Após triunfo, no Dragão, sobre o Alverca, o FC Porto fez a festa do título de campeão nacional da temporada de 2025/26 - Foto: Imago
Após triunfo, no Dragão, sobre o Alverca, o FC Porto fez a festa do título de campeão nacional da temporada de 2025/26 - Foto: Imago

FC Porto: como se constrói um campeão?

'#Minuto 92' é o espaço de opinião de Ricardo Gonçalves Cerqueira, jurista, gestor de empresas e sócio do FC Porto

Pergunta para a qual não há respostas óbvias ou taxativas. O campeão, aquele que ao fim de longos meses de competição consegue, por mérito, terminar na dianteira de todos os outros, é o resultado da conjugação de múltiplos fatores e do acerto de diversas decisões, sejam de âmbito técnico, estratégico ou de gestão.

Planeamento, organização e capacidade de antecipação, diria, são três requisitos fundamentais quando se projeta o início dos trabalhos preparatórios de uma nova época desportiva. O FC Porto, campeão nacional 2025/2026, fê-lo com sabedoria e profissionalismo.

Após uma época anterior (2024/25) desportivamente muito aquém das expectativas, o FC Porto, a sua equipa dirigente, tomou duas decisões fundamentais: a primeira, mudar de treinador, a segunda, reforçar a equipa conjugando jogadores com experiência e perfil de liderança ao mais alto nível, casos de Bednarek, Kiwior, Luuk de Jong, e jovens atletas de elevado potencial, com margem de crescimento e vontade de afirmação, sendo o caso mais evidente o de Froholdt, mas também Gabri Veiga, Alberto Costa e, numa segunda fase da época, Oskar Pietuszewski. Daqui resultou a constituição de um plantel qualitativamente mais equilibrado, com soluções mais sólidas e outra profundidade.

A identificação e contratação de um treinador com capacidade de liderança, ideias e princípios técnico-táticos perfeitamente claros, ainda jovem e em busca de consagração na alta roda do futebol europeu, veio dar corpo e liderança ao projeto de refundação desportiva que o FC Porto almejava. Francesco Farioli personificou, com competência e responsabilidade, esta missão.

Desde o primeiro dia em que aterrou na cidade do Porto, Farioli mostrou ao que vinha. Assente num processo de jogo agressivo na busca pelo controlo da bola e na capacidade de pressionar o adversário com intensidade, o então novo treinador não escondeu os princípios orientadores que pretendia ver transpostos na equipa do FC Porto. Domínio de jogo, intensidade e pressão durante os 90 minutos, assumindo como pedra de toque a destreza e preparação física dos jogadores. Aliado a isto, Farioli preocupa-se em comunicar de forma clara, com mensagens perfeitamente entendíveis, tanto para dentro como para fora, alinhado com a história e os pergaminhos de um clube vencedor como é o FC Porto.

No futebol moderno não basta reunir dois ou três atletas com algum talento e esperar que sejam esses, de per si, a suportar a equipa durante toda uma temporada. O fator verdadeiramente decisivo que distingue as equipas que se sagram campeãs é a capacidade de manter identidade, estabilidade competitiva e eficácia ao longo de toda a temporada. Foram exatamente estes atributos que o FC Porto demonstrou na época 2025/26, com regularidade e constância. A equipa não foi exuberante todas as semanas, apresentou até alguns decréscimos de forma, física e exibicional, mas foi capaz de se manter fiel à sua identidade.

É precisamente aqui que se constrói um campeão. Na capacidade de vencer mesmo quando não se joga bem. Na maturidade emocional nos jogos decisivos. Na disciplina tática, no compromisso defensivo e na resistência psicológica durante os meses decisivos da época.

O FC Porto venceu porque soube manter-se equilibrado e concentrado de forma constante.

Os confrontos com os adversários diretos acabaram por acentuar essa diferença competitiva. O triunfo em Alvalade, logo no início do campeonato, teve impacto pontual, mas sobretudo simbólico. Demonstrou que, em momentos de grande pressão, a equipa do FC Porto apresentou-se preparada para competir com frieza e personalidade. Já frente ao Benfica, os dois empates serviram para consolidar a vantagem e controlar emocionalmente a corrida pelo título.

Num futebol cada vez mais dominado pela ansiedade imediata — onde uma derrota gera crises e uma vitória euforias artificiais — o campeão acaba por ser a equipa que melhor sabe ignorar o ruído externo e manter-se fiel aos seus princípios técnico-táticos.

Talvez este não tenha sido um FC Porto sempre espetacular e exuberante, mas foi fundamentalmente uma equipa madura e muito sólida em momentos-chave da época.

Porque construir um campeão não depende somente da qualidade individual dos atletas, mas da capacidade coletiva para resistir e combater quando todos os outros se empenham para que vacilemos.

Foi exatamente aí que o FC Porto se elevou a campeão nacional.

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