Há três anos lutava contra a depressão, agora marca golos ao PSG
Na mais antiga cidade da Colômbia, fundada no século XVI, aos locais costumam dizer com enfase e tom profético: «Quem sai de Santa Marta sai com vontade de vencer». Luís Suárez, ali nascido e criado, terá acreditado na profecia enquanto jogava futebol na rua. Seguramente olhando a Sierra Nevada de Santa Marta. Um maciço montanhoso único no mundo, que começa ao nível do mar e sobe até picos de neve. Para muitos colombianos — e sobretudo para os povos indígenas — este é um território sagrado, que esconde poderes só ao alcance dos que neles acreditam.
Para os povos indígenas Kogui, Arhuaco, Wiwa e Kankuamo, a Sierra Nevada é conhecida como o coração do mundo. E mais, acreditam que é naquele maciço montanhoso que assenta equilíbrio espiritual da Terra. Os Mamos, que são líderes espirituais, realizam rituais desde a infância para manter esse equilíbrio. Exercícios realizados em isolamento e silêncio absoluto. Uma visão espiritual da vida, onde disciplina, sacrifício e paciência são pilares da existência humana.
Não existem registos, mas é bem possível, como bom filho de Santa Marta, que Luis Suárez se tenha também isolado na Sierra Nevada em busca do equilíbrio mental que perdeu em 2023. A mente às vezes prega partidas e levou o colombiano para um buraco tão negro que o simples ato de levantar da cama ao início de cada dia parecia exigir mais esforço do que mover a própria Sierra Nevada… A doença mental é uma besta que, tantas vezes, entra de mansinho e nos fustiga com violência quando está já instalada e damos por ela. À traição. Covarde. Maldita depressão!
Talvez Luis Suárez tenha tido a vontade de se esconder em Teyuna, a Cidade Perdida junto a Santa Marta. Durante séculos acreditou-se que a cidade tinha sido engolida pela selva por castigo pelos excessos humanos, mas porque a moeda tem sempre dois lados, talvez tenha sido a natureza a proteger Teyuna de quem não estivesse disponível para a proteger e entender.
Há cerca de três anos, Luis Suárez via um túnel ao fundo da luz, por onde pensava ter iniciado uma viagem sem regresso à vista. Esta terça-feira, não precisou de ir a Paris para ver a Cidade Luz. Alvalade foi essa cidade, a luz de uma exibição memorável e histórica, com dois golos que ditaram a vitória leonina frente ao campeão europeu.
Luis Suárez é também a prova de que o tempo não é um valor absoluto. Chegou aos 27 anos com um percurso futebolístico modesto e eis que entrou no radar do Sporting, que vê nele um projeto que ainda não se tinha concretizado. Nem todos os grandes talentos terão oportunidades para vencer. O momento certo ou errado é tantas vezes decisivo. E se é verdade que a oportunidade só bate a algumas portas, não menos verdade é que só entra quando alguém abre a porta e exclama: estou pronto, estava mesmo à tua espera.
Depois de Jardel, Liedson, Bas Dost e Gyokeres (só este século, o que diz muito do dedo leonino em escolher avançados), eis que surge Luis Suárez a jogar como nunca jogou, a marca como nunca marcou. Brincando com um slogan de Mário Soares na campanha das presidenciais de 1986… Suárez é fixe…
Há esperas que valem a pena. Há lutas, como a doença mental, que têm de ser travadas. E há crenças que merecem ser respeitadas: quem sai de Santa Marta…. Sai mesmo para vencer!