O dia em que o futebol inventou o medo
Durante muito tempo, o futebol não soube o que fazer quando ninguém ganhava. Talvez porque, no fundo, nunca tenha sabido muito bem o que fazer com a igualdade. Havia jogos que terminavam empatados e tinham de ser repetidos. Outros eram resolvidos por sorteio. E houve até eliminatórias entregues à mais absurda das autoridades desportivas: uma moeda lançada ao ar. Duas equipas jogavam durante 120 minutos, corriam até já não sentirem as pernas, disputavam cada bola como se nela estivesse escondida uma parte da vida e, no fim, alguém tirava uma moeda do bolso: «Cara ou coroa?»
O Benfica, aliás, foi eliminado dessa forma numa Taça dos Campeões Europeus, frente ao Celtic, em 1969. Depois de perder 3-0 na Escócia, devolveu o gesto na Luz e acabou fora por um remate certeiro do lado errado da moeda.
Com vários casos desses, o futebol precisava de procurar uma forma melhor de ser cruel. Encontrou-a a 5 de Agosto de 1970. Nesse dia, no Boothferry Park, Hull City e Manchester United defrontaram-se para a Watney Cup. Não era um torneio mediático, não era Wembley, não havia centenas de milhões de pessoas à frente de um televisor. Era uma pequena competição inglesa que o tempo acabaria por esquecer. Mas o futebol tem esta estranha capacidade de esconder os seus grandes momentos nos lugares onde ninguém os procura.
O Manchester United tinha George Best, Bobby Charlton e Denis Law. Três homens que já pertenciam a uma dimensão diferente do jogo. Dois anos antes, também frente ao Benfica, o clube conquistara a Taça dos Campeões Europeus. Quanto ao Hull? Uma equipa modesta que estava na segunda divisão. Parecia um jogo sem história, só que a bola nunca quis saber de prognósticos ou vencedores antecipados. O Hull marcou primeiro e Denis Law empatou para o United. No prolongamento, tudo na mesma. Foi então que aconteceu algo inédito em jogos oficiais.
Poucas semanas antes, a International Board aprovara um novo método para resolver jogos empatados. Em vez da moeda, haveria jogadores. Em vez do acaso absoluto, haveria um remate. Onze metros entre um homem e outro homem. Uma bola parada. Uma baliza enorme que, misteriosamente, naquele instante parece minúscula. Fez esta semana 56 anos que nasceu, de forma oficial, o desempate por grandes penalidades.
Coube a George Best ser o padrinho desta nova forma de decidir jogos. O primeiro de todos a olhar para a baliza, a respirar fundo, antes de tentar enganar o guarda-redes. Hoje sabemos tudo aquilo que um penálti, nesses momentos, pode significar. Conhecemos Roberto Baggio de cabeça baixa em Pasadena. Conhecemos as lágrimas de jogadores que falharam o remate de uma vida. Conhecemos Panenka e a sua insolência. Conhecemos guarda-redes transformados em gigantes durante alguns minutos. Conhecemos finais de Mundiais, Europeus e Taças dos Campeões decididas naquele pequeno círculo de relva.
George Best não conhecia nada disso. Não havia fantasmas atrás dele. Ainda não existia uma história dos desempates por penáltis porque ele estava prestes a escrever a primeira frase. Correu. Rematou. Marcou. O primeiro penálti de um desempate profissional tinha entrado numa baliza. Depois marcaram outros. Terry Neill pelo Hull, Brian Kidd pelo United, Ian Butler pelo Hull, Bobby Charlton também marcou.
Até aparecer Denis Law. Um dos maiores craques desse United, rematou e permitiu a defesa de Ian McKechnie. E ali estava a segunda metade da invenção. Não era apenas uma nova forma de ganhar. Também era uma maneira de perder.
Ali, naquele momento, nasce o maior teatro psicológico do futebol. Tecnicamente, tudo favorece quem remata. A bola está parada. A distância é curta. A baliza tem mais de sete metros de largura. Não há defesas. Ninguém pode fazer um carrinho. Ninguém pode interceptar o passe porque não existe passe. E, no entanto, com um estádio inteiro a olhar, onze metros podem transformar-se na distância entre dois continentes.
É aí que o futebol apresenta o seu momento de maior drama. O jogador começa a caminhar desde o meio-campo e leva consigo tudo. O resultado, os adeptos, os companheiros, a infância, as horas de treino, a camisola, o medo de falhar. Sobretudo, o medo de falhar.
Porque há uma crueldade particular no penálti. Durante o jogo, podemos esconder-nos no coletivo. Uma derrota pertence a onze homens. Um golo sofrido tem várias explicações. Um passe falhado é diluído no meio de centenas de passes. No penálti, desaparecem todos os esconderijos. Fica o batedor. A bola. O guarda-redes. E o turbilhão dentro da cabeça de quem tem de rematar.
Naquela noite, Ian McKechnie viveu todas as personagens possíveis dessa pequena tragédia. Foi o primeiro guarda-redes a sofrer um golo num desempate. Depois tornou-se o primeiro a defender um penálti. E, finalmente, teve de abandonar a baliza, atravessar o campo psicológico que separa o herói do culpado e colocar ele próprio a bola na marca. McKechnie rematou, a bola bateu na barra e o Manchester United venceu por 4-3. O homem que tinha acabado de descobrir como se defendia um penálti, percebeu também como se perdia por causa de um. É difícil imaginar uma metáfora mais perfeita para o futebol.
Talvez seja por isso que continuamos fascinados pelos penáltis. Porque comprimem, em poucos segundos, tudo aquilo que é o futebol. Talento e medo. Preparação e acaso. Coragem e dúvida. Glória e culpa.
Depois daquela noite vieram milhões de penáltis. Vieram as mãos de Schumacher e as pernas de esparguete de Grobbelaar. Veio Panenka a descobrir que era possível desafiar um guarda-redes com a delicadeza de uma colher. Vieram Taffarel, Casillas, Buffon, Dibu Martínez. Veio Ricardo que, ao contrário de Ian McKechnie, descobriu a glória das duas formas. Com luvas e sem luvas. Vieram finais que fizeram países inteiros festejar nas ruas e outras que deixaram milhões de pessoas incapazes de sair de casa.
Mas antes de todos eles houve uma noite quente em Hull. Um estádio inglês. Uma competição que praticamente desapareceu da memória. Ninguém naquela noite podia imaginar o monstro emocional que acabava de ser criado. Até então, quando 120 minutos não chegavam, o futebol podia entregar o destino a uma moeda. A partir de 5 de agosto de 1970, decidiu fazer algo muito mais humano. Entregou-o ao medo. A uma crueldade, sim. Mas uma crueldade irresistível.