Pré-época: as primeiras notas

É neste período que se define o núcleo duro. Fora do relvado são criadas regras de grupo e fomenta-se a união, o espírito e compromisso

A pré-época é um período fundamental para preparar o ano desgastante que todos irão ter. É neste período que se define o núcleo duro com o qual se vai trabalhar. Fora do relvado são criadas regras de grupo e fomenta-se a união, o espírito e compromisso de todos. Dentro das quatro linhas o primeiro mês serve para dar carga física aos jogadores e, em simultâneo, trabalhar as ideias do treinador. A definição da organização coletiva, que passa pela forma como se pretende começar a construir de trás, os posicionamentos defensivos, as bolas paradas, as zonas de pressão, a afinação de sistema preferencial ou a preparação de uma alternativa que pode ser utilizada a cada momento. Indiretamente, esta fase deve ser também utilizada para reforçar a capacidade psicológica dos jogadores, que será, sobretudo, fundamental para superar as adversidades que irão surgir ao longo da temporada.


BENFICA - DI MARÍA E MAIS DEZ

A S primeiras impressões do Benfica 2023/24 vêm reforçar o ADN que Roger Schmidt conseguiu implementar no último ano e que se caracteriza por uma grande intensidade com e sem bola. Um pressing constante sobre os adversários, fazendo com que não tenham tempo para pensar. O objetivo passa por não permitir a construção dos oponentes e, em simultâneo, recuperar a bola o mais próximo possível da baliza do adversário. Com a entrada de novos jogadores, a competitividade aumentou, mas a filosofia não se alterou. O que mudou foi a complementaridade entre todos, que naturalmente sofre alterações. Kokçu veio garantir segurança, velocidade de pensamento e simplicidade (que é o mais difícil no futebol). Jurásek dá muita profundidade ao corredor, embora ainda não tenha a noção de que nem sempre o poderá fazer, porque pode colocar o equilíbrio da equipa em causa (como foi o exemplo do golo do Al Nassr). Di María traz magia, qualidade, definição, experiência e segurança aos mais novos. Não se põe em bicos de pés, pelo contrário. Enquadra-se no contexto coletivo e nas dinâmicas propostas pelo treinador. A diferença é que acrescenta muita qualidade nas decisões que toma, seja nos movimentos, no passe ou na finalização. Por fim, percebemos que, apesar de ainda existirem dúvidas em alguns agentes, Gonçalo Ramos irá continuar a fazer o que tão bem faz - golos. E isso é o mais difícil no futebol…


FC PORTO - OS QUATRO MOSQUETEIROS & COMPANHIA

N ÃO tenho quaisquer dúvidas de que o FC Porto será uma equipa muito competitiva e difícil de bater. A manutenção dos quatro mosqueteiros - Diogo Costa, Pepe, Otávio e Taremi - é muito importante para que o sucesso desportivo continue a imperar. Da abordagem ao mercado ficam duas notas relevantes. A primeira é que o FC Porto, pelas dificuldades financeiras que está a atravessar, está a ter uma abordagem mais lenta do que os rivais. A segunda é que o perfil de jogadores que Sérgio Conceição está à procura, demonstra que este ano poderá vir a ter uma forma de jogar diferente da que teve na última época. É importante relembrar que o Porto perdeu o campeonato nos jogos com as equipas pequenas e não com os grandes. A saída de Uribe abriu espaço no meio campo, sendo que para essa posição o FC Porto está a tentar contratar jogadores com um perfil diferente do colombiano. Alan Varela ou Nico González são jogadores tecnicamente mais evoluídos, mas menos agressivos. O objetivo deverá passar por ter uma melhor definição no processo ofensivo, através de jogadores com mais qualidade técnica, fazendo com que a equipa fique mais irreverente, menos previsível e mais capaz de desequilibrar nos jogos contra equipas que se fecham mais. 


