Jessica e Owen Dale têm dois filhos em comum. Instagram Jessica Beaumont
Jessica e Owen Dale têm dois filhos em comum. Instagram Jessica Beaumont

A vida de uma WAG não é só luxo e 'glamour'

Jessica Beaumont, mulher do extremo inglês Owen Dale, explicou numa entrevista à BBC que a vida milionária associada aos futebolistas e às suas famílias está longe de ser um conto de fadas. Porém, há coisas muito boas

A vida de Jessica Beaumont, companheira do futebolista Owen Dale, é um exemplo da instabilidade que marca a carreira de muitos jogadores e das suas famílias. A mudança mais marcante ocorreu quando o jogador foi emprestado ao Portsmouth, a mais de 320 quilómetros de distância, logo após o nascimento do filho do casal.

«O Owen estava ao telefone com o treinador e o seu agente enquanto eu estava em trabalho de parto. Esperaram que eu desse à luz e depois ele foi emprestado praticamente assim que saí do hospital», recorda Jessica à BBC.

A transferência para Portsmouth, uma cidade que Jessica nunca tinha visitado, coincidiu com a compra da primeira casa do casal em Congleton, perto da família dela em Stoke on Trent. Passaram apenas uma noite na nova morada antes de terem de se mudar. «Desde que vivemos juntos, mudámo-nos cinco vezes em cinco anos», afirma Jessica, que reconhece que, apesar da incerteza, esta é «uma posição muito afortunada para se estar numa idade jovem».

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A janela de transferências, que ocorre duas vezes por ano, em janeiro e no verão, para os clubes da Premier League, da English Football League (EFL) e da Women's Super League (WSL), dita o destino de inúmeros atletas. Para a maioria, mudar de clube é uma parte integrante do futebol moderno.

Jessica conheceu Owen quando este jogava no Crewe Alexandra, seguindo-se uma transferência para o Blackpool. «Não comecei a namorar com ele por ser futebolista, por isso nunca considerei a vida de futebolista, o facto de ele poder ter de se mudar à última da hora», explica. «Simplesmente conhecemo-nos e houve química».

A mudança para o Blackpool foi inicialmente um empréstimo com opção de compra, o que deixou o casal em suspenso durante seis meses, período em que Jessica estava grávida do filho, Xavier. O Blackpool acabou por contratar Owen, mas pouco depois voltou a emprestá-lo, uma prática comum para jovens jogadores ganharem experiência.

As mal amadas WAG's

A sigla WAG — «Wives and Girlfriends» começou a ganhar força no Reino Unido no início dos anos 2000, sobretudo através da imprensa tabloide britânica, e quer dizer literalmente 'mulheres e namoradas'. Embora a expressão já fosse usada anteriormente de forma mais genérica, foi durante o Mundial de 2006, na Alemanha, que se tornou verdadeiramente conhecida internacionalmente e passou a ser quase permanentemente associada ao futebol. A seleção inglesa tinha uma série de jogadores muito mediáticos — David Beckham, Wayne Rooney, Michael Owen, Steven Gerrard, entre outros — e as respetivas companheiras começaram a ter enorme exposição nos jornais e revistas. O Mundial de 2006 foi praticamente o momento de explosão do fenómeno. As companheiras dos jogadores eram fotografadas em restaurantes; hotéis; lojas de luxo; festas; praias; bancadas dos estádios. A imprensa começou a acompanhar o que vestiam, onde compravam, quanto gastavam e com quem estavam. Entre as mais conhecidas estavam Victoria Beckham, mulher de David Beckham, Coleen Rooney, então namorada de Wayne Rooney, e Cheryl Cole, então mulher de Ashley Cole. A imprensa britânica chegou a transformar a presença destas mulheres numa espécie de “segunda competição” paralela ao Mundial. A indústria das celebridades ganhou um novo horizonte com as WAG e um estereotipo associado ao luxo e ao ócio.

«Quando aconteceu a mudança para o Portsmouth, foi um choque. Tive de perceber rapidamente : 'OK, esta é a minha vida agora'», admite Jessica. O casal decidiu que uma viagem de ida e volta de 10 horas no dia de folga de Owen para ver o filho recém-nascido não era viável. «Pensámos: 'Se ele não jogar bem por estar cansado, qual é o sentido disto?'», conta. Acabaram por arrendar a casa de Congleton e, desde então, vivem em casas alugadas.

Esta instabilidade teve um grande impacto na vida profissional de Jessica, que teve de abandonar o seu emprego. «Estava a terminar a minha licenciatura em Direito e tinha um emprego na altura. Tive de lhes dizer que não voltaria após a licença de maternidade», lamenta. Complicações pós-parto dificultaram ainda mais a sua capacidade de viajar. Atualmente, trabalha a partir de casa na área das redes sociais, onde também partilha as suas experiências no TikTok com as hashtags #wag e #waglife.

A escolha da nova casa foi feita à distância. «Tinha o Owen ao telefone a dizer-me: 'Já vi algumas casas. Escolhi esta. É aqui que vamos viver', enquanto me mostrava tudo por FaceTime», recorda. «Naquele momento, senti-me completamente sem controlo».

Apesar do isolamento e dos desafios de estar longe da família, Jessica também guarda boas recordações, especialmente da amizade que desenvolveu com a companheira de outro jogador. «Tive muita sorte por ela ficar muitas vezes comigo quando o Owen estava fora. Digo-lhe sempre que vou valorizar esse tempo para sempre, porque estava muito isolada. Os nossos horários eram os mesmos, quando o Owen viajava, o parceiro dela também viajava. Assim, não tinha de ficar completamente sozinha e ela compreendia».

Owen Dale, de 27 anos, jogou a maior parte da sua carreira na League One, com passagens pelo Championship ao serviço do Blackpool e do Oxford United. Na época passada, esteve emprestado ao Plymouth Argyle, onde realizou 28 jogos, e atualmente é um jogador livre, o que significa que pode assinar por um novo clube sem custos de transferência.

O jogador reconhece os sacrifícios feitos pela sua família. «Há sempre o risco de uma mudança não correr bem. Posso desenraizar toda a minha família para esta nova aventura e tudo correr mal», reflete. «Ao longo dos anos, aprendi que, até haver um contrato assinado, podes acabar em qualquer lado».

A instabilidade afeta também os filhos do casal, Xavier e a bebé de dois meses, Etta. A proximidade da idade escolar de Xavier acrescenta a necessidade de estabilidade à equação. Planear eventos simples, como a sua festa do quarto aniversário, tornou-se um desafio. «Não podíamos planear uma festa em Plymouth com balões e bolos, porque não sabíamos se íamos estar lá», explica. A solução foi organizar a festa perto da família de Jessica, em Stoke-on-Trent.

Apesar das dificuldades, Jessica tenta transformar cada mudança numa experiência positiva para os filhos. «Dissemos ao Xavier que talvez nos mudemos em breve e que, quando isso acontecer, vamos tirar a bicicleta dele do armazém», partilha. «Desta forma, ele sabe que a mudança é uma possibilidade e, esperemos, não está a pensar no que vai perder, mas sim no que vai ganhar».

Para quem vive uma situação semelhante, Jessica deixa um conselho fundamental: «O mais importante para mim, e o que aprendi em primeira mão, é a importância de manter a própria identidade fora do futebol». Aconselha a ter um passatempo, uma rotina ou um trabalho que se possa fazer a partir de casa, algo que «se possa mudar connosco», para não colocar pressão adicional no parceiro.

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