eu subscrevo.
Percebo, por isso, a decisão do João. Tem uma carreira para continuar, tem ambição e tem o direito de escolher o caminho que entende ser melhor para o seu futuro. E há uma coisa que não podemos esquecer: quando muitos outros decidiram virar as costas ao Sporting, em 2018, Palhinha não o fez. O clube atravessava o momento mais dramático da sua história recente e ele permaneceu. Foi emprestado ao SC Braga, regressou depois a Alvalade e tornou-se uma das peças fundamentais da equipa que conquistou, em 2021, o primeiro Campeonato Nacional da era Rúben Amorim.
Isso também conta. E conta muito.
João Palhinha é um craque dentro do campo, mas é também um homem de caráter fora dele. É educado, decente, grato e respeitador. É, por isso, credor da gratidão dos sportinguistas por tudo aquilo que deu ao clube e merece o respeito de todos os que gostam verdadeiramente de futebol.
Ao meu amigo João, desejo a maior das sortes e todos os sucessos — desde que, naturalmente, o seu clube de agora fique sempre atrás do Sporting Clube de Portugal. Por ele torcerei sempre no plano pessoal. Exceto quando jogar contra nós. Aí, como manda a lei do futebol, suspende-se a amizade durante noventa minutos.
E uma palavra para Rui Costa: parabéns. Foi capaz de aguentar um longo jogo de paciência e garantiu, provavelmente, uma das contratações mais importantes desta época. O Benfica fica mais forte com Palhinha. Isso é uma evidência que não vale a pena negar só porque dói.
E aos que agora o insultam, uma recomendação simples: tenham memória. E ganhem juízo.
Palhinha não traiu o Sporting. Palhinha fez uma escolha profissional. Depois de tudo o que deu ao clube, merece mais do que insultos de quem parece ter memória curta e gratidão ainda mais curta.
Ainda bem que continuam a existir jogadores da qualidade de João Palhinha disponíveis para regressar a Portugal e competir ao mais alto nível, em vez de escolherem, simplesmente, o conforto das Arábias.
Que sejas muito feliz, João. Que tenhas muitos sucessos. Mas nunca, por nunca, à nossa custa.
Sporting Sempre!