O momento em que Mbappé acusa Prestianni de racista - Foto: Joaquim Ferreira/IMAGO
O momento em que Mbappé acusa Prestianni de racista - Foto: Joaquim Ferreira/IMAGO

Prestianni, um castigo «à primeira vista»

UEFA decidiu com base no 'parece que'. Se do ponto de vista jurídico é discutível, foi o melhor para o jogador: o argentino não tem estofo mental para aguentar uma hostilidade de dimensões bíblicas. E iria prejudicar o Benfica numa missão que apesar de tudo está ao alcance

Foi uma decisão esperada. Surpresa seria se a UEFA permitisse que Gianlucca Prestianni pudesse jogar no Bernabéu após os acontecimentos do jogo da Luz na primeira mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões. O organismo decidiu usar o artigo 14.º do Regulamento Disciplinar para aplicar aquilo que na linguagem jurídica é conhecido como prima facie, uma expressão latina que significa «à primeira vista» ou «baseado nas primeiras impressões». A explicação, li-a num artigo do jornal espanhol As, através do jurista Toni Roca: «Algo que parece certo ou suficiente com a informação oficial disponível, mesmo que vá ser discutido posteriormente.»

Por outras palavras, a UEFA pouco ligou ao que jogador e Benfica alegam – de que o argentino não disse o que Vinícius Júnior acusa-o de ter dito e que Mbappé garante ter ouvido por cinco vezes. Pesaram muito mais outros factos: a queixa da suposta vítima, o testemunho de um colega e a passividade do extremo do Benfica face à acusação, no que se interpreta como uma assunção de culpa envergonhada.

Claro que para aqueles adeptos que consideram que Vinícius mentiu ou ouviu mal, está em curso uma profunda injustiça para com um jogador na base de um parece que. Mas deixemos agora a parte jurídica e centremo-nos no lado prático: Prestianni não tinha condições de jogar no Bernabéu. É um miúdo ainda sem estrutura mental para aguentar uma hostilidade de proporções bíblicas e que só iria prejudicar a equipa, tirando o foco do essencial - a possibilidade de as águias poderem dar a volta à eliminatória. Que não é descabida.

Entende-se, do ponto de vista da estratégia do Benfica, querer levá-lo para Madrid. Uma vez que o clube decidiu atravessar-se pelo jogador nas horas que se seguiram ao episódio da Luz, inverter a marcha agora seria um contrassenso. Mesmo que isto implique uma fuga para a frente de consequências imprevisíveis. Pensarão os responsáveis encarnados que mais vale manter a união à volta de Prestianni do que mostrar a outra face para a opinião pública; apostam tudo num suposto reforço do espírito de balneário mesmo que isso implique um risco em termos de imagem institucional a nível planetário.

Para mitigar os estragos só há uma forma: eliminar o Real Madrid sem Prestianni, da forma mais limpa possível, e depois encarar a possibilidade de acatar o mais que previsível castigo ao argentino. E tomar decisões duras com os energúmenos que nas bancadas chamaram macaco a Vinícius Júnior. As provas estão aí, basta haver vontade. Em nome da dignidade.