SPORTING - NOVA VARIANTE

O ponto de maior destaque, no pouco que consegui ver do Sporting até ao momento, é a nova variante que Rúben Amorim está a tentar implementar. Com muitas semelhanças ao Manchester City de Guardiola, Gonçalo Inácio começa a central e sobe para o meio-campo para construir, permitindo que Pedro Gonçalves se solte mais na frente. Neste primeiro teste (aberto) frente ao Genk, em termos ofensivos a equipa não ganhou com esta nova forma de atuar. Edwards e Pedro Gonçalves não tiveram impacto no jogo, porque os médios (Morita, Bragança ou Inácio) raramente os conseguiram encontrar. Trincão apareceu a espaços. A versatilidade ofensiva ficou demonstrada com a forma como o Sporting tanto procurou construir de trás como procurou o futebol direto (o golo foi o exemplo). Para que esta variante tática funcione, é fundamental que a equipa tenha muita segurança na posse de bola e que os jogadores que participam no processo ofensivo conheçam o jogo, tenham uma boa perceção do espaço que devem ocupar e dos movimentos dos colegas. No jogo com o Genk, o Sporting perdeu várias vezes a bola. Em termos defensivos, o Sporting, coletivamente, terá de ter uma grande reação à perda, caso contrário, pela exposição ofensiva, irão existir muitos espaços que podem ser explorados pelos adversários.


SC BRAGA - AMBIÇÃO REFLETIDA NOS REFORÇOS

A S contratações de Zalazar e José Fonte vêm reforçar a dimensão do SC Braga de duas formas distintas. A primeira consiste na capacidade que o clube bracarense começa a ter de atrair jogadores de outra dimensão. Não basta ter maior capacidade financeira é também necessário ter um projeto aliciante e motivador. Zalazar é um jogador muito interessante, que jogava na Bundesliga, e que se enquadra no projeto do SC Braga: jogadores que, pela sua idade e qualidade, permitem ao SC Braga ir consolidando o seu posicionamento no panorama nacional e europeu e, em simultâneo, podem gerar um retorno financeiro no futuro. A chegada de José Fonte traz algo que o SC Braga precisa. José Fonte personifica a afirmação da crença de que é possível vencer. O seu percurso assim o demonstra. Subiu a pulso, foi campeão europeu e venceu a liga francesa contra o tubarão PSG. A sua vinda traz experiência, liderança, segurança e confiança a um balneário composto por bons jogadores, mas que nos momentos decisivos têm tremido.


SELEÇÃO NACIONAL FEMININA

N O momento em que está a ler este artigo, possivelmente, Portugal já se terá estreado no Mundial 2023. De certeza que terá existido muito nervosismo dentro de todo o grupo, afinal foi a estreia num Mundial. O frio na barriga irá sempre existir. O principal foi tudo o que foi feito até ao dia de hoje. Pela experiência da FPF em grandes competições, acredito que tudo foi preparado ao detalhe. As condições de trabalho, a preparação, a definição da melhor estratégia para enfrentar as adversárias que irão ter pela frente, a confiança, a humildade, a união e o compromisso. Do lado de cá estaremos a apoiar, como sempre fazemos, aqueles(as) que nos representam. Portugal está no mesmo grupo que a campeã e vice-campeã mundial. O desafio é enorme mas a ambição, determinação e motivação também. Que seja o primeiro jogo de muitas presenças na maior competição de futebol.


A VALORIZAR

Novak Djokovic. A final de Wimbledon de 2023 foi memorável. Um grande jogo que teve continuação fora dos cortes. Djokovic não venceu no corte mas ganhou fora dele. Grande fair play num enorme discurso no pós jogo. O reconhecimento de que Alcaraz mereceu ganhar, apesar de toda a tristeza que o invadia. Um exemplo vindo de um dos melhores tenistas de sempre. O desporto agradece.


A DESVALORIZAR

Al Nassr. Não basta gastar dinheiro e dizer que tudo mudou e que a partir deste momento a Arábia é uma das melhores ligas do mundo. Ainda há muito trabalho a fazer. Exige investimento, visão e paciência. Nos jogos do Troféu do Algarve ficou demonstrado que alguns bons executantes não chegam para tornar uma equipa competitiva, quanto mais uma competição!