Rui Costa tem de explicar negócio Rafa
O regresso de Rafa ao Benfica está iminente. Passado ano e meio, o internacional português vai voltar à Luz, depois de no verão de 2024 ter recusado renovar contrato com os encarnados, que tinha representado durante oito anos.
Não questiono o valor do avançado, indiscutivelmente uma mais-valia. De resto, os 94 golos e 67 assistências de águia ao peito dizem tudo. Tão-pouco os 32 anos — comemora 33 daqui a menos de quatro meses — me parece que sejam um handicap, mesmo tratando-se de um jogador que tem na velocidade a principal arma — estou curioso por ver onde José Mourinho o irá encaixar no onze, se como extremo, a posição de origem, ou como segundo avançado, como tem jogado ultimamente.
Mourinho trabalha com um plantel que não foi por ele escolhido, pelo que reforçá-lo nesta reabertura de mercado seria como que obrigatório. Sidny já é opção, Rafa está a caminho e não me admirava que até ao final do mês mais alguém se juntasse.
Até aqui tudo perfeitamente normal. O que me surpreende é que o Benfica esteja disposto a investir cinco milhões de euros na contratação de Rafa, isto depois de há ano e meio as partes, que estavam ligadas desde 2016, não terem chegado a entendimento para a renovação do contrato.
Sim, sei que há a ressalva de o Benfica ser credor de muitos milhões sobre o Besiktas pelas transferências de Kokçu e Gedson Fernandes, pelo que pode descontar o valor a pagar da conta dos turcos, mas cinco milhões são cinco milhões, não são uma verba de deitar à rua. A isto acrescem também os vencimentos, mesmo admitindo que o internacional português esteja disposto a fazer um desconto, ou seja que agora aceite a proposta que rejeitou há ano e meio.
Percebo Rafa. Percebo que queira voltar a casa, percebo que esteja arrependido de ter emigrado, percebo que tenha saudades dos amigos e dos adeptos encarnados, percebo que Mourinho queira trabalhar com ele, mas já tenho mais dificuldades em perceber que o Benfica queira Rafa. Principalmente Rui Costa, que há ano e meio ouviu o avançado dizer-lhe que não queria continuar no Benfica.
O presidente terá não só de explicar aos sócios o que mudou entretanto, como, na minha opinião, terá também de justificar internamente o regresso.
O Benfica tem uma identidade muito própria e é, sem dúvida, um dos melhores clubes formadores do mundo. A cada ano produz enorme talento no Seixal e todos esses jovens sonham um dia representar a equipa principal. Jogar de águia ao peito não pode ser uma ponte, tem de ser um fim. Há que sentir a camisola com a qual milhões de benfiquistas se identificam. E estes não podem ter dúvidas sobre a que tem o número 27 nas costas, que Rafa vai voltar a vestir.
Um clube tem de se sobrepor a qualquer individualidade, por mais influente ou decisiva que seja. Rafa, que tem também de se justificar aos adeptos, não é, obviamente, caso virgem. Não há muito tempo, por exemplo, o espanhol Marcano também deixou o FC Porto a custo zero e depois regressou ao Dragão, que o recebeu de braços abertos.